Maria Caetano
O historial de actividade sísmica em Macau dá conta de pequenos tremores regulares, que passam sem serem notados pelo cidadão comum – apenas os aparelhos do Centro de Vigilância Sísmica registam as oscilações que, por regra, não vão em intensidade além de 1.0 na escala de Richter. O tremor máximo sentido desde que há registo no território nunca ultrapassou os 3.0, de acordo com os dados do centro dos Serviços de Meteorologia e Geofísica.
Sendo a RAEM afectada por três a quatro tufões por Verão, são os ventos fortes a principal fonte de preocupações das autoridades locais que, há dois anos, decidiram actualizar e tornar mais rigorosa a legislação existente no que toca à segurança do edificado de Macau perante a acção de sismos e tufões.
O Regulamento de Segurança e Acções em Estruturas de Edifícios e Pontes foi revisto, num trabalho que coube ao Laboratório de Engenharia Civil de Macau (LECM), e entregue em Abril do último ano à Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT). Houve uma apresentação pública do novo documento, publicitada pelos órgãos de informação locais, mas até hoje o novo diploma ainda não entrou em vigor.
“A revisão legislativa está já nas mãos da Direcção de Obras Públicas. Terminámos a nossa parte. Cabe-lhes agora decidir quando publicar e fazer vigorar a nova regulação. É esta a situação actual”, explicou ao PONTO FINAL Ao Peng Kong, o presidente da direcção do LECM – órgão que se encontra sob a tutela governamental, embora funcionando com autonomia de gestão e financeira, para acompanhar tecnicamente a acção da DSSOPT.
A revisão tornou-se necessária para uma actualização dos conhecimentos sobre a acção dos fenómenos de vento e terramotos sobre as estruturas. O LECM reconhece que o documento produzido permite métodos de análise mais científicos e dinâmicos no conhecimento dos efeitos de vento e sismos sobre as construções e uma adequação mais cautelosa à realidade local. “Se todos os projectos seguirem rigorosamente a regulamentação serão bastante seguros”, garante Ao Peng Kong.
“Não podemos garantir que 100 por cento das construções cumpram a lei, nem podemos dizer sobre um edifício particular se é ou não seguro. É preciso haver uma análise individual”, afirma porém o responsável.
Insondáveis ruínas
Se a nova construção edificada em Macau pode ser sujeita a fiscalização sistemática da qualidade das estruturas e resistência destas à acção de eventuais catástrofes naturais – tarefa que compete à DSSOPT -, o mesmo não se pode dizer das edificações mais antigas. A intervenção na conservação destas construções é pontual e feita ao sabor de queixas – na sua maioria feitas por vizinhos de edifícios em risco, por conta de infiltrações ou rachas existentes.
Apesar do registo de baixa actividade sísmica em Macau, colocar-se-á a questão de saber como reagiriam os prédios e outras estruturas da cidade e ilhas perante um sismo de maior intensidade – a vizinha província de Guangdong tem, ao longo dos tempos, registado terramotos regulares que atingem magnitude superior a 5.0 na escala de Richter. Colocar-se-á também, com maior pertinência, a questão de saber como Macau responderia a um tufão de ventos mais poderosos do que aqueles que habitualmente se fazem sentir no território.
O diagnóstico é optimista. O LECM entende que a RAEM sairia relativamente segura de uma catástrofe natural de semelhantes dimensões – embora haja excepções. A fachada multissecular da antiga Catedral de São Paulo manter-se –ia? Ou as Ruínas, de facto, ruiriam? Ninguém sabe e não há estudos ou tecnologias disponíveis que permitam, hoje, responder à questão.
“Não sabemos. Não temos provas que o sustentem. Não existe qualquer projecto de estrutura das Ruínas de São Paulo, nem tão-pouco conhecemos qual a estrutura da fachada das Ruínas – ninguém sabe. Talvez não seja conhecido, mas a estrutura da fachada é oca em algumas partes. A fachada não é toda sólida”, admite Ao Peng Kong sobre o exemplo escolhido para ‘testar a resistência’ da cidade – logo, justamente, o mais insondável de todos.
“Poderíamos abrir um buraco para conduzir uma investigação, mas ninguém nos permitiria fazer isso. É difícil dizer. Já tentámos usar equipamento sónico para apurar qual é ao certo a estrutura da fachada. Mas ninguém sabe. Aquilo que sabemos é que se tem mantido de pé por mais de duzentos anos. Relativamente a este edifício patrimonial, não há muito que possamos fazer para reforçar a estrutura. Podemos apenas monitorizá-lo e evitar que se deteriore”, afirma o presidente do LECM.
Análise mais científica
O que é, sim, possível fazer é assegurar que cada nova estrutura levantada na RAEM obedeça a critérios mais rigorosos no que toca à estabilidade e segurança destas. A nova legislação que aguarda entrada em vigor altera normas com mais de três décadas, algumas delas redigidas a pensar na realidade portuguesa e transpostas depois para os códigos locais.
Na regulamentação ainda em vigor, a análise dos efeitos da actividade sísmica e dos ventos é feita tendo como base intervalos de ocorrência de duzentos anos para determinação dos registos de maior intensidade. No novo diploma, o período é reduzido para cinquenta anos, atendendo que a força dos ventos é maior em Macau do que no cenário português e se procura ter um conjunto de dados de índole mais conservadora, e considerando também que é esse o intervalo usado para análise em toda a região do Pacífico.
O novo texto impõe também métodos mais científicos para analisar o impacto nas estruturas. “Através de um teste em túnel de vento podemos simular o mapa geológico de Macau e, com a localização de uma estação de observação meteorológica, construímos um modelo tridimensional de Macau. No túnel de vento, simulamos a velocidade de vento máxima registada. Com esse perfil tridimensional é possível saber qual a acção do vento”, explica Ao Peng Kong. A simulação foi já feita no âmbito de estudos conduzidos em colaboração com a Universidade de Hong Kong, que possui um túnel de vento e este teste poderá, a partir da entrada em vigor do diploma, ser exigido pela DSSOPT para aprovação dos projectos com dois propósitos diferentes. “Desenvolver um edifício como a Torre de Macau ou outro de grande altura exige a realização de dois estudos. Em primeiro lugar, é necessário garantir que o edifício suporta a acção do vento mais forte ocorrido nos últimos cinquenta anos. Depois, é preciso analisar o cenário face aos ventos fracos que no Verão não têm grande circulação”, diz Ao. A análise ao comportamento dos edifícios perante cenários de ventos fortes e fracos permite avaliar a resistência a tufões e o impacto ambiental, ao nível da eventual poluição concentrada por falta de circulação de ar.
“É um método mais científico para encontrar soluções para reduzir casos de segurança deficiente”, defende o responsável do LECM. A mesma análise dinâmica – que substitui cálculos considerados mais rudimentares – é aplicada no que toca à acção dos sismos. Para avaliar os efeitos do movimento do solo na estrutura dos edifícios, é também possível simular a acção de um terramoto numa mesa sísmica (‘shake table’) – outro dos procedimentos de segurança avançados recomendados pela nova legislação. Os dados para teste têm como referência a informação recolhida pelo departamento de sismologia da província de Guangdong, com ajustes que decorrem do facto de a RAEM ter um diferente tipo de solos (grande parte, zonas de areia reclamadas ao mar). A propagação das ondas sísmicas ocorrerá por isso de forma diferente.
Testes facultativos
Os testes à performance dos edifícios em simulador não têm, no entanto, carácter obrigatório. “A legislação estipula exigências mínimas para os edifícios. Mas há critérios mais avançados se o objectivo for que a construção tenha uma melhor performance, seja mais económica ou tenha impacto ambiental mais reduzido. Não é algo que a lei imponha, mas que decorre do bom-senso do promotor ou do Governo”, esclarece. “Naturalmente, o Governo pode encorajar a realização do teste e exigir este relatório como condição para que o projecto seja aprovado”.
Quanto ao edificado mais antigo, apesar de não ser possível garantir os mesmos critérios de qualidade das estruturas, o presidente do LECM garante que estão de alguma forma preparados para resistir a terramotos de maior intensidade. “Se um edifício é forte o suficiente para suportar a força do vento, também resistirá à força sísmica”, entende.
À semelhança do vento, também a actividade sísmica exerce uma força lateral nos edifícios, embora proveniente do solo. De certa forma, tendo desde sempre sofrido e ponderado a acção dos tufões, Macau está melhor preparado para garantir a segurança dos edifícios em caso de terramoto.
De alguma forma, defende Ao Peng Kong, a preparação dos territórios e países para catástrofes naturais desta dimensão “ é uma questão de filosofia”. “No Japão – lembra – há grandes terramotos muito frequentes. Portanto, é uma questão considerada sempre que se constroem edifícios. Por isso, podemos dizer que são mais seguros”. Num exemplo contrastante, a província de Sichuan, “há mais de cem anos que não sentiam um terramoto”, quando a 12 de Maio do ano passado a terra tremeu provocando danos massivos. “Quando construíam edifícios, não ponderavam a questão. Os projectistas nunca tinham experienciado terramotos, e gerações antes deles também não. Não haver terramotos, significava apenas que se estava a acumular energia entre as placas. Subitamente, um dia registou-se o sismo e os prejuízos foram os piores”, recorda Ao Peng Kong. Neste sentido, a preparação da RAEM para os sempre recorrentes fenómenos de tufão parece deixar a região melhor preparada para um eventual sismo de grande magnitude.