“Organização foi uma vergonha”

Campeonato Asiático só teve quatro selecções nas duas categorias, masculina e feminina. As condições de organização foram pior do que más. Para cúmulo, o país anfitrião não se fez representar – a não ser na variante ‘in line’!

Vítor Rebelo

Os homens do hóquei em patins da RAEM cumpriram o objectivo: trazer de regresso a casa o quarto campeonato asiático consecutivo, o sexto no palmarés.
Foi uma derradeira jornada de nervos, face ao Japão, que também tinha ganho todos os jogos anteriores, ainda que por números bem menos dilatados do que Macau.
Por isso mesmo, ao “cinco” orientado por Alberto Lisboa bastaria a igualdade para terminar a competição mais uma vez em primeiro lugar.
Só que as dificuldades foram muitas, principalmente de “bastidores”.
No balanço ao Asiático, o treinador Alberto Lisboa disse ao PONTO FINAL que a organização foi “uma vergonha” e que “até os árbitros ajudaram à festa”.
“Tivemos tudo, mas mesmo tudo, contra nós e mesmo assim conseguimos revalidar o título de campeões. Daí que tenha melhor sabor quando se ganha no meio de tantas dificuldades.”
Lisboa não poupa a organização do Asiático, que terá sido muito má, em diversos aspectos, desde o pavilhão, apenas preparado para o in line, até à comida, ao frio, às arbitragens.

Recinto deficiente

Na opinião do técnico, o recinto tinha péssimas condições para a prática do hóquei em patins.
“A dimensão inicial era de 48 metros de comprimento, por 28 de largura. Os responsáveis da CARS (Confederação Asiática de Roller Skating), encurtaram as dimensões para 44-25. O recinto era oval e as tabelas não eram direitas. As balizas eram as de in line, sem barra de protecção e sem rede a meio. O pavilhão não era aquecido, quando estavam na altura temperaturas na ordem dos 12 graus negativos. A maioria dos jogadores deu-se mal com tudo isto, a que se junta a comida. Passámos a vida com diarreia e a vomitar.”
Foi assim, neste ambiente, que as selecções de hóquei em patins de Macau, masculina e feminina, tiveram de disputar mais uma edição do Asiático.
A prova voltou a registar ausências, a mais notada a da casa, a República Popular da China, que apesar de organizar o evento não apresentou equipas de hóquei em patins. Apenas de in line. Talvez por isso as más condições oferecidas aos outros…

Más arbitragens

No hóquei em patins apenas jogaram Japão, Taiwan e Índia, nas duas classes, quando se esperava pelo menos a presença do Paquistão.
Nos homens, a RAEM venceu Taiwan por 6-2, a Índia por 12-7 e empatou com Japão a dois golos. No jogo da autêntica final, no último dia, face aos japoneses, o conjunto macaense começou por marcar primeiro, através de Hélder Ricardo, chegando ao intervalo com essa vantagem tangente. Na segunda metade, Macau aumentou para 2-0 (Ricardo Atraca), com o Japão a reduzir a oito minutos do fim e a empatar a dois do derradeiro apito.
“Foi um jogo de sofrimento, com muita razão de queixa da arbitragem, que cometeu muitos erros e apontou sete grandes penalidades contra nós. Não tivemos um único penalti a nosso favor. Eles, os árbitros, misturaram tudo, hóquei em patins tradicional e in line. Assim a modalidade a nível asiático não vai a lado nenhum”, desabafo de Alberto Lisboa, para quem “os japoneses estavam um pouco melhor preparados, fisicamente, do que nós.
“Eles eram mais rápidos, mas a nossa habitual forma de jogar, segurando a bola e actuando com mais calculismo, acabou por ser determinante para mais uma vitória. Não há dúvida que somos os melhores do continente asiático e a diferença seria certamente mais acentuada se não se registassem todos estes obstáculos extra-competição.”
De referir que o Japão, que é já o rival tradicional de Macau nestas andanças há vários anos, superou dificilmente a Índia por 4-3 e Taiwan por 5-2, daí a necessidade que os nipónicos tinham em vencer na derradeira jornada.
A equipa japonesa teve mesmo uma grande oportunidade de “roubar” o título a Macau, quando a 20 segundos do fim desperdiçou um castigo máximo. Defendeu o guarda-redes Leong Chak Kin, eleito o melhor do Asiático.

In line ganharam um, meninas só derrotas

As raparigas, também treinadas por Alberto Lisboa, perderam todos os desafios: Japão (5-0), Índia (11-1, tento da RAEM marcado por Dulce Atraca Lisboa) e Taiwan (13-1, golo de honra da autoria de Sara Barrias).
“Não se poderia esperar outra coisa, já que a diferença ainda existe entre a nossa equipa e as restantes. Mas vai-se notando evolução e conseguiu-se encurtar a diferença de golos, o que era um dos objectivos. Elas ficam com mais ritmo competitivo. Tal como os homens, também a selecção feminina acusou o ambiente, com algumas jogadoras a ficarem doentes.”
No que toca ao in-line, a boa surpresa de uma vitória na segunda presença num Asiático. Macau tinha perdido todos os desafios em 2007, na Índia, e agora derrotou os indianos por 5-2. De resto, desaires face a República Popular da China, a selecção campeã (18-0), Taiwan (13-0), Irão (14-0) e Hong Kong (14-1).
Hélder Ricardo, jogador da selecção de Macau em hóquei em patins tradicional, é o orientador da modalidade na versão ‘in line’. Fez o balanço da prova:
“Foi bom ter estado a competir neste Asiático, como forma de ganhar contacto a nível internacional. Já sabíamos das dificuldades, mas conseguimos uma primeira vitória, o que dá alento para continuar. Nota-se evolução e isso é o mais importante. Também tivemos problemas com a doença de atletas, o que afectou a prestação ao longo do campeonato.”
Os golos da equipa do território foram apontados por Justin Young (3), Adam So, Hermínio Chang e Chan Wai Kit.
Hélder diz que o in-line (patins em linha) “está a subir de qualidade na Ásia.”

Tristeza pelo sucedido

O presidente da Associação de Patinagem, António Aguiar, que por afazeres profissionais não se deslocou a Dalian, não deixou de lamentar a pobreza do campeonato: “Pelo eco das notícias vindas de Dalian, fico muito triste por tudo o que se passou em termos de organização e satisfeito pela conquista de mais um título da equipa masculina e a primeira vitória do in-line.”
O antigo membro da Confederação Asiática e do Comité Internacional de Rink Hockey, reconhece que nestas condições o hóquei tem muito a perder.
“Pelos vistos foi muito amador por parte da China, tudo feito em cima do joelho. Para fazer isto é preferível não organizar. Prometeram dois campos e só houve um, apenas preparado para o in-line. A logística não funciona, os árbitros não estão preparados. O hóquei em patins não sai dignificado e não é possível evoluir neste continente.”
Sobre a próxima edição do Asiático, Aguiar diz ser ainda cedo para se saber. Interrogado sobre a possibilidade de ser Macau a levar a efeito o próximo torneio, o dirigente não coloca de parte essa hipótese:
“Teremos de pensar nisso, mas ainda é cedo. Teremos de fazer uma avaliação. O ideal, e que nós propusemos ao IDM, seria tornar realidade a construção em Macau de uma pista de corridas e então organizar um Asiático com todas as categorias. Mas até agora nada se adiantou.”
A Confederação Asiática de Roller Skating tem a sua próxima assembleia geral para eleições, agendada para Kaoshiung (Taiwan), por volta do mês de Setembro, aquando da realização do campeonato de corridas em patins e prova artística “e aí se poderá falar na possibilidade de ser um local a organizar tudo no futuro”.
O presidente da patinagem do território foi sondado para integrar a lista de dirigentes da CARS, para o próximo mandato, mas recusou para já o regresso às andanças internacionais.

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