Risco de terrorismo em Macau é “médio ou baixo”

O que têm Macau e os seus habitantes em visita ao exterior a recear das ameaças da Al-Qaeda? Muito pouco, de acordo com o dirigente máximo da FTI-Internacional – antigo braço de investigação de uma das maiores empresas de consultoria a nível mundial e hoje líder na avaliação de riscos na Ásia. Em entrevista ao PONTO FINAL, Stephen Vickers diz, no entanto, que tudo dependerá do modo como Pequim lidar com os motins em Xinjiang nas próximas semanas.

Ricardo Pinto

Quão séria é esta ameaça da Al-Qaeda?
Stephen Vickers – Eu tenho vindo a monitorizar a situação em Xinjiang há já algum tempo e a avaliação que faço é que é grave e poderá levar a Al-Qaeda e outros grupos muçulmanos com agendas políticas radicais a fazerem de interesses chineses um alvo das suas acções, se entenderem que a China está a reagir de forma excessiva aos acontecimentos em Xinjiang. Mas não vejo indícios disso por agora. Mesmo em alguns massacres perpetrados nos últimos dias pelos uygur, nada indica que tenham recebido armas do exterior. Daí que considere estas notícias sobre a ameaça da Al-Qaeda um bocadinho alarmistas.
Mas deve ou não o governo chinês tomar medidas para a prevenção de ataques?
S.V. – Externamente, o facto da China ter investimentos em países onde há rebeliões levanta, naturalmente, um risco para as empresas chinesas que lá operam. Mas isso não tem nada a ver com Xinjiang. Há o risco de ataques simplesmente porque os chineses estão lá a operar, da mesma forma que funcionários de empresas americanas ou britânicas são também alvo de ataques dos grupos rebeldes. O nível de ameaça só aumentará se a violência em Xinjiang escalar. Mas, como disse, ainda é um pouco cedo para perceber o que se vai passar a seguir. Aqui na International Risk estamos, obviamente, muito atentos ao desenrolar da situação.
Internamente, diria que é muito improvável que a violência no Xinjiang venha a transbordar para áreas de etnia chinesa. O grande risco a este nível é o envolvimento de terceiras partes. Para lá das fronteiras da China, na Ásia Central, é muito fácil comprar armas e há um bom número de combatentes sempre prontos para se juntarem à jihad (guerra santa). Mas não tenho indicações de que isso possa estar a acontecer.
E as autoridades de Macau e Hong Kong, devem elas sentir-se preocupadas com as ameaças, ou ataques terroristas nas duas regiões administrativas especiais são absolutamente improváveis?
S.V. – É sempre boa ideia monitorizar os riscos, mas não julgo que os acontecimentos em Xinjiang venham a aumentar a ameaça de ataques terroristas em Macau e Hong Kong.
Território chinês com vários casinos americanos aqui instalados, Macau é agora um alvo especialmente apetecível para grupos radicais muçulmanos? É possível que haja já “células adormecidas” desses grupos na região?
S.V. – Acredito que os problemas venham a ficar circunscritos a Xinjiang. Os uygurs têm uma aparência diferente, falam uma língua diferente, não seria fácil para eles operarem fora de Xinjiang. E a Al-Qaeda tem vindo nos últimos anos a conhecer um enfraquecimento dos seus apoios no Sudeste Asiático, devido à acção das forças de segurança contra os grupos radicais a ela associados.
Macau e Hong Kong têm pequenas comunidades de paquistaneses e de nacionais de outros países do sul da Ásia, que parecem estar um pouco desintegrados por falta de empregos e apoios. Não são terroristas. Mas há o risco de poderem vir a ser usados por grupos radicais em actividades que facilitem ataques terroristas, um pouco à semelhança do que aconteceu em Bali. Mas, uma vez mais, a avaliação que fazemos do perigo de acções terroristas em Macau é que ele é médio ou baixo.
O risco estratégico número 1 que Macau enfrenta, já agora deixe-me que lhe diga, é um surto epidémico de gripe das aves ou dos porcos, por exemplo. Isso manteria os turistas afastados de Macau, o que se traduziria numa drástica redução do dinheiro em circulação. O segundo risco estratégico envolve as decisões do governo central que possam afectar Macau. Aqui, o cenário aponta para melhorias no curto prazo. O terrorismo surge apenas como terceiro risco estratégico, de acordo com a nossa avaliação.
O que o leva a dizer que o cenário melhora no curto prazo, relativamente à acção do governo central? Acredita que Pequim possa finalmente abrandar as restrições à emissão de vistos que já estão a ser aplicadas há quase 2 anos?
S.V. – Acredito, sim. E penso que pode haver outras boas surpresas para o futuro Chefe do Executivo até ao final do ano. Sejamos justos: à China foi prometida uma coisa diferente. Foram prometidos resorts integrados, combate à actividade das tríades, luta contra a corrupção. Macau não cumpriu e a expansão do crime organizado e da corrupção surpreenderam muita gente na China.
Agora, Pequim quererá mostrar que tem plena confiança no novo Chefe do Executivo. Em Macau não faltam leis nem regulamentos, mas nem sempre são respeitados. Com Chui Sai On a prometer a sua implementação, estou certo que Pequim irá abrandar a pressão sobre Macau.
Voltando à ameaça terrorista, devem os turistas de Macau e Hong Kong, especialmente os de etnia chinesa, pensar duas vezes na escolha dos seus próximos destinos? Devem passar a evitar países muçulmanos?
S.V. – Devem evitar Xinjiang, isso com toda a certeza. Pelo menos por agora. Tudo depende do que se passar nas próximas semanas. Se a China conseguir evitar má publicidade suplementar em relação à situação que se vive em Xinjiang, diria que o risco de ataques contra turistas chineses de Macau ou de qualquer outra parte da China permanecerá baixo. No entanto, a prudência é sempre um bom conselho.

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