Isabel Castro*
É um homem satisfeito com a forma como tudo aconteceu. Vasco Rocha Vieira não se pronuncia sobre os caminhos que Macau seguiu em dez anos de região administrativa especial, mas diz que os sinais que lhe vão chegando do que por aqui se passa fazem-no sentir satisfeito com o trabalho desenvolvido. Sente que valeu a pena, que foi útil e que os objectivos perante a História foram cumpridos.
O último governador português do território nunca sentiu ao vivo o que é a RAEM. Diz que não se quis imiscuir nas questões de Macau e da China e não confirma nem desmente um regresso à cidade, nem por altura das comemorações oficiais do 10º aniversário da região administrativa especial. Questionado pelo PONTO FINAL sobre essa possibilidade, o general remeteu a resposta para instâncias superiores: “O futuro a Deus pertence”.
Rocha Vieira fez ontem em Portugal o balanço do processo da transferência do território, no seminário Rumos de Macau, no Centro Científico e Cultural de Macau.
Em traços gerais, não poderia ter sido mais positivo. A sua missão, explicou, consistia em garantir que a transição era feita de forma a honrar o compromisso do passado e do futuro, que Macau tivesse autonomia e fizesse a diferença em relação ao resto da China.
Mas nem tudo correu como o então governador pretendia. Houve duas questões a que se opôs: a solução encontrada para a Escola Portuguesa e a forma como se tratou dos impostos sobre o jogo.
Rocha Vieira entendia que o dinheiro resultante da tributação, que até 1997 era canalizado para a Fundação Oriente, deveria ter passado a ser investido em instituições de defesa da cultura portuguesa. O facto de assim não ter acontecido, vincou, impossibilitou a viabilização de algumas dessas instituições.
Quando chegou a Macau, relatou, havia duas sensibilidades entre os portugueses: alguns entendiam que não valia a pena investir e houve quem defendesse o contrário. Ele encontrava-se deste lado da barricada.
Enquanto governador do território, defendeu três propósitos que considerou de grande relevância: assegurar a autonomia, a identidade e a singularidade de Macau, e ainda a defesa dos interesses portugueses. Se tal não tivesse sido afiançado, a missão não teria seria dada como resolvida.
Da lista de preocupações fazia também parte a liberdade religiosa, que fez questão de tentar garantir. E fez questão também de não deixar que o enquadramento internacional afectasse o processo de transferência (um processo original, dadas as diferenças de Macau e de Hong Kong) numa altura em que a China estava a ser muito pressionada por causa do modo como encarava os direitos humanos.
Da parte da China, havia duas preocupações: a língua e as reservas financeiras, disse ainda o último governador que, segundo disse, sempre foi favorável a que as reservas financeiras passassem para a administração que se seguiu, uma posição que nem sempre for bem recebida e lhe causou algumas divergências.
Vasco Rocha Vieira quis criar uma região administrativa especial com viabilidade no futuro, disse o próprio, que falou ainda da relação entre a China e Portugal durante o período das negociações. Nesta matéria, destaca a lealdade entre as partes, a boa postura negocial que permitiu ultrapassar divergências, assim como a imagem que se passou para a praça pública. Mesmo quando o processo esteva parado, nem a China nem Portugal deixaram transmitir esta ideia para fora, referiu.
Apesar da afirmação do sucesso da transição a que presidiu na fase mais emblemática, Rocha Vieira guarda ainda alguma mágoa sobre a forma como se desenrolou o epílogo do capítulo português de Macau, destacou a Agência Lusa.
“Foi um capítulo que encerrou. Houve algumas coisas em que eu acho que Portugal não correspondeu como eu achei que devia corresponder, quando digo Portugal digo alguns responsáveis portugueses, e se não há interesse nas relações com Macau e com a China e em aproveitar esse capital de prestígio e conhecimento … não sou eu que defino o interesse nacional”, afirmou Rocha Vieira à margem do seminário ao ser interrogado sobre uma eventual publicação de memórias ou relato da sua actividade governativa.
“Em termos pessoais, também estive um pouco alheado e isso não constituiu uma prioridade para os tempos a seguir a Macau mas é evidente que se houver interesse no âmbito de algo como o CCCM e se eu puder com algum testemunho escrito ser útil para a história e para a memória da nossa presença em Macau, se houver esse interesse, evidentemente que encararei essa hipótese”, adiantou.
O sucesso da transferência de poderes – de que Rocha Vieira acabou por ser a face no dia 19 de Dezembro de 1999 ao deixar pela última vez o Palácio do Governo de Macau com a bandeira portuguesa apertada ao peito e uma expressão de orgulho pela missão cumprida – acabou por ser ensombrado pela polémica gerada em torno da criação, muito perto do fim da administração portuguesa, da Fundação Jorge Álvares, com uma dotação de 100 milhões de patacas, sede em Lisboa e com Rocha Vieira como presidente.
* com Ângela Braga, em Lisboa, e Lusa