“O mundo fechou os olhos à situação no Índico”

Passividade e negligência. É este o veredicto de Ana Isabel Dias sobre o problema da pirataria ao largo da Somália, que não pára de se agravar.
A antiga jornalista da TDM, hoje residente em Lisboa e colaboradora da RTP Internacional, passou anos no território a estudar o fenómeno da pirataria, para uma tese de mestrado que defendeu com êxito na Universidade de Macau. A tese, a que chamou ‘Pirataria Marítima, uma realidade a três tempos’, por se tratar de “um fenómeno do passado, do presente e do imaginário”, acentua o recrudescimento deste tipo de actividade nos últimos anos e salienta a condição apolítica dos piratas, qualquer que seja a sua área de acção.
Para esta jornalista e investigadora, o crescimento da pirataria em todo o mundo está intimamente ligado ao fim da Guerra Fria. “Há uma relação de proporcionalidade com as crises económicas, mas há também uma ligação muito clara à capacidade interventiva, ao nível da segurança, de cada estado ou região”, salienta. “Não foi por acaso que pouco depois da retirada dos militares norte-americanos das suas bases nas Filipinas, a pirataria aumentou fortemente. O mesmo aconteceu com a retirada dos russos das suas bases no Vietname. Uma das consequências do fim da guerra fria foi, de facto, o aumento da pirataria marítima. Enquanto russos e americanos exibiam o seu poderio militar, os piratas retraíam-se – mas ainda aí não deixaram de fazer das suas e os boat people da Indochina foram as suas principais vítimas, no final dos anos 70, princípio dos anos 80”.
Os piratas não se comportam como movimentos de libertação ou grupos terroristas. Não seguem ideologias e o seu principal objectivo é mesmo fazer dinheiro, por muito que adoptem tácticas ou utilizem armamento habituais em organizações de natureza político-militar. Mas isso não significa que não possam ser usados ou não se deixem usar, de forma oportunista, a troco de recompensas em dinheiro. Um caso que Ana Isabel Dias aponta como exemplo é o sequestro de turistas estrangeiros em Sipadan, na Malásia, em 2001, pelo movimento separatista islâmico das Filipinas, Abu Sayaf. “Todos nós falámos de um grupo supostamente a lutar por uma causa. Pois bem, quem presenciou o ataque e que eu acabei por entrevistar, conta que a forma de actuação e os equipamentos usados denunciavam claramente piratas e não terroristas. Pode isto querer dizer que membros do Abu Sayaf lhes encomendaram a captura de reféns e, se isso de facto aconteceu, todo o tipo de confusões é possível a partir daqui”.
A lei islâmica pune com a pena de morte os actos de pirataria. Mas isso não impede os membros do grupo Abu Sayaf de fazerem uso deles, como não é também dissuasor para os muitos bandos de piratas baseados na Somália, país predominantemente muçulmano. “Eles só aceitam as suas próprias leis”, explica a investigadora. “O que se está a passar agora na Somália é reflexo da falta de atenção de todos os países para a situação naquela região do mundo, para a qual não faltavam avisos da Organização Marítima Internacional, das Nações Unidas. O mundo fechou os olhos à situação no Índico”.
A costa oriental de África, o mar Vermelho e o Golfo de Aden são agora as zonas mais críticas para a marinha mercante de todo o mundo, registando uma subida do número de ataques de piratas, em contraste com a tendência de descida verificada noutras regiões igualmente sensíveis (ver quadro). O despertar da China para o problema e uma maior colaboração das marinhas de guerra de Singapura, Malásia, Filipinas e Indonésia tem permitido conter o fenómeno no Sudeste Asiático. Ao contrário, os piratas beneficiam na Somália do vazio de poder, da falta de equipamento da marinha e da corrupção que grassa na polícia e no exército. “Só atacando estas debilidades será possível combater a pirataria com maior eficácia, não me parecendo que seja realista pensar que um dia será possível erradicá-la por completo”, diz a ex-jornalista da TDM.
Ana Isabel Dias conta ainda que durante a elaboração da tese recebeu informação da Capitania dos Portos de Macau e das autoridades marítimas de Hong Kong, segundo a qual a pirataria teria deixado de existir nas águas próximas das duas regiões administrativas especiais. A investigadora torce o nariz e acha isso “impossível”. Basta ver, por exemplo, que a zona compreendida entre Hainão, Hong Kong e Luzon é uma das consideradas de maior risco em todo o mundo, ainda hoje. O mais provável, diz, é “muitos casos não serem detectados devido à falta de controlo sobre os pavilhões das embarcações que, sendo piratas, não são identificadas como tal”, conclui.

Ricardo Pinto

Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s