Jovem chinesa de Macau põe Obama sob pressão popular

Protestos de rua contra ajuda à banca estão marcados para sábado em todos os EUA

Um grupo de jovens activistas está a lançar um movimento popular para mudar a economia da América. Tiffiniy Cheng, nascida em Macau, é a líder do grupo. E explica em que medida Obama está a decepcionar quem votou nele.

Ricardo Pinto

Tiffiniy Cheng, de 29 anos de idade, foi durante a campanha eleitoral do ano passado uma apoiante activa de Barack Obama, juntando-se ao esforço de centenas de milhar de pessoas que tudo fizeram para levar os eleitores em massa até às urnas, assim garantindo a vitória do candidato do Partido Democrata. Hoje, três meses depois da mudança de inquilino na Casa Branca, Tiffiniy acredita que Obama está a desviar-se das promessas eleitorais de mudança. E por isso está na hora do povo americano sair às ruas para lembrar ao novo presidente o que o fez ser eleito.
O motivo de tudo isto é o apoio que o governo está a dar à banca do país, no valor de centenas de biliões de dólares. Há apenas três semanas, Tiffiniy e alguns colegas activistas de outras campanhas políticas decidiram criar um sítio na Internet chamado A New Way Forward (um novo rumo em frente), destinado à defesa soluções para a crise financeira que não passem pela entrega de tanto dinheiro aos mesmos banqueiros que são, afinal, os principais responsáveis pela própria crise.
Antes disso, já Tiffiniy e os seus colegas tinham criado um outro website, Opencongress.org, onde se dá a conhecer quem financiou as campanhas eleitorais dos senadores e membros da Câmara dos Representantes, e se fornecem pistas sobre a ligação dos deputados a pacotes legislativos que podem estar de alguma forma relacionados com aquelas mesmas fontes de financiamento. Este novo espaço tem conhecido um imenso sucesso entre os cibernautas e é amplamente elogiado pela transparência acrescida que traz à política americana.
O que levou Tiffiniy a reagir aos elevados montantes que o governo transferiu para bancos em dificuldades foi uma entrevista concedida a uma televisão americana por um antigo dirigente do Fundo Monetário Internacional, Juan Reynosa, em que este apontava soluções bem diferentes das usadas por Obama para vencer a crise. No entender deste economista, a recuperação económica falharia a menos que os americanos fossem capazes de quebrar a velha oligarquia financeira. No curto prazo, isso passaria pela nacionalização provisória dos bancos, os quais seriam depois limpos, repartidos em maior número de instituições e mais tarde reprivatizados. Os administradores dos bancos teriam que ser demitidos, o que seria outro desvio da politica até aqui seguida por Obama. Diz Reynosa que quando os bancos crescem demasiado e se tornam os principais financiadores dos dirigentes políticos, torna-se depois difícil agir contra os seus patrões.
O plano, apesar de radical, recolheu imediatamente fortes apoios entre os economistas americanos. E Tiffiniy Cheng, engenheira especializada em planeamento urbano, que já antes fora também uma das principais mentoras da Fundação para a Participação Cultural, não hesitou em abraçar mais esta causa.
Desde que a sua nova página apareceu online, 8.000 pessoas juntaram-se já ao movimento de protesto contra a política de ajuda (bailout) à banca americana, estando previstas para o próximo sábado manifestações de rua em pelo menos 55 cidades dos Estados Unidos, de Anchorage, no Alasca, a Washington, DC, a sede do poder federal.
Numa entrevista recente ao jornal The Nation, Tiffiniy explicou sentir-se “frustrada” com o apoio que os grandes banqueiros estão a receber da Administração Obama, “pois eles são parte da razão por que o sistema quebrou”.
Tal como o economista do FMI que a inspirou, Tiffiniy entende que Obama está a demonstrar que “não tem suficiente independência politica em relação ao sector financeiro para fazer avançar políticas que sejam de interesse público”.
A jovem chinesa de Macau diz que o movimento que ajudou a lançar procura reunir todos os que estão apostados em superar a actual crise com a defesa de princípios que permitam a construção de “uma economia mais saudável, um mercado livre mais são, onde todos possam prosperar”.

A agenda do movimento

Tiffiniy explica que o primeiro passo a dar para se sair do actual impasse é mesmo a nacionalização dos bancos. Não podem ser as mesmas pessoas de sempre a decidir como deve ser gasto o dinheiro dos contribuintes. Até porque se o actual plano de recuperação falhar, quem paga a factura é o povo americano. Se o plano resultar, os lucros ficam todos para os bancos e os seus administradores. “Estamos a dar-lhes muito dinheiro sem lhes impor qualquer tipo de condições”, lamenta.
O passo seguinte seria a reorganização da banca. O governo saneia as contas das grandes instituições financeiras e depois outros bancos serão capazes de construir um novo sistema, com um enquadramento legal regulador mais justo e transparente.
“Não queremos que os bancos possam voltar a crescer até um ponto tal que, no caso de entrarem em falência, arrastem consigo toda a economia”, explica. “As pessoas que estiveram no poder nos últimos 20 anos permitiram que se verificasse uma grande erosão nas leis anti-monopólio e isso permitiu ao sector financeiro a criação de instituições com uma grande rede de influências, capazes de deitar abaixo o pais”.
Tiffiniy não quer mais ouvir que as instituições são grandes demais para que se possa permitir a sua falência (“too big to fail”), como vem acontecendo em relação a alguns gigantes do sector financeiro e também da indústria automóvel. Desde logo, porque essas instituições nunca deveriam ter atingido semelhante dimensão. “Não queremos mais comportamentos monopolistas”, diz. “E não queremos continuar a ver a indústria financeira a jogar com o dinheiro das pessoas de uma maneira tão frívola”. O futuro, tal como o sonha, passa pelo aparecimento de um número muito maior de pequenos bancos, capazes de se desenvolverem de uma forma saudável e sem criar redes de contactos e ligações que acabem por subverter o próprio sistema.
Obama, apesar de ter herdado a crise, tem culpas também no cartório. Prometeu que nenhum lóbista seria admitido na sua Administração, mas o chefe de gabinete do secretário do Tesouro é Mark Patterson, que fez lóbi durante muitos anos pela Goldman Sachs, justamente o banco de investimentos que mais tem vindo a ser apoiado financeiramente pelo governo desde que Obama tomou posse.
“Este é o momento para sair às ruas e mostrar que a opinião pública se pode organizar em torno de ideias, e mostrar a Obama que existe viabilidade política para medidas politicamente justas”, afirma a activista, para quem a assinatura de petições online já não satisfaz o seu irreprimível desejo de ver a situação mudar. “Nós vamos dizer nas ruas, “Não queremos encontros em privado com o Presidente Obama ou com o Congresso, mas vão ter que nos ouvir porque somos muitos. Queremos algo de concreto, para que haja uma mudança estrutural em que possamos mesmo acreditar”, concluiu em alusão ao principal slogan da campanha eleitoral de Barack Obama.

Nascida num campo de refugiados

Tiffiniy Cheng tem as suas raízes familiares na província chinesa de Guangxi e no Vietname. Os seus avós paternos foram vítimas da grande epidemia de fome dos anos 50, quando Mao Zedong lançou o Grande Salto em Frente, que teve efeitos desastrosos para a economia chinesa. A família emigrou para o Vietname, onde o pai de Tiffiniy viria a casar com uma jovem daquele país. Com a chegada dos comunistas ao poder, os Cheng fizeram como milhões de outros vietnamitas e lançaram-se à aventura, a bordo de uma pequena sampana. Alguns meses depois estavam temporariamente alojados no campo de refugiados de Ka Ho, em Coloane, onde Tiffiniy nasceu em Fevereiro de 1980. Aí o Padre Lancelote Rodrigues acabou por encontrar-lhes um novo destino, como fez com milhares de outros refugiados que encontraram em Macau o seu primeiro porto de abrigo. Em Novembro de 1981, a família mudou-se para Worcester, no estado de Massachusetts, onde continua a viver até hoje.
Educada num ambiente familiar predominantemente chinês, onde a música e outras manifestações da cultura de Hong Kong estiveram sempre presentes, Tiffiniy não descansou enquanto não voltou à sua terra natal. No ano 2000, depois de concluir o curso, esteve em Macau, visitou a biblioteca do IACM, folheou jornais antigos e procurou dessa forma reconstruir um passado de que os pais só lhe falam a espaços. Depois voltou com a família, numa viagem ainda mais emotiva. Tiffiniy diz agora ao PONTO FINAL que conta vir de novo a Macau para prosseguir na busca das suas raízes. Até lá, vai continuar atenta ao mundo confuso que a rodeia – em especial, a tudo o que lhe soar a injustiça.

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