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Identidade na ponta da língua

Outubro 29, 2012

A identidade macaense não pode ser reduzida ao domínio das línguas portuguesa e chinesa. Mas o seu futuro estará necessariamente ligado à capacidade de falar sobre isso – dessa forma resolvendo problemas e aproveitando novas oportunidades. Miguel Senna Fernandes, enquanto presidente da Associação dos Macaenses, promoveu um colóquio para que falassem de si próprios. A comunidade respondeu enchendo ontem o auditório da Escola Portuguesa.

Paulo Rego

Falaram durante dois dias, trocaram ideias e assumiram posições, ultrapassando um jeito tradicional e um instinto especial de não se exporem publicamente, sobretudo falando sobre si próprios. Essa proposta de Miguel Senna Fernandes foi cumprida. Deram à língua muitos convidados, mais ilustres e mediáticos, mas também muitos outros a partir da plateia, curiosa e interessada. Depois da política e da economia, no sábado, a identidade macaense foi ontem debatida em colóquio organizado pela Associação dos Macaenses. A língua, a nacionalidade, a educação dos filhos, a empatia e a condição de pertença… aquele sentimento de ser da malta. Temas que afagam o ego, mas também roçam a angústia de um futuro incerto, a urgência que atravessa o presente. Procuram sobretudo projectos e contextos de crescimento numa comunidade que sobretudo recusa diluir-se numa realidade histórica que lhes retira a ponte que faziam para a antiga administração portuguesa e num boom económico que faz tremer o chão dos bairros que lhes moldavam a alma.

A língua, a identidade e a cultura portuguesas como pilares da identidade macaense foi um dos temas mais quentes do colóquio que decorreu durante o fim-de-semana no auditório da Escola Portuguesa. Anabela Ritchie lançou desabridamente o apelo: “Acho muito bem que aprendam chinês, mas falem português com os vossos filhos e netos”, assumindo assim a língua como um valor imperdível. E Jorge Rangel, que chamou à atenção da importância do apoio às Casas de Macau – de cultura portuguesa ou não – provocou explosões de riso na sala, ao dar as boas vindas a “muitos portugueses novos que se vê chegar”, e dos quais espera que “deixem aqui o seu contributo, fazendo mais filhos”.

O risco de chinisação parece claro, sobretudo nas próximas gerações de uma comunidade habituar-se como sendo “mestiça por natureza”, que fala “três línguas ao mesmo tempo”, na descrição de Hugo Silva. Muitas vozes se ergueram garantindo que em sua casa o português será defendido, tendo Rita Santos frisado o contexto político e económico da língua de Camões. “Se a China escolheu Macau para o Fórum da Lusofonia é porque sabe que aqui há uma comunidade que domina as duas línguas e conhece as duas culturas. E isso é muito importante para a nossa sobrevivência”.

Mas esta visão não é de todo consensual. Cecília Jorge, por exemplo, chama a atenção para o sentimento de “nacionalidade portuguesa”, mais relevante do que a língua, ou mesmo para a preservação e desenvolvimento de uma “cultura macaense”, bem mais complexa e dinâmica que a defesa de uma língua. Luís Machado, que defendeu a gastronomia como um dos elementos mais consensuais da afirmação de um povo, apontava para uma jovem de nacionalidade espanhola, que cresceu no Canadá e se expressa preferencialmente em inglês, para significar que, “sendo eventualmente importantes, a língua e o bilhete de identidade não são condição sine qua non para que alguém se sinta macaense”. Carlos Marreiros foi mais longe, prevendo que, depois de 1949, haverá na China continental mais bilingues falantes de chinês e de português do entre os macaenses”. Mas isso não o preocupa, “porque se trata apenas de um instrumento de comunicação”. O que conta, diz, “é a defesa das coisas de Macau, de tudo o que tem a ver connosco e nos define”. Graciete Batalha sintetizou assim a história da língua. “Os povos escolhem sempre a língua de comercio. É por isso que o português foi aqui importante, como o chinês. E por isso acho que, se calhar, não temos de nos preocupar muito com a defesa da língua portuguesa, porque os chineses já perceberam a sua importância. O cônsul-geral de Portugal, Manuel Cansado, respondeu a um lamento de Carlos Marreiros, que denunciou a falta de carinho que por vezes se sente por parte de Portugal, garantindo que estava aqui para dar à comunidade macaense “todos os beijinhos que forem precisos”. Um tom emocional e afectuoso que marcou quase todo o debate, desmentindo alguns receios que Miguel Senna Fernandes tinha confessado sentir por lançar para a discussão temas “tão sensíveis”, que muitas vezes “dividiram a comunidade”. A verdade, confessou Manuel Cansado é que, embora reporte a “activo nacional” que representa a comunidade macaense, “Portugal tem mais história e geografia dos que os meios que actualmente tem”, admitindo indirectamente que muito mais haveria a fazer em defesa dessa portugalidade, houvesse condições para isso.

Alma maquista?

Rita Santos anunciou durante o debate que vai numa reunião com o Chefe-do-Executivo “pedir a regulamentação do artigo 42 da Lei Básica, que protege a cultura e a maneira de ser dos portugueses de Macau – leia-se macaenses. Isto porque, sustenta, “esse artigo é muito vago”, considerando ter chegado à altura de ser clarificado em leis ordinárias e regulamentares.

Num colóquio proposto por Miguel Senna Fernandes para que os macaenses falassem de si próprios, Sérgio Perez apresentou o discurso quiçá mais inovador, recusando a construção de um futuro com base numa “comunidade fechada” e contrapropondo a aposta no conceito “maquista ou macaísta”. Essa visão, defende, deve integrar a defesa de um “Macau com U, e não com O”, numa crítica explícita à migração de uma estética dominada “grandes empresas de Las Vegas”, que na sua opinião não defende o património e a história da cidade, incluindo a estrutura da comunidade local os chineses de Macau, os portugueses que decidem cá residir, ou os macaenses da diáspora… tenham eles ou não cultura portuguesa, na busca da verdadeira “alma de Macau”, que descreve como sendo multilingue, multicultural e multinacional.

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