“É impossível viver sem o Brasil”
O presidente do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, Severino Cabral, defende que o “Brasil é o centro da lusofonia”. A opinião pode ser escutada hoje à tarde, no Instituto Internacional de Macau, onde vai falar da estratégica sino-luso-brasileira e o impacto que esta tem na criação de uma nova realidade mundial.
Pedro Galinha
- Está em Macau para falar da parceria China-Portugal-Brasil. É uma relação complexa?
Severino Cabral – China e Brasil são dois gigantes do mundo contemporâneo. No primeiro caso, estamos a falar da segunda maior economia do mundo e no maior país em termos de desenvolvimento. No segundo, na maior economia da América Latina e no centro de gravidade do mundo lusófono, devido aos 200 milhões de falantes. Pela condição de países emergentes, estes dois países têm uma particularidade: interesses estratégicos convergentes.
- Que são?
S.C. – A preservação das regras da estabilidade internacional e a vontade de crescimento da economia.
- A questão da estabilidade pode ser abalada pelas disputas quer no Mar do Sul da China , quer no Mar da China Oriental?
S.C. – É um problema. A posição chinesa é muito delicada porque tem vizinhos com os quais persistem disputas territoriais antigas. É evidente que a China tem direitos históricos óbvios. No caso das ilhas Diaoyu, antes da anexação japonesa, eram tributárias do império chinês. A relação entre China e Japão é demasiadamente importante para colocar em causa por estas ilhas. É inquietante e diminui o grau de cooperação entre dois “players” globais. Como brasileiro, olho para isto com muita preocupação porque temos uma relação histórica com o Japão e uma parceria estratégica com a China.
- Teme atitudes mais extremistas?
S.C. – As posições mais conciliadores devem persistir. É necessário diálogo e cooperação. Os interesses nesta região do globo encerram uma rede que envolve terceiros. É necessário apostar na contenção.
- Voltando à parceria estratégica sino-luso-brasileira, qual é o papel de Portugal nesta relação?
S.C. – A parceria estratégica que existe é entre Brasil e China, mas tem uma pauta comum. Há um nicho para os dois países que tem que ver com Portugal e uma época muito particular. Portugal foi o primeiro país do Ocidente a estabelecer relações com o império chinês e, durante 500 anos, esteve presente na China. Ao mesmo tempo criou o Brasil. Este é um elo extraordinário e transcontinental. Tenho a percepção de que a China sabe a importância desta relação, que junta ainda África. Todo o legado que existe é valorizado e a criação do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa é prova disso.
- O papel do Fórum cumpre com as exigências actuais que marcam a relação entre a China e os países lusófonos?
S.C. – É necessário ampliar e complementar o Fórum. O que existe é um entendimento básico na comunidade lusófona. Na minha opinião, havendo dois gigantes nesta relação (Brasil e China), as convergências essenciais devem ser definidas pelos seus interesses. É uma razão mais do que humana. O Brasil é essencial para o adensamento da relação e temos de criar mecanismos para que isso aconteça. O Brasil é o centro da lusofonia.
- E Macau?
S.C. – Macau representa o lugar especial de encontro. Foi a partir desta ideia que o Instituto Internacional de Macau e o Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia Pacífico criaram o seminário internacional “O Papel de Macau no Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”, no qual participo [hoje]. Este ano vamos estar também em Pequim, Xangai e Lisboa. Para o futuro, esperamos expandir o projecto para Angola, Moçambique e Timor-Leste.
- Fala-se muito no projecto lusófono chinês. O Governo Central teve capacidade de prever o que os países de língua portuguesa deveriam ter feito antes?
S.C. – Só diz muito sobre a cultura estratégica chinesa. O princípio “Um país, dois sistemas” é bastante revelador de um plano. Em Hong Kong, criou-se uma experiência que manteve a língua inglesa e uma lei de inspiração britânica. Aqui, em Macau, a China criou uma outra experiência com a língua portuguesa e a tradição de Portugal. Esta realidade também trouxe o mundo lusófono e, claro, o gigante Brasil. A China consegue antecipar acontecimentos.
- Portugal pecou por não liderar o projecto da lusofonia e por olhar tardiamente para as potencialidades do mesmo?
S.C. – Portugal, como todos os países pequenos entre gigantes, tem problemas de sobrevivência. Mesmo assim deu respostas fantásticas ao longo da sua História. Hoje, qualquer afirmação de Portugal não pode ser independente do gigante luso da América que é o Brasil. Um país que, recordo, também é africano. Depois, não nos podemos esquecer que o desenvolvimento africano não existe sem a presença da China. Unindo todos estes factores, Portugal tem uma palavra a dizer. No entanto, num mundo global, só sobrevivem os espaços gigantescos. Portugal não vai encontrar isso na pequena Ibéria, abaixo dos Pirenéus. Portugal tem de procurar o mundo que criou e integrar-se nele. Portugal é parte do Brasil, de África e da própria China, devido às relações quinhentistas que tem. Esta é a sua globalização.
- E para a globalização do Brasil, a China é o principal parceiro?
S.C. – Hoje, é impossível viver sem a China, mas também é impossível viver sem o Brasil.

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