As nuvens de Amesterdão
“O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas crónicas antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia daquelas venerandas e deliciosas sagas portuguesas… Em ponto histórico pouco mais eram do que sagas, verdade seja, mas como tais, lindas. E o Duarte Nunes, que era um pobre gramaticão sem gosto nem graça, foi-se às filigranas e arrendados de finíssimo lavor gótico daqueles monumentos, quebrou-lhos; ficaram só os traços históricos que eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma história, tendo apenas destruído um poema. Ficámos sem Niebelungen, podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.”
Almeida Garrett, in Viagens na Minha Terra
Hélder Beja
Há nuvens em Amesterdão e, como o leitor já adivinha, são nuvens de vária ordem. Andar pelas ruas da cidade baixa, passear pelo canais, apreciar as arquitecturas, é fazê-lo quase sempre na companhia de nuvens. Se não são as que se agigantam lá no céu, e que raramente faltam no tecto azul da capital holandesa, são outras mais térreas, a saírem de dentro de estabelecimentos comerciais a que se dá o nome muito clássico de coffee shop mas onde na realidade o café é a última coisa que se consome.
Amesterdão, eu arrisco, passou pelas mãos de um reformador iconoclasta das nossas cidades antigas, que quis truncar todas as imagens, raspar toda a poesia daquelas venerandas e deliciosas ruas holandesas… Em ponto histórico pouco mais eram do que ruas, verdade seja, mas como tais, lindas. E o iconoclasta (que pode ter sido Duarte Nunes ou outro gajo qualquer), que era um pobre gramaticão sem gosto nem graça, foi-se às filigranas e arrendados de finíssimo lavor gótico daqueles monumentos, quebrou-lhos; ficaram só os traços históricos que eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma cidade moderna, tendo apenas destruído parte do poema. Ficámos sem Niebelungen, podendo-o ter, e não obtivemos uma metrópole porque se não podia obter assim.
Não sei se me faço entender: Amesterdão, onde estou depois de uma acidentada viagem de comboio, ainda é um poema, mas um poema que a modernidade foi escavacando, mais ou menos como aqueles livrinhos amarelos e pretos para compreender o Eça, o Camilo, o Camões e os outros escavacam a literatura portuguesa e a cabeça dos cachopos que os usam (escrever ‘que os lêem’ é uma afronta às inteligências, mesmo neste néscio século).
Mas deixa-me revelar-te, ó leitor, como chego ao país das túlipas vindo da bela Berlim, num comboio onde, já to disse, fui encontrar mais uma acendalha de México para a fogueira do caminho.
O único meio de transporte que atrasou em todo este percurso que está quase a chegar ao fim foi, vê tu bem, o comboio Berlim-Amesterdão. E não foi um atraso qualquer, mas para cima de duas horas que comprovam a tão propalada eficiência germânica, o perfeccionismo desta gente, a capacidade inigualável de fazer tudo bem. Tudo menos de certeza vias férreas, amiguinhos, que isto nem na fronteira da Mongólia com a Rússia se viu uma vergonha assim.
Passados os dois minutos de ódio por toda a indústria ferroviária, como se o revisor fosse o Goldstein do “1984” e as carruagens fossem a tela na direcção da qual todos deveríamos exaltar-nos e disparar impropérios, estou agora mais calmo e pronto para admitir que há males que vêm por bem. A incompetência da CP alemã (para mim a CP está em toda a parte e é culpada de todo o mal que afecta os comboios) deixa-me conhecer uma das cabeças mais interessantes desta viagem: a da mexicana Maria Aurora.
A Mariau, como gosta que lhe chamem, fala muito e depressa. Eu, regra geral, não gosto nada de pessoas que falam muito e depressa. Mas a Mariau fala bem e eu gosto muito de gente que fala bem. Esta miúda de 24 anos vive e estuda na Cidade do México, chama ‘papa’ ao pai e ama a casa onde sempre viveu. A Mariau só viveu e acordou e adormeceu naquela casa, toda a vida. Eu tento contar todas as casas em que já vivi e acordei e adormeci e desisto quando estou a chegar às 20.
A casa de Mariau faz-me pensar na Casa Azul da Frida Khalo. Claro que a Mariau não tem uma casa como essa casa louca da Khalo e do Diego, mas há qualquer coisa na Mariau que encontrei dentro dos livros e das imagens (de Khalo) do México: uma força verdadeira, um acreditar que não conheço noutras partes.
A Mariau acredita. Não me enganei. Ela faz parte do movimento Yo Soy 132, um movimento de protesto contra a classe política e o controlo dos meios de comunicação no México. O principal alvo dos Yo Soy 132 é o Presidente Enrique Peña Nieto, uma mascote feita chefe de Estado em Maio passado, uma cara bonita que ganhou o país depois de, enquanto governador do Estado do México, ter mandado a polícia carregar sobre manifestantes em Atenco há meia dúzia de anos, mais ou menos como o senhor Deng Xiaoping mandou fazer em Tiananmen. Os arruaceiros têm de ser postos na linha seja onde for, se é que isto ainda não estava claro.
Peña Nieto foi então o responsável pela morte de duas pessoas e o espancamento de muitas mais. Durante a corrida presidencial, numa visita à Universidade Ibero-Americana, decidiu defender que a decisão tomada fora a correcta. Os estudantes explodiram, apuparam-no e o candidato presidencial teve de pôr-se a milhas. Os meios de comunicação, todos muito livremente comprometidos com a corrupção do país, depressa fizeram saber que não senhor, não havia ali estudantes a escorraçar o futuro Presidente. O que havia ali era gente contratada para deixar o senhor Peña Nieto ficar mal.
Só que os jornalecos e as televisõezinhas há muito que deixaram de ter a faca e o conduto na mão. O que aconteceu a seguir foi que 131 estudantes que tinham comparecido ao encontro com Peña Nieto subiram para o YouTube vídeos onde mostravam a cara, o cartão de estudante e afirmavam ter estado ali de livre vontade, para lembrar Atenco e os crimes cometidos. A partir daí nasceu o movimento Yo Soy 132, com milhares de mexicanos a juntarem-se à causa e a serem simbolicamente o 132º estudante.
Espero que me perdoes, leitor paciente, esta longa achega sobre a política mexicana, quando na verdade estou a caminho de Amesterdão num comboio. Mas a Mariau conta-me isto e muito mais com a força de quem acredita piamente na mudança, na queda do regime, numa nova era. A Mariau é uma mexicana de famílias espanholas, muito branca como as espanholas muito brancas. Estuda arquitectura das cidades mas está muito interessada na arquitectura das palavras. Pega num papel e escreve-me “RECONOCER”. Diz-me que leia a palavra nos dois sentidos e, com os olhos cintilantes que (acho eu) só aquele calor do México pode produzir, diz-me que este jogo de letras foi uma revelação enorme que a vida lhe ofereceu. Depois escreve “somos o no somos”, depois escreve “se es o pose es”. Não tenho a certeza de acompanhá-la no raciocínio, mas gosto de tudo aquilo, encanta-me aquele fervilhar de ideias numa cabeça tão fresca.
Carregado de boas histórias e de ainda mais vontade de conhecer o México, deixo a Mariau no comboio que segue para o aeroporto de Schiphol e apeio-me numa paragem onde devo apanhar um suburbano para o centro de Amesterdão. Às bonitas 3h e tal da madrugada estou na cidade, a caminho da casa onde o Bruno, amigo português, espera por mim para poder deixar-me a chave e seguir para Portugal no dia seguinte.
É verdade, leitor, a fortuna é tanta que este viajante logra (e lograr, bem sabes, não é fácil) ter um apartamento só para si numa zona simpática de Amesterdão em finais de Julho, quando uma cama num hostel manhoso pode custar pelo menos 25 euros por noite.
No primeiro dia sondo a cidade, passeio junto às monumentalidades que não me apetece enumerar, percorro o porto cheio de barcos carregados de bicicletas, avisto as filas para entrar na casa da menina Anne Frank e do senhor Van Gogh e depressa sei que não vou por aí, como diria o José Régio.
À noite, depois de me alimentar convenientemente e digerir o repasto com uma exibição memorável do Glorioso perante as reservas do Real Madrid, decido que, nem mais, está na hora de ir correr. Equipo-me como se equipam aqueles rapazes musculados dos anúncios da Nike, calço as minhas Mizuno (e esta é a área de promoção de marcas desportivas), pego no iPhone, escolho LCD Soundsystem e faço-me ao caminho. Não há nada como correr na cidade à noite, à chuva, a ouvir boa música. É uma coisa meio poética, meio “Shame”, uma coisa que eu sempre gostei de fazer.
Tudo o que dou de bem ao corpo num dia, há-de desaparecer no dia seguinte. O Rui, amigo das químicas que conheci em Macau, vem de Roterdão para ver-me. E a Flora, com quem estudei no Minho há poucos anos que parecem muitos, vive em Amesterdão e vai juntar-se a nós com o namorado.
Começamos a tarde a beber na Dam Square, continuamos a tarde a beber o licor tradicional jenever, que é preciso bebericar primeiro sem usar a mãos, e terminamos a tarde num bar refundido onde a gente se descalça para usufruir de belos tapetes e almofadas a fazerem lembrar as mil e uma noites.
Antes de jantar passeamos pelo red light district, zona onde as pessoas vão de facto passear, sendo que talvez algumas façam outras coisas sobre as quais temos neste momento pouca informação disponível. Ver mulheres em montras, organizadas por raças ou continentes (as asiáticas para ali, as africanas para acolá) é uma experiência enriquecedora do ponto de vista da jarvardice a que também se chama progresso. A profissão mais antiga do mundo chegou ao circo.
À noite, jantamos todos e seguimos para conhecer a movida de Amesterdão, que, excepção feita às moças muito mais acariciadas pela beleza que as vizinhas alemãs, não convence. A Flora e o João (o namorado) desistem e eu e o Rui estendemos o calvário até àquela fase em que estamos a comer o que nunca comeríamos a horas normais, para entreter o estômago.
No dia seguinte, cansados mas cientes do dever que nos espera, marchamos eu e o Rui na direcção do centro e de um desses estabelecimentos comerciais a que se dá o nome muito clássico de coffee shop. Pedimos dois cafezinhos e ficamos ali à conversa, a ver as nuvens.
Levo o Rui à estação de comboio, dou-lhe aquele abraço e regresso a casa (a casa do Bruno, que já me parece casa). Pelo caminho compro uma ração de batatas fritas crocantes (o grande snack de Amesterdão) que metem as das cadeias de ‘fast food’ no bolso. Como-as e adormeço ainda antes da hora de jantar. Acordo pela madrugada dentro, sabedor de que há uma crónica destas para escrever e enviar para Macau, usando os milagres da Internet.
Acabo a prosa sentado no aeroporto, meu aéreo leitor. Vê bem, no aeroporto! Depois de tanta terra, de tanta fronteira passada a penantes, eu estou de volta a estes lugares higiénicos que se repetem mundo fora, estou de volta ao ‘check in’ e ao ‘boarding gate’, estou de volta aos saquinhos plásticos para meter o gel de banho e às garrafas de água que têm de deitar-se fora antes de passar pelo controlo de segurança. Eu estou de volta à civilização e não gosto.
Num contra-relógio infernal para cumprir a ‘dead line’, termino texto e edição de fotos quando o embarque para Lisboa já está a suceder numa porta algures neste aeroporto. Envio tudo, fecho o computador e corro que nem um desalmado, ainda a tempo de ver subtrair-se à minha bagagem o lenço que fez de cachecol durante mais de 40 dias.
Chego à porta de embarque quando já estão a desencostar a escadas da entrada do avião. “Are you Beidjá?!”, grita uma aeromoça muito loura com voz de policial. E eu que sou, sim senhora. “Go, go!”
E eu lá vou, meu abatido leitor, bem obediente e capacitado de que tudo isto está prestes a terminar, de que a Vila da Marmeleira me espera como Santarém nunca esperou Garrett, cheia de afectos e memórias doces. Estas longas viagens na terra deles acabarão, como tinha de ser, com umas breves viagens na minha terra.
