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Guerra da Mata e Macau: “um território pessoal”

Agosto 21, 2012

Vamos voltar a ver João rui Guerra da Mata, com João Pedro Rodrigues, em Macau. Há vários projectos para aqui filmar. Mostrar “A última vez que vi Macau” é um sonho, diz ao PONTO FINAL em entrevista

 - Como foi regressar 30 anos depois? Uma vez que há neste filme uma componente pessoal significativa, como foi com o João Pedro Rodrigues? Teve de o “convencer”?

- João Rui Guerra da Mata: Na realidade nunca mais tinha voltado a Macau desde a minha infância. Só voltei 30 anos depois.

- Há 20 anos que falo ao João Pedro Rodrigues, o co-realizador de “A Última vez que vi Macau”, sobre Macau. Queria mostrar-lhe o território onde vivi o período mais feliz da minha vida. Sempre foi um objectivo meu regressar. Pensamos ir antes do “handover”, depois pensámos assistir à passagem de soberania…  mas acabou por nunca se proporcionar.

Há uns anos concorremos ao subsídio de documentários do Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA), ainda antes do Ministério da Cultura ter sido estupidamente extinto pelo actual governo de maioria de direita. Ganhámos um subsídio para realizar um documentário sobre Macau, cuja premissa estava ancorada nas histórias da minha infância, que aí tinha sido passada e que eu contava ao João Pedro. Nessa altura, o que nos interessava era confrontar as minhas memórias pessoais (e as memórias são sempre ficções) com as memórias do João Pedro, que nunca tinha ido a Macau, mas que eram construídas a partir das ficções do cinema clássico americano, do cinema asiático contemporâneo, do cinema japonês e também da pintura e da literatura. A questão de convencer o João Pedro a acompanhar-me nesta aventura nunca existiu. O João Pedro queria viver essa experiência e ajudar-me a registá-la.

Acho que foi durante a nossa primeira viagem que percebemos que não queríamos fazer mais um documentário sobre Macau. Queríamos pensar naquele território como um espaço para possíveis ficções… contaminadas pelas minhas memórias pessoais. Filmámos a RAEM durante seis meses, ao longo de três anos, e recolhemos 150 horas de material. Na verdade, o ”antes e depois”, como era Macau há 30 anos e como é agora, nunca nos interessou. O território tinha de estar diferente (é a ordem natural das cidades: à medida das necessidades, o espaço público muda). A ausência de mudança tende a transformar uma cidade num “parque temático”.

Sobre Macau, só nos interessa o “agora” e mesmo esse “agora”, que é um lugar físico e real, pode ser reinventado por nós. O nosso Macau acabou por ser uma ficção lúdica entre o Film Noir e a ficção científica. É o nosso território pessoal. Talvez seja o Macau inventado por mim na minha infância, há 30 anos. Um território da nossa imaginação como se tratasse de uma história de aventuras que um amigo conta a outro.

- Com “Alvorada Vermelha” este é o segundo filme que fazes em/com Macau? Está esgotado esse caminho?

JRGM - De modo algum! Macau tem um enorme potencial cinematográfico e não me refiro ao lado exótico que parece ser a única coisa que interessa a alguns realizadores. Quando o João Pedro e eu estamos a filmar em Macau, sentimos que Macau fala connosco, e talvez fale. Com quatro séculos de história em comum, um tão pequeno território chinês sob administração portuguesa, tem muitas histórias para contar.
Filmar em Macau será sempre uma ambição nossa. Aliás, gostaríamos de estabelecer contactos com produtoras em Macau, de modo a desenvolver projectos de co-produção. Acho que tanto Portugal como Macau ficariam a ganhar com essa colaboração, principalmente ao nível da exibição dos filmes e da promoção das culturas.
Neste momento temos uma curta metragem, com o titulo provisório de “Hotel Central”, aprovada e subsidiada pelo ICA. Tencionamos filmá-la em Macau no próximo ano, caso as verbas, agora reféns do Ministério da Economia, sejam desbloqueadas. Temos ainda mais duas curtas metragens ambientadas em Macau, em fase de pré-produção, que gostaríamos de desenvolver.

“Alvorada Vermelha” foi uma curta-metragem que surgiu durante o visionamento das “rushes” do material filmado em Macau para a nossa longa metragem. Lembrava-me do Mercado Vermelho (ou Mercado Almirante Lacerda) da minha infância: das cores, dos cheiros, das rotinas do trabalho. Achámos interessante dedicar um filme especificamente a esse lugar. Acreditamos que o que acontece nesse mercado é suficientemente interessante e mágico para que as imagens não precisem de diálogos ou “voice over”. E, enquanto filmávamos em Macau, Jane Russel, “the Lady from Macau” (como ficou conhecida) morreu. Triste coincidência essa. O que nos levou a dedicar esta curta metragem à bela protagonista do filme “Macao”, realizado em 1952 por Josef von Sternberg.
A curta metragem “Alvorada Vermelha” ganhou o prémio de Melhor Curta Metragem no Festival Indie Lisboa, 2011 e continua a ser exibida nos mais prestigiantes festivais internacionais de cinema

- Continua a “intrigar-te” a história com o teu pai em Macau (que, salvo erro, aparece numa das fotos que vão surgindo no filme)?

JRGM -  Sim, aparecem fotografias do meu pai no filme “A última vez que vi Macau”; mais concretamente quatro fotografias: duas no Clube Militar, que descobri acidentalmente nas paredes do clube, uma foto de família onde o meu pai fala numa sessão de esclarecimento do CDM (Centro Democrático de Macau) e uma última foto no terraço da nossa antiga casa (o Quartel dos Mouros)
O que me interessa mais neste momento é todo o período do 25 de Abril e do pós 25 de Abril de 1974 em Macau. Interessa-me também os efeitos que o 25 de Novembro de 1975 tiveram na comunidade civil e militar. Penso que é uma história que nunca foi verdadeiramente investigada e lamento esse facto porque muitos dos seus principais intervenientes já morreram. O que realmente me intriga é o porquê dessa investigação nunca ter sido feita.
Existem outras fotos da minha família: a minha mãe, o meu irmão e eu. São as tais memórias pessoais que se “intrometem” na ficção mas neste caso não são memórias ficcionais uma vez que são fotografias que documentam situações reais.

- Sabe se o filme vai ser mostrado em Macau? Existe interesse da sua parte, imagino…

JRGM - Acredito que o filme será mostrado em Macau. Para mim os filmes só fazem sentido se forem vistos pelo público. Ver o nosso filme projectado em Macau seria a concretização de um sonho. De preferência acompanhado pela curta metragem “alvorada Vermelha”, uma vez que os dois filmes se completam.
É fundamental mostrar cinema português em Macau e cinema de Macau em Portugal. As autoridades competentes têm que compreender de uma vez por todas que a identidade de um povo passa pela sua cultura. E cultura não é só o que de mais comercial se produz. A maior parte das vezes, o que a história recorda são as vanguardas mal tratadas ou ignoradas na sua época.

 

 

 

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