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Identidade projectada em tela

Agosto 9, 2012

A “Masters in Ink” combina na Venetian, no Cotai, mestres do passado e do presente, trazendo a partir de hoje, pela primeira vez a Macau, uma exposição rara e de valor dificilmente calculável, que vai correndo mundo a projectar a identidade chinesa.

 Paulo Rego

Mestres legendários e seus aprendizes, endeusados como estrelas da modernidade. Pinturas tradicionais e a sua continuidade, perpetuando um estilo e uma visão artística; sensações e poemas contados em tela, que fazem a história de pessoas, paisagens, e da própria identidade da China, que os junta para correrem mundo e mostrarem o que vale um conceito de arte. A Venetian abre hoje no Cotai – patente nos próximos 15 dias – uma exposição de 90 obras cujo valor, no fundo, é incalculável. A nota de imprensa sugere 80 milhões de yuan para o conjunto da exposição, mas os organizadores garantem que apenas uma obra pode valer quatro ou cinco milhões. A verdade é que uma boa parte delas pertence ao Estado; não está sequer à venda, servindo isso sim para “vender” ao mundo uma forma de estar, de sentir e de pensar uma civilização cada vez mais talhada para projectar um futuro que avalia – ou sobreavalia – o seu passado milenar.

“Continuamos a puxar do envelope” para promover a interactividade cultural entre Macau e o Continente, afirmou Edward Tracy, presidente da Sands China, na cerimónia de abertura da “Masters in Ink”, exposição que junta 40 obras de pintores lendários – já todos falecidos – tais como Qi Bashi, Wu Guanzhong e Li Kuchan, combinando-as com 50 telas pintadas por estrelas da arte contemporânea como Liu Dawei, Du Ziling ou Tang Lizhou. Quanto terá custado a operação? “Não posso revelar, comenta um membro da organização, estalando os dedos no ar para significar montantes “mesmo muito elevados”, quando contabilizados os custos da deslocação a Macau de nove dos pintores expostos (ver caixa), os valores cobrados pela China International Exhibition Angency e pela Beijing Hong Bao Bo Yi Culture Development Company – empresas com estreitos laços estatais que organizam a internacionalização da exposição – e os seguros necessários para a movimentar. É mais uma forma de “afirmar Macau como centro internacional de turismo e lazer”, comentou Edward Tracy, repetindo a frase batida no mercado local dos operadores de jogo.

Ensinar artistas locais

Os nove mestres chineses que se deslocaram ao território, organizaram ontem pela manhã um workhop com outros tantos artistas de Macau, transmitindo os conhecimentos que absorveram dos antigos mestres do Continente.

Os artistas de Macau estão “muitas vezes envolvidos em negócios”, pelo que “não têm muito tempo para se dedicarem verdadeiramente à sua arte”, comentou a propósito dessa experiência Fang Chuxiong, tendo observado ainda que a pintura e a caligrafia de Macau “é muito parecida” com aquilo que conhece do circuito das artes plásticas em Guangdong. “Se encontrarem tempo para ir à China fazer cursos de arte tradicional vão certamente elevar muito a sua técnica e a sua inspiração”, concluiu Fang Chuxiong. Li Baolin preferiu elogiar a beleza do territ]orio e do edifício da Venetian, exteriorizando “a paixão pela arte que se sente em Macau, cidade muito habituada a este tipo de eventos”.

Qual é afinal o critério de qualidade, ou de avaliação da pintura tradicional chinesa? Hang Tão, outro dos mestres da modernidade ontem presente na conferência de imprensa, explica que “o mais importante é perceber se uma pintura combina na perfeição a estética e a mensagem. Alguns focam-se mais na pintura, outros no poema, mas o mais importante é mesmo saber transmitir a ideia e os sentimentos”.

Liu Jian discursou na cerimónia de abertura em nome dos artistas presentes, explicando que “a pintura chinesa é o símbolo da arte tradicional e tem uma longa história. Foi enriquecida, melhorada, herdada e inovada a cada dinastia, formando gradualmente uma forma única de expressão e uma língua própria de arte e estética (…) Esta exibição enriquece a cultura de Macau e proporciona uma oportunidade de entender melhor o desenvolvimento da pintura chinesa”, concluiu.

Internacionalizar em mandarim

Há uma nota que causou alguma estranheza mesmo entre os repórteres da imprensa chinesa Macau. Os dois representantes das empresas do Continente que trouxeram as obras decidiram dar a conferência em mandarim. “Um mandarim tão fechado que, mesmo para nós, era difícil perceber”, comentou uma das organizadoras, desculpando-se pela dificuldade enfrentada pela imprensa portuguesa no evento. As curtas frases aqui reproduzidas resultam aliás da colaboração circunstancial de uma colaboradora da Venetian que, percebendo o espanto dos dois jornalistas portugueses ali presentes, fez o melhor que pode para resumir, informalmente e sem compromisso de tradução literal, algumas as poucas declarações reproduzidas neste texto.

“Não é fácil mudar o estilo de afirmação do Continente”, explicou um membro da Venetian ligado à organização do evento, na qual foi ainda envolvida a Associação de Artistas de Macau. A cerimónia contou com a presença do director do Departamento de Cultura e Educação do Grupo de Ligação em Macau, dando a nota de suporte político do Continente à exposição. Nenhum representante do Governo de Macau esteve entre os convidados especiais da cerimónia.

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