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“Um alienígena entre nós”

Julho 23, 2012

Era assim que Eduardo Lourenço descrevia Fernando Pessoa, uma definição que Arnaldo Gonçalves subscreve. Pelas suas crenças no oculto, em mundos paralelos e civilizações não-humanas. Um homem à frente do seu tempo, “que não se comprometia com facções” e que, por isso, não pertenceu à Maçonaria, garante o especialista de relações internacionais que amanhã debate o tema no Clube C&C.

Inês Santinhos Gonçalves

- Promete abordar uma faceta pouco conhecida de Fernando Pessoa. Que faceta é essa?

Arnaldo Gonçalves – Fernando pessoa é conhecido como poeta e como prosador e menos como filósofo, como alguém que reflectiu sobre o futuro de Portugal, sobre a identidade portuguesa, sobre a Europa, sobre o papel e a história de Portugal. Vou falar também do Fernando Pessoa como entusiasta do oculto, da saga dos templários, dos Rosa-cruz, da maçonaria. É uma área do Fernando Pessoa que é menos conhecida do grande público e que é também interessante. É uma reflexão dele como um homem avançado para o seu tempo. Escreve grande parte dos apontamentos e das notas que vêm na “Mensagem” e que tratam do oculto, do templarismo e também de D. Sebastião, à volta da feitura do Quinto Império, são pequenos apontamentos que só agora é que estão a ser estudados. A maioria dos investigadores dedicava-se à prosa e à poesia do Pessoa, no contexto do simbolismo português, da eterna saudade, ligando-o ao Teixeira de Pascoaes.

- De que forma é que Fernando Pessoa contribuiu para a definição de portugalidade?

A.G. -  Para mim, Fernando Pessoa é o maior intelectual português, o maior pensador português da primeira metade do século XX. Morre em 1935, viveu a transição da monarquia para a república, a participação de Portugal na Grande Guerra, a vergonha nacional do ultimato britânico e todo o impacto que isso tem na mentalidade portuguesa. Não há figura no nosso panorama intelectual comparável a Fernando Pessoa. Portugal não se pode pensar sem olhar o Atlântico, Portugal é o Atlântico – aliás, a “Mensagem” tem uma quadra muito engraçada que fala sobre Portugal como o perfil de um rosto que olha para o Ocidente. Se nós virmos o recorte da costa portuguesa, é claramente o perfil de uma pessoa, vê-se a testa, o nariz, a boca e o queixo, a olhar para o Atlântico. Ele vê Portugal como o centro do Atlântico. A sua paixão pelo grande Walt Whitman, o poeta americano, vem dessa identidade do Atlântico como centro da civilização ocidental e pólo civilizador e evangelizador de todo o resto do mundo. A mensagem dos dois é muito idêntica, tem muitas similitudes. É do Ocidente – e de Portugal, no fundo – que vem a expansão da epopeia dos Descobrimentos e é Portugal que descobre o Atlântico e as várias dimensões do Atlântico e o dá ao mundo. Ele acha que Portugal não se pode pensar, nem repensar nem pode construir o seu futuro sem olhar para o Atlântico. Acho que tinha completa razão. Foi uma coisa que se perdeu, Portugal deixou de ser marítimo, ancoraram-nos à Europa, à terra. Parece que esse regresso à Europa, para a qual vivemos de costas viradas uma data de anos, não tem corrido muito bem. Perdeu-se aquele olhar amplo, ficámos metidos numa rua sem saída, a Europa tornou-se para nós um beco.

- Neste momento de crise financeira e questionamento do projecto Europeu, vale a pena recuperar essa visão de Fernando Pessoa?

A.G. – Faz. Não propriamente o Quinto Império e o regresso do D. Sebastião, que já não faz sentido e é um pouco saudosista, mas a visão atlântica. E sobretudo aquilo que se perdeu e que ele achava que era a vocação dos portugueses: um povo pequeno, limitado, mas que pode vivenciar o risco. A dimensão do português à aventura do risco foi uma coisa que se perdeu, nesse sentido da aventura do Quinto Império, da ideia de que há uma universalidade espiritual que partiu de Portugal e se alargou a todo o mundo. Na visão do Pessoa, que falava português, infelizmente o português deixou de ter o papel central que teve até meados do século XIX, sobretudo nesta parte do mundo. De qualquer forma, esse sentido de universalidade que os portugueses deram – e nesse aspecto o nosso império foi diferente do império dos ingleses e do dos franceses, muito mais ligado à posse da terra e ao domínio dos povos – [prende-se] a facto de a nossa cultura se ter espraiado pelos vários povos com que convivemos ao longo destes séculos, aos lugares em que deixámos a nossa maneira de ser, a nossa língua e tudo o que vem à volta disso.

- No que toca ao esoterismo, vai focar-se na ligação à Maçonaria?

A.G. – Esse é um dos pontos mais controversos e que espero esclarecer: ele não teve ligação à Maçonaria. O Pessoa era um homem extremamente introvertido, taciturno, muito calado e com muita dificuldade em relacionar-se com os outros, pouco dado a graças, era um homem que não fazia piadas, vivia no círculo de amigos. No período em que regressa depois da estadia em Durban, na África do Sul, e vem viver para Lisboa para casa das tias, tem contacto com essa realidade mas não se deixa embrenhar. Pessoa não era um homem que se comprometesse com uma escola, com uma facção, com um grupo fechado ou uma seita. Embora com certeza conhecesse maçons, a ligação dele é aos altos dirigentes da Maçonaria. Podemos dizer hoje em dia que ele era um templário, havia uma pequena organização templária nos anos em que ele chegou a Lisboa. Não há textos escritos sobre a organização e quem a compunha, mas era um grupo muito fechado, sem contacto com a vida civil cá fora e que fazia interpretação dos textos antigos, do antigo testamento. Era uma pessoa que teve contacto com essa comunidade, mas não é o que chamamos o maçon normal, como se costuma comentar. Isso não é verdade e ele nunca o foi.

- Esse é um dos maiores mitos em torno de Pessoa.

A.G. – É um mito. Ele nunca poderia ser um maçon, não tinha características para o ser. Era um homem extremamente filosófico na aproximação, muito especulativo mas pouco ligado à terra. O Eduardo Lourenço tem um ensaio em que diz que Fernando Pessoa era um alienígena, um homem de outros planetas, que estava entre nós. Era um espírito que encarnou naquele corpo. Acreditava em mundos paralelos, noutras civilizações além da civilização humana. Como partidário do oculto tinha essa abertura intelectual. Hoje em dia isso é perfeitamente vulgar, depois dos fenómenos de UFO [objectos voadores não-identificados], mas em 1920 alguém que pensava dessa maneira era um bicho muito estranho.

 

 

 

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