“Sim, vou candidatar-me”
O avanço é dado por Ho Iat Seng. Mas também por Lionel Leong. E por Candice Chio. Os delegados de Macau à Assembleia Popular Nacional querem seguir para novo mandato, mas há hesitações: a ex-deputada Leong Iok Wa não sabe se quer continuar.
Sónia Nunes e Stephanie Lai
A corrida começou e há já quem esteja na posição de partida. Ho Iat Seng, vice-presidente da Assembleia Legislativa, Lionel Leong, membro do Conselho Executivo e Candice Chio, presidente da direcção da Associação das Mulheres, são candidatos declarados à Assembleia Popular Nacional (APN). Querem renovar o mandato e contam com o voto de confiança do colégio que, em Janeiro, irá escolher os 12 novos representantes de Macau em Pequim. O alargamento da comissão eleitoral não os assusta.
“O colégio vai receber mais de 50 novas pessoas, mas o perfil dos membros mantém-se. São todas pessoas que amam o país, amam Macau e sabem como é que os interesses das pessoas locais devem ser representados”, diz Lionel Leong, empresário e grande revelação das últimas eleições à APN. Em Janeiro de 2008 e aos 49 anos, o conselheiro do Chefe do Executivo absorveu 95 por cento das votações do colégio de Macau – foram 304 votos (mais 15 do que o veterano Ho Iat Seng, que ficou em quinto lugar) e que lhe valeram o título de mais novo deputado da RAEM à APN.
Lionel Leong quer avançar para o segundo mandato. “É a minha vontade. Dei o meu melhor para obter a confiança dos membros do colégio eleitoral”, diz. E faz um exercício de auto-avaliação para justificar a recandidatura: “Nestes quatro anos e picos, aprendi muito e esforcei-me por melhorar o meu trabalho. Também tenho vindo a indicar com total transparência o que estou a fazer enquanto delegado de Macau aos membros do colégio”. Os votos vão manter-se na casa das três centenas? “Espero que compreendam o que tenho vindo a fazer”, diz.
Ho Iat Sang também não hesita: vai lutar pelo quarto mandato. “Sim, vou candidatar-me novamente porque julgo ser adequado para exercer este tipo de funções e que posso contribuir para o país”. Candice Ho, que ficou em 10º lugar nas eleições de 2008 com 270 votos, assume igual posição. Já Leong Iok Va, antiga deputada da Assembleia Legislativa pela plataforma da Associação Geral dos Operários de Macau, diz que precisa de “considerar melhor” uma recandidatura. Mas garante estar “muito satisfeita” com o desempenho dos actuais delegados de Macau à 11ª APN, que terminam o mandato em Março de 2013.
Democratas e transparentes q.b.
O processo de candidatura dos deputados de Macau à Assembleia Popular Nacional foi aberto esta semana com o arranque da primeira fase: a constituição do colégio eleitoral. É este o órgão que, em Janeiro do próximo ano, vai escolher os 12 novos representantes locais no “supremo órgão do poder de Estado na China”, como é descrito na Constituição.
O número de delegados de Macau mantém-se na próxima legislatura da APN, a 12ª, que inicia funções em Março. Apesar de haver um alargamento do colégio eleitoral – vão entrar mais de 50 membros, aumentando para mais de 380 o número de pessoas com capacidade para elegerem e serem eleitas – os assentos disponíveis são os mesmos da actual legislatura. O mesmo acontece no caso de Hong Kong: o comité eleitoral alargou em cerca de mais de um terço (mais de 1800 membros) mas vai continuar a eleger 36 deputados.
As (ligeiras) alterações ao sistema de eleição foram aprovadas em Março, durante as reuniões magnas de Pequim. Esta semana, o gabinete do Comité Permanente da APN enviou convites a figuras de Macau e de Hong Kong para integrarem os comités eleitorais. Quem quiser fazer parte do colégio terá de formalizar a candidatura entre 10 de 25 de Julho. A lista com os membros aceites será divulgada, por fim, em Agosto.
“O alargamento do colégio eleitoral é já um avanço democrático. Espero que os novos membros sejam pessoas ligadas ao sector profissional, jovens e com um perfil que simbolize a evolução de Macau nestes quatros anos”, afirma Lionel Leong. Candice Chio e Ho Iat Seng também defendem o actual método. Já Leong Iok Va diz não estar certa que a extensão do comité eleitoral signifique a entrada de membros que representem a camada de base da população. “Ainda assim, acredito que a composição do colégio eleitoral seja equilibrada, como tem sido até agora”, ressalva.
Apesar das dúvidas, Leong Iok Va defende que os actuais deputados de Macau à APN “têm tido um desempenho muito bom e espírito de equipa. Cumprimos o nosso dever, fizemos as nossas sugestões em questões cruciais como a cooperação regional ou a qualidade da água”. E acrescenta: “Não só as nossas ideias foram aceites, como desenvolvidas pelo Comité Permanente”.
Candice Choi admite que o trabalho dos deputados de Macau em Pequim passa despercebido à maioria da população e propõe que os delegados passem a publicar um relatório de trabalho. Ho Iat Seng relativiza as críticas: “Se calhar a população não tem uma noção muito clara sobre o que os delegados fazem”. “Como deputados à APN estamos sobretudos envolvidos em assuntos do Estado. As pessoas de Macau não estão muito familiarizadas com as matérias do interior da China”, frisa. Para Lionel Leong as notícias que vão saindo nos jornais “é o suficiente para a população saber” o que Macau faz em Pequim.
“Seria bom ver mais macaenses”
António José de Freitas, provedor da Santa Casa da Misericórdia e membro confirmado do colégio eleitoral que vai escolher os novos 12 deputados de Macau à Assembleia Popular Nacional, vira-se para a comunidade. “Seria bom ver mais figuras e mais membros da comunidade macaense nesta comissão”, destaca. Podem fazer parte do colégio eleitoral de Macau os membros da comissão que escolhe o Chefe do Executivo desde que tenham nacionalidade chinesa. Nas últimas eleições à APN, em 2008, houve várias figuras da comunidade portuguesa que assumiram nacionalidade chinesa e entram para o colégio que escolheu os actuais 12 delegados de Macau a Pequim. Foi o caso de Leonel Alves, Jorge Neto Valente, Carlos Marreiros, António Dias Azedo e António José de Freitas. “Houve pessoas convidadas que não aceitaram por que não queriam renunciar à nacionalidade portuguesa. É uma questão pessoal. Eu fiz. Renunciei, mas em território chinês, onde não gozo de protecção consular. Não vejo nenhum inconveniente”, afirma o provedor. “A questão é muito importante. Não há obstáculos à obtenção de nacionalidade chinesa, mas é uma decisão que cada um tem de tomar”, subscreve Lionel Leong. Freitas explica as vantagens: “Abre-se mais um caminho para a comunidade. Fazemos parte da sociedade local. Renunciar é uma forma de dizer”.
