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“Panorama é pobre”

Junho 13, 2012

Ivo Carneiro de Sousa sai da Universidade de São José em Agosto, mas diz que ainda é cedo para fazer balanços. Por isso, a conversa concentra-se num livro que concluiu recentemente sobre a sociedade de Macau entre os séculos XVI e XIX, com destaque para a escravatura feminina. Antes, ainda houve tempo para abordar a “pouca” investigação histórica que se faz no território.

Pedro Galinha

“A Outra Metade do Céu” surgiu quase por acaso, entre pesquisas de Ivo Carneiro de Sousa nos arquivos de Macau. O resultado é um trabalho com mais de 200 páginas sobre escravatura e orfandade femininas, mercado matrimonial e elites mercantis em Macau.

De toda a diversidade, concentrámo-nos mais nos dois primeiros aspectos, pouco explorados no território. Uma realidade que, segundo o historiador e docente que está de saída da Universidade de São José, é extensível a muitos outros temas da história local.

Há muito por fazer? Ivo Carneiro de Sousa acredita que sim, mas confessa que este trabalho de investigação é “dispendioso”, já que exige viagens a diversos pontos do globo e a constituição de equipas com valências específicas.

- Como se descreve a investigação histórica em Macau?

Ivo Carneiro de Sousa – No geral, o panorama é pobre e há pouca investigação assente na documentação primária. A maior parte desta documentação está em português, depois em chinês, espanhol e latim. Sobre Macau, está tudo muito disperso. Uma parte está no arquivo local, composto por dois pilares do regime e da presença portuguesa: o Leal Senado e a Santa Casa da Misericórdia. A documentação é abundante e no caso da documentação da Misericórdia é seriada desde 1590. Tirando estas fontes, o resto da documentação está dispersa em Portugal, no Arquivo das Índias em Sevilha, no Arquivo do Vaticano e em arquivos de instituições religiosas, sendo o mais importante o dos jesuítas, em Roma. Uma parte significativa também está no Brasil.

- Como foi lá parar?

I. C. S. – Quando a corte vai em fuga para o Brasil, D. João VI leva grande parte da Biblioteca da Ajuda e uma parte da Torre do Tombo. Essa documentação nunca regressou a Portugal. No Arquivo Histórico do Rio de Janeiro, há coisas tão estranhas como o foral de Macau dado por D. Sebastião.

- Isso quer dizer que traçar a história de Macau exige muitas viagens?

I. C. S. – Fazer uma investigação séria sobre Macau é extremamente dispendioso. Obriga o investigador a percorrer não só os arquivos locais, como também ir a Sevilha – toda a informação sobre o comércio Macau-Manila está lá –, Roma, Rio de Janeiro. Dou um exemplo concreto: não há uma história dos preços em Macau. Para fazer isso é necessário cruzar dados e ir até fontes primárias da história local.

- Quando aparecem os primeiros documentos em chinês?

I. C. S. – A partir da incorporação de capitais chineses, no século XVII. Esses documentos existem em Macau, Portugal e Brasil. Alguns estão traduzidos, outras não. Há letras de câmbio em chinês, contratos, empréstimos, etc. Isto obriga os investigadores a ter equipas que saibam ler chinês antigo. No campo religioso, são também necessários tradutores de latim. Ou seja, é preciso ter uma ideia de que a história de Macau não pode ser feita de forma solitária. São necessárias equipas e é preciso fazer busca em arquivos e cruzar de fontes.

- Sentiu dificuldades para escrever “A Outra Metade do Céu”, o seu mais recente livro que está prestes a ser publicado e que aborda temas como a escravatura feminina?

I. C. S. – A investigação que fiz está assente na leitura da documentação de testamentos depositados a partir de 1590 na Misericórdia de Macau e no Juízo dos Órfãos. Existia um Juízo dos Órfãos encarregado de tratar judicialmente da herança dos que morriam sem testamento e dos que morriam subitamente numa viagem marítima. Por exemplo, quando alguém morria numa viagem entre Macau e Jacarta, era feito um inventário dos bens do defunto. Depois, decidia-se como seria feita a transmissão dos bens. O arquivo do Juízo dos Órfãos está no Arquivo Histórico de Macau, dentro do Arquivo da Administração Civil e eu encontrei-o por acaso. Estava a ver passaportes de estrangeiros durante a II Guerra Mundial e fui seguindo esses documentos até encontrar estes do Juízo dos Órfãos.

- Quando começou a fazer esta investigação?

I. C. S. – Em 2004.

- E como surge o tema da escravatura feminina?

I. C. S. – Nos inventários do Juízos dos Órfãos, encontrei casos de defuntos que eram tipos completamente miseráveis. Tinham uma cama, um lençol cheio de buracos, pouca roupa e umas botas muito estragadas. No entanto, todos possuíam escravas. Pensei: “Como é possível?”. Rapidamente, percebi que estas eram compradas ainda crianças a chineses que viviam em barcos e estavam proibidos de entrar na China Imperial. Não eram considerados súbditos do império. Estes ‘chineses marítimos’ faziam muitos serviços aos portugueses de Macau e obtinham lucros com a escravatura feminina nesta época. Encontrei dezenas e dezenas de casos de portugueses miseráveis que tinham escravas chinesas – e também timorenses.

- As escravas eram usadas para que fins?

I. C. S. – Para trabalho doméstico, fins sexuais. Algumas tornavam-se esposas deles, dando-lhes filhos.

- É a partir deste aspecto que parte para a descrição da demografia da época?

I. C. S. – Ainda juntei descrições de estrangeiros e correspondências enviadas para Roma. Isso permitiu-me concluir dados sobre a estrutura demográfica dos finais do século XVI até ao princípio do século XIX. A cidade tinha entre 12 a 15 mil habitantes e havia uma proporção de quatro mulheres para um homem.

- A maior parte eram chinesas?

I. C. S. – Europeias não há. Em termos gerais, para o império colonial português só iam mulheres de Portugal com destino a Goa e ao Brasil. Eram órfãs e casavam com a corte do vice-rei ou com os grandes administradores locais. Para aqui não. Existiam muitas mulheres, mas não eram europeias. Os mercadores espanhóis, italianos e ingleses espantam-se porque viam muitas mulheres, mas nenhuma era europeia. Era por isso que existiam famílias mestiças.

- Muitas mulheres acediam ao casamento com portugueses?

I. C. S. – Poucas e enviuvavam muito depressa. Elas casavam entre os 12 e 15 anos com homens que tinham idades dos 35 aos 40 anos. Como enviuvavam muito depressa, algumas tornaram-se chefes de dinastias comerciais importantes. No livro, explico como é que a própria colocação destas mulheres no mercado matrimonial é um poder fundamental para reproduzir o poder comercial desta gente. Eles utilizam o casamento para consolidar as alianças e clientelas comerciais. Isto acabava por resultar numa coisa: casavam entre eles.

- Como se caracterizava a demografia de então?

I. C. S. – As famílias dos euro-asiáticos e dos mercadores portugueses – também havia espanhóis e italianos com alguns a tornarem-se muito poderosos – não eram a minoria. As suas casas tinham muita gente, não só a família biológica, como também muita escravatura. Até ao século XIX, por não serem a minoria, não se ouvia falar na palavra macaense. Não era necessário nada para os identificar.

- Segundo o seu livro, a escravatura feminina não existia só em contextos familiares.

I. C. S. – De facto, a escravatura feminina não era só familiar e doméstica. Existia em hospitais, conventos e mosteiros. No Mosteiro de Santa Clara, por exemplo, os bispos escreveram várias vezes contra a quantidade de escravas que existiam para tratar das hortas. Nos hospitais da Misericórdia, tinham como função lavar os doentes, despejar as sanitas. É curioso que a Misericórdia financiou o casamento destas mulheres.

- Com todas estas características, a sociedade era muito peculiar para a época?

I. C. S. – Sim, muito peculiar. Outra aspecto interessante é o seguinte: os número da população permitia a sua sobrevivência durante vários meses, mesmo se as Portas do Cerco fossem fechadas. A produção agrícola das aldeias chinesas na península era suficiente. Além disso, além da agricultura, os chineses também dedicavam-se à pesca.

- Dentro do contexto, estavam integrados?

I. C. S. – A chamada “Cidade do Nome de Deus” era uma cidade de casas brancas com telhados vermelhos em que a população chinesa, sobretudo chinesa, estava integrada. Este facto só se altera a partir do século XIX quando começa a imigração do Continente. Chegaram homens para trabalhar na industrialização de Macau – nas primeiras fábricas de cimento, têxteis, na introdução das máquinas a vapor, no transporte marítimo. Vinham do sul, caso de Fujian e Cantão, e eram sobretudo jovens. Isso altera a demografia da cidade, de tal forma que, em meados do século XIX, já existiam 75 mil pessoas.

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