Terceira divisão sem data marcada
A Associação de Futebol prevê que o campeonato da terceira divisão comece em Abril, mas continua sem adiantar uma data precisa. O Sporting de Macau, o único clube de matriz portuguesa que disputa a prova, deixa críticas e o vice-presidente do Instituto do Desporto promete inteirar-se do assunto.
Pedro Galinha
“A terceira divisão pode começar em Abril”. Foi assim que a Associação de Futebol de Macau (AFM) respondeu ao PONTO FINAL, quando questionada sobre a ausência de uma data para o início da competição.
Numa declaração de apenas uma linha, o organismo que tutela a modalidade no território acrescentou ainda que aguarda o fim do campeonato da segunda divisão para dar “luz verde” ao começo dos jogos do terceiro escalão de futebol.
O anúncio da AFM apanhou de surpresa o Sporting Clube de Macau, o único emblema de matriz portuguesa que disputa a prova. “A ser assim, a primeira palavra que me suscita esta informação é perplexidade”, revelou o presidente dos leões locais, António Conceição Júnior.
Até ontem, o Sporting não tinha qualquer conhecimento sobre o arranque do campeonato que, no ano passado, aconteceu em Fevereiro. Além disso, o clube também aguarda a publicação do sorteio da liga – “escassamente concorrido” – realizado em Janeiro.
São falhas a mais para a Associação de Futebol de Macau? “Penso que não serei o destinatário dessa pergunta”, respondeu Conceição Júnior, depois de confirmar que, em épocas anteriores, os calendários da terceira divisão chegaram a ser oficializados, numa primeira fase, de forma incompleta.
Convidado a comentar este caso, o vice-presidente do Instituto do Desporto, José Tavares, não se quis alongar. “Vou inteirar-me do assunto”, declarou apenas.
“Altamente frustrante”
Para o treinador do Sporting, a indefinição que se verifica na terceira divisão de futebol afecta “a motivação de todos”. “É altamente frustrante para os jogadores e para quem treina. Não se pode programar ou planear algo porque nem sequer se sabe quando o campeonato começa”, confessa Agostinho Caetano.
O técnico de 60 anos recordou que “a primeira informação que surgiu dava conta de que o campeonato começaria, à semelhança do ano passado, imediatamente a seguir ao Ano Novo Chinês”. “Depois passou para Março”, garantiu.
Ainda esta semana, o português esteve na Associação de Futebol de Macau para inscrever três novos jogadores. Aí, “um membro da associação disse-me que [a terceira divisão] ia começar em breve, mas estava dependente da disponibilidade dos campos e do Instituto do Desporto”.
Com o adiamento para Abril, a equipa verde e branca fica cinco meses sem disputar jogos oficiais. Os últimos foram os do campeonato da bolinha, terminado em Outubro. “Andamos tanto tempo a treinar para, depois, jogar meia dúzia de jogos”, desabafa o treinador.
Contrariamente à época anterior, este ano, a terceira divisão vai ter sete equipas em cada uma das duas séries. Ou seja, o acesso ao segundo escalão do futebol da RAEM vai ser disputado por 14 emblemas numa só volta – cada clube joga apenas seis partidas (à excepção dos dois primeiros classificados de cada uma das séries que disputam mais uma partida para apurar o campeão e dos dois clubes que ficam na segunda posição, já que medem forças para discutir o último lugar do pódio do campeonato).
“Qualquer escalão de infantis, num país com organização no futebol, tem mais jogos do que os seniores em Macau”, comenta Agostinho Caetano que está ligado à modalidade há 30 anos.
O modelo existente, segundo o presidente do Sporting, “não é justo” e, por isso mesmo, reclama que tanto a terceira divisão como a segunda tenham duas voltas, tal como a Liga de Elite.
“Não é justo que a primeira divisão tenha um calendário regular, isto é, duas voltas, enquanto os clubes da segunda e terceira divisão jogam apenas uma volta. Não tem fundamento e não é desportivamente correcto nem justo. Todos devem disputar os campeonatos em pé de igualdade”, reivindica António Conceição Júnior.
“A causa mais elementar”
Quando se fala em futebol na RAEM, fala-se inevitavelmente da falta de espaços e condições para a sua prática. “Eu não percebo como é que a causa mais elementar ainda não foi alterada”, critica António Conceição Júnior.
Para o presidente do Sporting Clube de Macau, os relvados naturais do Estádio da Taipa, do Campo do Canídromo e do Estádio da Universidade de Ciência e Tecnologia estão “invariavelmente em más condições” e não permitem a sua utilização de forma intensiva. “Macau tem, felizmente, meios financeiros para alterar este estado de coisas”, conclui.
“À falta de terrenos é preciso contrapor tecnologia mais que aprovada pela FIFA”, revela Conceição Júnior, defensor da introdução de relvados sintéticos no território.
Para sustentar o seu argumento, o líder dos leões de Macau dá um exemplo: “O já ultrapassado campo de relva sintética do Colégio D. Bosco constitui uma prova. Ano após ano, recebe a utilização intensiva de mais de cem equipas. Porque é que não se faz isso nos outros campos por iniciativa da Associação de Futebol de Macau é que permanece um mistério.”
O treinador Agostinho Caetano, há quase três anos na RAEM, também já se habituou a uma realidade que não lhe agrada. “É necessário gerir o que se tem”, desabafa.
Devido às limitações que existem, o treino que orientou ontem decorreu na pista de atletismo da Taipa. E, no próximo domingo, os seus jogadores vão disputar, em casa emprestada, um jogo amigável às 8h – o único horário disponível.
