Skip to content

“O importante são as imagens”

February 23, 2012

Samuel Aranda, fotojornalista espanhol vencedor do World Press Photo, fala do ofício e de como tem sido acompanhar as revoluções árabes. A exposição com as melhores fotos jornalísticas deve estar de volta a Macau em Outubro.

Hélder Beja

É provável que alguns dos que visitaram a Casa Garden entre Setembro e Outubro do último ano ainda se recordem de várias das imagens ali expostas. Mas também é normal que muitas tenham desaparecido da memória. A fotografia do espanhol Samuel Aranda que acaba de vencer mais uma edição do World Press Photo, o mais importante galardão mundial do fotojornalismo, está entre essas não demasiado chocantes que, porventura, podem até passar despercebidas ao lado do sangue mais explícito.

Esta já não passará e, ao que tudo indica, poderá ser vista em Macau junto de muitas outras no próximo mês de Outubro. A Casa de Portugal, que nos últimos anos vem trazendo a exposição a Macau e à Casa Garden – o único lugar em território chinês onde tem sido mostrada – disse ao PONTO FINAL que, apesar de ainda não haver confirmação, as conversações estão encaminhadas para que o melhor da fotografia publicada na imprensa mundial volte a poder ser apreciado no território.

A fotografia de Samuel Aranda, homem de 33 anos nascido em Barcelona e que começou a sua carreira aos 19 no El País e no El Periódico de Catalunya, haveria de ser captada a 15 de Outubro de 2011. Uma mulher completamente coberta abraça um homem ferido. O palco foi Sanaa, capital do Iémen, numa mesquita que durante a revolta popular no país foi transformada em hospital pelas forças opositoras ao regime do Presidente Ali Abdallah Saleh.

“Nesse dia os manifestantes começaram os protestos às 10h e a meio da manifestação os militares começaram a disparar sobre eles. A foto foi feita junto a uma mesquita que estava a ser utilizada como hospital de campanha. Esta mulher, Fátima, está a segurar o filho enquanto espera por ajuda médica”, conta Samuel Aranda, ao telefone desde o Iémen.

A ligação está péssima e não é fácil ouvir as palavras do fotojornalista. O dia no Iémen é de alguma importância, porque é o rescaldo das eleições presidenciais de terça-feira, que tiveram candidato único – o vice-presidente Abdurabu Mansur Hadi – mas também o condão de afastar o nome do Presidente Ali Abdallah Saleh da cena política. “Isto supõe em princípio uma transição e uma reforma constitucional, e umas eleições gerais num par de anos. A situação é mais ou menos tranquila no centro e norte do país. No sul há alguns conflitos separatistas”, prossegue Aranda.

Força feminina

Há um fotojornalista de câmara em punho, que nos últimos meses passou pela Tunísia, Egipto, Líbia e outras paragens tumultuosas do mundo árabe. E há uma mulher que abraça um homem ferido. O que é que impele a objectiva a ir naquela direcção? “Havia muito caos, muita gente a correr, muito ruído, e esta mulher manteve uma atitude de muita tranquilidade, de muita inteireza no meio de todo aquele caos.”

Samuel Aranda explica o que consegue retirar da fotografia que fez. “Acho que temos uma ideia de um mundo árabe em que a mulher vive totalmente oprimida, sempre abaixo do homem, e julgo que não é assim. Na maioria dos casos, as mulheres estão encarregues de muitas coisas. Neste caso trata-se do próprio filho, mas as mulheres são muito importantes nestas sociedades, muito mais do que pensamos”, afiança.

Apesar de ter percorrido alguns dos locais mais emblemáticos dos movimentos de levantamento popular conhecidos como ‘Primavera Árabe’, o fotojornalista não alinha em generalizações que casem os diferentes movimentos e garante que “em cada lugar foi uma história diferente, em cada país um contexto diferente”. Na Tunísia a viragem “foi bastante mais passiva, sem armas, sem nada”. Na Líbia “foi uma guerra civil mais que outra coisa qualquer. São casos muito diferentes, não se pode generalizar”.

Prémio de oxigénio

Samuel Aranda está no Iémen, onde já passara os meses de Outubro, Novembro e Dezembro do ano passado. Nessa altura “era bastante complicado trabalhar, porque à polícia e ao exército do Governo não podias identificar-te como jornalista”. Aranda decidiu manter-se no país e trabalhar sem autorização. As pessoas deram-lhe segurança para fazê-lo. “Naquilo que é a sociedade civil não tive qualquer tipo de problema. As pessoas são muito amáveis, muito abertas e simpáticas.”

O prémio que lhe foi atribuído este mês “é muito bom no sentido de conseguir fazer novos projectos, porque as pessoas estarão mais abertas a apoiar”, explica o homem que já fotografou no Líbano, no Iraque, em Gaza, em Marrocos e mesmo na China. Mais importante que a visibilidade pessoal que lhe traz o World Press Photo “são as imagens” que captou e “o facto de a fotografia ter voltado a ser notícia por estes dias”, lembra.

A imagem foi seleccionada entre mais de 100 mil fotografias a concurso, da autoria de 5247 profissionais originários de 124 países. Será uma das que, a partir de 20 de Abril, em Amesterdão, fará parte da nova exposição do World Press Photo que percorrerá mais de 120 cidades por todo o globo. “É uma fotografia que fala sobre toda a região. Representa o Iémen, o Egipto, a Tunísia, a Líbia, a Síria, tudo o aconteceu durante a ‘Primavera Árabe’”, declarou Koyo Kouoh, um dos membros do júri, citado num comunicado.

Apesar das dificuldades por que já passou desde que escolheu dedicar-se à fotografia, Aranda conta prosseguir. Para onde o levará a objectiva já é mais difícil dizer, mas pode passar por um regresso a casa. “Não sei… Disse várias vezes que haveria de fotografar a actual situação em Espanha. Gostaria muito de ter uma perspectiva disso, de ver como os jovens se levantam em Espanha e se revoltam contra o sistema que temos.”

Mais fotojornalistas distinguidos

O World Press Photo distinguiu, além de Samuel Aranda, profissionais em várias categorias. O japonês Yasuyoshi Chiba conquistou o primeiro prémio na categoria “People in the News Singles”, com uma reportagem sobre o Japão depois do tsunami que devastou o país em Março do ano passado. Uma das imagens mostra uma mulher a ver o diploma de estudos da sua filha, encontrado no meio dos escombros da cidade de  Higashimatsushima, a norte de Fukushima. O repórter fotográfico afegão Massoud Hossaini também viu o seu trabalho distinguido pelo júri do World Press Photo, com uma fotografia tirada num santuário xiita, cenário de uma explosão a 6 de Dezembro, em Cabul, no Afeganistão. A fotografia de uma criança afegã de 12 anos a gritar junto de vários mortos e feridos conquistou o segundo prémio na categoria “Spot News Singles”. O russo Yuri Kozyrev obteve o primeiro prémio na categoria “Informação” pela fotografia de um grupo de rebeldes líbios, captada a 11 de Março em Ras Lanouf. Na categoria “Contemporary Issues Stories” destacou-se o mexicano Pedro Pardo, pelo seu trabalho sobre a guerra dos cartéis de droga no México. O júri do World Press Photo atribuiu ainda uma menção especial a uma fotografia amadora que mostra o antigo líder líbio Muammar Kadhafi, quando foi capturado e arrastado para um veículo militar a 20 de Outubro de 2011 em Sirte, pouco antes da sua morte.

No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 27 other followers