Macau polaróide
A cidade nasce primeiro a tinta-da-china e depois ganha cor. Nos quadros de João Jorge Magalhães, Macau surge como fruto de um processo que passa pela observação, imaginação e aquilo a que o autor chama de “serigrafia moderna”.
Inês Santinhos Gonçalves
São oito quadros coloridos onde Macau é personagem principal. Um salão de massagens, um trabalhador empoleirado em andaimes de bambu, o interior de um casino, um vendedor de bolinhas de peixe. Imagens familiares da terra, com um toque particular: por elas circula uma névoa, uma mancha indefinida de espirais a preto e branco que contrasta com as cores fortes dos desenhos.
Os trabalhos são de João Jorge Magalhães e podem, a partir de hoje, ser vistos no Albergue SCM, como parte integrante da exposição “Pop In”. “Achei que devia fazer algo sobre Macau. Não nasci cá mas é a terra dos meus pais e vivi cá desde pequenino”, justifica o autor, que descreve o seu trabalho como “uma espécie de polaróides” de coisas da cidade que o marcam. A impressão que deixam vem “da diferença cultural”, que, embora sendo macaense e conheça bem a realidade chinesa, continua a existir. “São coisas a que acho piada, que existem no dia-a-dia desta cidade e que estão a desaparecer, muitas delas”, aponta.
Os roxos, verdes, amarelos, vermelhos e azuis vibrantes reflectem uma visão própria que Magalhães tem de Macau, dos cheiros, das cores, dos sons. As lojas e mercearias da Rua dos Mercadores, por exemplo, servem de fonte de inspiração: “Há sempre um incenso a queimar, um peixe salgado pendurado, uma luz vermelha e um velhote a fumar”. Tudo isto, aliás, pode ver-se num dos quadro de “Pop In”, o preferido do autor.
As espirais, essas, que ocupam áreas referentes ao indefinido, ao sem forma, como a água, o ar ou o fumo, são um elemento que o ilustrador coloca nas suas criações desde os tempos de faculdade. “Foi uma coisa que ficou, gostei e não consegui deixar de fazer. Acabam por ser o toque diferente do meu trabalho”, conta.
Até ao produto final, o processo é longo. Começa muitas vezes em manhãs no café Ou Mun, para onde o artista gosta de ir desenhar, geralmente em folhas de tamanho A3, com tinta-da-china. “Foi uma coisa que ganhei de Portugal, isso dos cafés e das esplanadas. Não consigo trabalhar em casa, mas se estiver sentado no café, a ouvir sons, a ter movimento, adoro. O meu imaginário e a minha criatividade funcionam melhor”, descreve. Depois disso, os desenhos são digitalizados, impressos em papel de fotográfico mate e desenhados por cima. Esta é a parte a que Magalhães chama de “serigrafia moderna” – “porque desenho por cima do que já está impresso, contorno os traços”, explica.
As personagens dos seus quadros são a mistura de muitas pessoas. “Este senhor a vender bolas de peixe, por exemplo”, diz, enquanto aponta para uma das imagens, “já vi ‘N’ como ele em Macau”. E continua: “Porque é que ponho uma garrafa de Tsingtao ao lado do pescador? Porque é assim que o vejo. Porque é que ponho o senhor das obras em cima dos andaimes a deixar cair tinta cá para baixo? Porque andamos e ficamos todos sujos”. Também em relação aos casinos, espaços tão icónicos da cidade, Magalhães tem uma visão própria: “Não tentei representar o croupier e os jogadores, mas a velhota que está a levar o chá às pessoas”.
“São destas pequenas coisas que me lembro mais. Dos cheiros, do vento – são sensações, daí chamar-lhes ‘pop sensations’”, remata.
“Pop In” vai estar patente ao público até dia 11 de Março, no Albergue.
