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“O coração de Macau é português”

February 6, 2012

Não veio ao festival, mas está cá por causa dele. José Carlos Malato veio filmar um episódio da sua série documental sobre o fado. E até na China ouve a incontornável frase: “Gosto muito do seu programa”.

Inês Santinhos Gonçalves

- O que o traz a Macau?

José Carlos Malato – Vim fazer um documentário, inserido naquilo que gostava que fosse uma série sobre o fado pelo mundo. Já fizemos um com a Katia Guerreiro, em Paris, e depois surgiu esta oportunidade com a Aldina Duarte em Macau. No âmbito do fado como património imaterial da Humanidade, queremos falar desta semente que, na minha opinião, foi iniciada por Amália Rodrigues nas suas viagens pelo mundo, que nós contámos logo no primeiro episódio. Aqui, com a Aldina Duarte, aproveitámos para falar de Macau, no sentido de perceber quais são as sementes que o fado e a língua portuguesa deixaram.

- Já têm um próximo nome pensado?

J.C.M. – Não, ainda não. Aqui estamos também a aproveitar a interacção com algumas pessoas que vieram ao festival, nomeadamente também com macaenses e chineses. Por exemplo, o nosso próximo convidado é tradutor de Fernando Pessoa para português. A Aldina também gosta muito de Fernando Pessoa, portanto temos um ponto de contacto. O espectáculo na Casa do Mandarim foi extraordinário porque é uma ligação entre os portugueses e Macau, sempre nessa perspectiva da semente. Na Casa de Portugal demos especial atenção ao ateliê de guitarra portuguesa do Paulo Valentim. Vamos referir também elementos da cultura portuguesa que existem aqui ligados à gastronomia e aos produtos de excelência, como sendo a mercearia da Margarida Vila-Nova. É também interessante porque a Aldina vai cantando e falando dela própria, nessa perspectiva que é muito dela, do ter e do ser. O coração de Macau é português e isso faz contraponto com o ‘ter’, o jogo, os casinos e os néones. Há uma certa consciência de classe que a Aldina tem e que tem que ver com a sua origem. Vamos andando nessas antinomias e fazendo essas pontes – no fundo é o que nos separa e nos aproxima.

- Tem sido muito reconhecido na rua?

J.C.M. – Muito. As pessoas passam e cumprimentam-me. Estou na China e de repente as pessoas chamam ‘Malato!’. É muito estranho, fico assim um bocadinho assustado por não estar à espera, mas a comunidade é muito acolhedora e tem-me tratado com muito carinho. Gosto muito de Macau, está a ser muito agradável. Estou é um bocadinho enjoado com a comida, que é uma parte a que dou atenção.

- Também é abordado por macaenses?

J.C.M. – Muitos. Muitas pessoas de segunda geração. Fico sempre assim um bocadinho aflito porque não percebo muito bem, mas de repente as pessoas falam-me em português, saúdam-me, e isso é muito interessante.

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