Contra o pó, o fumo e a cinza
Após um mês de viagem, atracava em Macau vindo de Trás-os-Montes o seminarista Manuel Teixeira. Tinha 12 anos, a instrução primária concluída e a porta aberta para entrar no Seminário de São José. Estávamos em 1924. Dez anos depois, celebra a primeira missa, na igreja de São Domingos, e aceita dirigir o Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, onde publica trabalhos dos historiadores José M. Braga e Charles R. Boxer, e dá início a 70 anos de edição. Fundador da revista mensal “O Clarim” e autor de mais de uma centena de livros, o padre da batina branca escreveu e fez história: “Quando estudamos o património cultural e a história de Macau, lembramo-nos de imediato da figura de barba grande e branca com um par de óculos grossos do Monsenhor Manuel Teixeira. O homem e a obra ficarão para sempre guardados na memória das pessoas”, declarou Heidi Ho, quando era ainda presidente do Instituto Cultural.
Na vasta obra do missionário, que dominava as línguas chinesa e inglesa, há um “valioso contributo para o estudo da documentação histórica, religiosa e cultural” – o espólio está conservado na Sala de Macau da Biblioteca Central de Macau (BCM) e inclui 130 títulos.
O padre Manuel Teixeira foi também professor (no colégio de S. José, na Escola Comercial Pedro Nolasco, no Liceu Nacional Infante D. Henrique), membro da Associação Internacional de Historiadores da Ásia (e, mais tarde, da Academia Portuguesa de História) e era um nome conhecido por todos: em 1982 foi eleito Figura do Ano em Macau.
Dois anos depois, criou um fundo para o Estudantes Pobres de Macau. No portal da BCM, Monsenhor Teixeira chega-nos na primeira pessoa: “Como estudioso da história de Macau, o mais importante é tomar notas de todos os acontecimentos importantes de Macau e da sua Diocese, pois a história da igreja de Macau está intimamente ligada à história civil do Território (…). O homem é pó, a fama é fumo e o fim é cinza (…), só os meus livros permanecerão (…) e é essa a minha consolação”. O padre Manuel Teixeira despediu-se do mundo a 15 de Setembro de 2003, dois anos depois de ter deixado Macau e regressado a Portugal. Tinha 91 anos. S.N.
