A semente da literatura
Foi plantada em Macau. É essa a convicção dos organizadores do I Festival Literário, que agora termina. O território já está a servir de inspiração aos escritores que participaram. As ideias para os contos começam a fermentar.
Inês Santinhos Gonçalves
Foram sete dias intensos. No I Festival Literário de Macau falou-se de Oriente e Ocidente, de inspiração, de política, de tradução, de imigração, dos desafios da edição, de tempo, de espaço, de cinema, de música, de pintura e, claro está, de livros. “Ficámos com a certeza que a literatura é uma viagem”, apontou Hélder Beja, subdirector do festival, na sessão de encerramento. Essa viagem trouxe artistas do Brasil, Cabo Verde, Angola, Portugal, Taiwan, Continente, Estados Unidos, Hong Kong e Moçambique. De todos esses lugares chegaram depoimentos e foram partilhadas experiências únicas. Porque, como referiu Beja, “há histórias por contar em todo o lado onde há pessoas”.
Para o director do festival, Ricardo Pinto, o balanço do evento foi claramente positivo: “Foi muito bom ter aqui todos estes autores. Debateu-se literatura, o acto da escrita. Penso que as pessoas saíram daqui muito satisfeitas, criaram-se bases muito importantes de amizade, ligações que vão ficar para o futuro”.
O jornalista considera que se cumpriram os dois principais objectivos da Rota das Letras: aproximar as pessoas da literatura e incentivar a escrita sobre e em Macau. “Quase todos os escritores manifestaram vontade de escrever sobre Macau nos próximos meses. Isso vai permitir que tenhamos obras de muito valor, com muita qualidade literária, sobre Macau”, acredita. O facto de, por exemplo, Su Tong vir a ter um conto escrito sobre o território “terá imenso impacto na China Continental”, acrescentou Ricardo Pinto.
A singularidade da RAEM interessou a todos os participantes, que se confessaram surpreendidos tanto pelo património histórico como pela indústria do jogo. Impressão que partilharam com o PONTO FINAL e foi reforçada pelo director do evento. “Ficaram fascinados. Julgo que ficaram mesmo com vontade de conhecer mais profundamente a cidade e os seus habitantes. Foi uma viagem marcante e julgo que levam Macau no coração”, afirmou.
Objectivo: os melhores
Mas nem tudo foram rosas. A organização estima terem passado pelo festival “algumas centenas de pessoas”. O número é impreciso mas foi, de qualquer forma, abaixo do desejado, com algumas sessões a reunirem poucas dezenas de espectadores. “Em termos de público não tivemos ainda muito sucesso”, confessa o director. Os locais e horários, bem como a ligação a instituições locais, são aspectos que promete serem revistos para a próxima edição. “A ligação a instituições de ensino vai permitir que as sessões tenham bastante gente. Para o público em geral, penso que temos de optar mais por horários pós-laborais que permitam às pessoas estar lá. Eventualmente fará sentido estar mais no centro da cidade. Uma maior utilização da Livraria Portuguesa pode ser uma opção”, explicou.
Nomes e datas para a segunda edição, ainda não há. “Neste momento ainda temos de fazer um balanço e reflectir sobre este festival”, justificou Ricardo Pinto. Mas uma certeza o responsável deu: “Queremos ter aqui os melhores autores, os melhores cineastas, os melhores músicos, mas neste momento nada está decidido, não estão feitos convites”. O conceito – literatura, música, exposições – é para manter, estando a organização a equacionar a possibilidade de juntar peças de teatro.
Durante a sessão de encerramento, além dos habituais agradecimentos e elogios, os participantes deixaram algumas sugestões. José Rodrigues dos Santos falou da importância da presença de editoras, ausentes nesta primeira edição do evento. Ricardo Pinto justificou: “É algo que gostaríamos de ter conseguido mas houve a coincidência de datas com a Feira Internacional de Livros de Taipé, que fez muitos editores de Hong Kong, e até de Macau, viajarem para a capital de Taiwan”. O responsável acredita que “com tempo” será possível trazer editores e tradutores “que possam permitir a publicação das obras nas línguas em causa”. “Será muito interessante ver o Su Tong mais traduzido em português, a Jade Y. Chen, a Lolita Hu, tudo autores de grande qualidade e a que não podemos ter acesso”, exemplificou.
Escrever Macau
Todos os escritores convidados para o festival foram desafiados a escrever um conto sobre Macau – os trabalhos serão publicados em livro a apresentar na próxima edição da Rota das Letras.
Ao mesmo tempo, foi lançado um concurso de contos com a mesma temática, aberto a todos os que queiram participar. Os textos devem ser entregues até dia 31 de Maio e ter, no máximo, cinco mil palavras em português e inglês, e dez mil palavras em chinês. Os vencedores verão os seus trabalhos publicados juntamente com os dos autores convidados. Depois de uma pré-selecção, Su Tong, José Luís Peixoto e Xu Xi escolherão os três vencedores, em chinês, português e inglês, respectivamente.
Já a magicar ideias para o conto e com intenções de regressar a Macau “nos próximos meses”, José Luís Peixoto não tem dúvidas que a cidade inspira à escrita. Como? “Na medida em que é um lugar que coloca questões que geram perplexidade, que não têm uma resposta que seja fácil. Inspira e escreverei”, assegura.
Do festival faz “um balanço muitíssimo positivo”, que lhe deu “a oportunidade de conhecer Macau, o que não é nada pouco”. Referências ao território ouviu muitas, mas não tinha, antes de vir, “de maneira nenhuma uma ideia minimamente precisa”. Só depois desta viagem, que agora chega ao fim, diz ter conseguido verificar “a importância deste lugar, pela forma como acaba por ser um ponto de união entre duas civilizações que ainda hoje se desconhecem tanto”.
Além de ter contactado com escritores que não conhecia previamente, José Luís Peixoto disse que o festival permitiu “aprofundar a relação com autores portugueses que já conhecia”. “Sinto que participei num festival que nas próximas edições será certamente uma referência na realidade cultural de Macau”, apontou o escritor português.
O saldo foi também positivo para João Paulo Cuenca, que salientou a importância de conhecer autores novos e “as obras através deles mesmos”. “E uma cidade nova, uma cidade tão representativa, tão simbólica, tão singular, que é Macau. Não sei quando viria a Macau se não fosse por um convite destes – é muito longe, muito caro, não é um lugar fácil nem um destino óbvio”, disse o brasileiro.
A escrita sobre a cidade já está a acontecer, revelou Cuenca. Para o conto também já tem ideias, mas não quis, por agora, partilhá-las. Deixou apenas uma promessa: regressar, o quanto antes, a Macau.

Trackbacks