Cabeça do dragão com apostas curtas lá fora
Entre os mais de 92 mil não-residentes que trabalham em Macau, só 6,8 por cento foram recrutados pelas concessionárias dos casinos. São apenas 350 os que lidam com jogo e apostas. A DSAL destaca a promoção das gentes da terra.
Sónia Nunes
Macau fechou 2011 com a mão-de-obra não-residente a representar 27,5 por cento da população activa empregada. Os números só encontram paralelo com 2008 (o ano em que o Governo lançou um pacote de medidas para garantir o acesso dos residentes ao emprego) e somam-se em 92.771 trabalhadores importados. Mas apenas 6,8 por cento foram recrutados pelas concessionárias de jogo, numa tendência decrescente de procura que parece contrariar os pró-democratas e deputados dos Operários nas críticas que fazem à política laboral.
Em Novembro e segundo o Gabinete para os Recursos Humanos, a indústria das actividades culturais e recreativas, lotarias e outros serviços – onde encaixa uma gama ampla de sectores que vai desde os casinos às empresas de tratamento de lixo – dava emprego a 11.412 não-residentes. Em Janeiro, ultrapassavam a barreira dos 12 mil. Mas fechando o ângulo às contratações feitas pelas seis concessionárias de jogo, contamos, no terceiro trimestre de 2011, apenas 6.298 trabalhadores recrutados ao exterior.
Os dados mais recentes dizem respeito aos meses de Julho a Setembro e indicam que a Venetian Macau continua a liderar a procura por mão-de-obra importada, ao dar emprego a 2430 não-residentes – mais de metade (1918) são trabalhadores da construção civil. Em segundo lugar, surge a Galaxy, com 1630 funcionários não-residentes (contra os 2877 registados em Dezembro de 2010), seguida da Wynn Resorts, com 760 – esta é, porém, a operadora com maior percentagem de mão-de-obra importada especializada (132 trabalhadores). Umas casas abaixo, encontramos a MGM Grand Paradise que dava emprego a 707 não-residentes e a Sociedade de Jogos de Macau com 650. O império criado por Stanley Ho era, no final de 2010, o maior empregador de trabalhadores locais no sector: 17.192.
“O Governo tem promovido continuamente, com sucesso, a prioridade a dar no emprego de pessoas locais para ocuparem postos de trabalho médios ou altos nas grandes empresas de Macau”, diz a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), em resposta a uma interpelação de Kwan Tsui Hang. A deputada da Associação Geral dos Operários de Macau pedia novos limites à importação de mão-de-obra não-residente nos “sectores ou cargos com futuro”, ao defender que a ausência de “aumentos evidentes nos salários” – a mediana salarial congelou nas dez mil patacas por mês – e a “falta de oportunidades de promoção para os residentes locais” resulta da “grande quantidade de mão-de-obra não-residente”. A DSAL refuta as críticas e estima que 2011 tenha trazido novas oportunidades para sete por cento dos trabalhadores locais contratados pelos casinos.
Residentes com promoção
Os Serviços Laborais dizem que as estatísticas indicam que, “gradualmente, têm sido contratadas pessoas de Macau” para os “serviços principais” das concessionárias de jogo. O organismo refere-se a quatro áreas de operação dos casinos: nos “jogos de mesa, fiscalização, slot machines e câmbio de fichas” a “percentagem entre trabalhadores não-residentes e residentes é de um por cento, significando que por cada 100 trabalhadores contratados, apenas um é não-residente, o que totaliza perto de 350 trabalhadores não residentes naquelas seis concessionárias”.
Ainda entre em 2009 e os primeiros seis meses de 2011, a DSAL observa que “os números referentes às promoções dos trabalhadores residentes nos respectivos cargos têm subido anualmente”. No total, foram 3715 as pessoas que ascenderam a “cargos de chefia ou superior”, com o Governo a adiantar que no segundo semestre do ano passado, as operadoras de jogo devem ter fornecido 1250 oportunidades de promoção para os trabalhadores locais. A criação de planos de formação e de localização de mão-de-obra foi uma das exigências que a Administração fez às seis concessionárias para conseguir que os quadros de gestão dos casinos fossem ocupados por residentes.
O sector das lotarias e jogos de apostas – que junta 13 empresas e exclui os ‘junkets’ – empregava 47.321 pessoas no terceiro trimestre de 2011, mais 7,9 por cento do que no período homólogo de 2010. Destas, 20.816 exerciam funções de croupier; 12.521 estavam como empregados de tesouraria, ficheiros e fiscais de banca, e operadores de serviços de apostas; e 5.456 trabalhavam como assistentes nas salas de jogos e de slot machines, guardas de segurança e operadores de sistemas de vigilância.
No grupo de directores e quadros dirigentes de empresas, existiam apenas 1313 pessoas (mais 1,7 por cento do que em Junho de 2010). Havia ainda 1612 “técnicos e profissionais de nível intermédio”, 266 “especialistas das profissões intelectuais e científicas” e um número significativo de empregados administrativos: 35.623, o que significa uma subida de 9,3 por cento em relação a 2010.
A taxa de vagas no sector cresceu 3,1 pontos percentuais, face ao segundo trimestre de 2010: em Julho do ano passado, contavam-se 2142 postos por ocupar (um acréscimo duas vezes superior), com destaque para os 800 lugares destinados ao cargo de croupier. Mais de metade das vagas (58,5 por cento) exigiam que os candidatos tivessem experiência profissional e habilitações académicas equivalentes, pelo menos, ao ensino secundário complementar.
O volume de rotatividade dos trabalhadores na indústria também engrossou, cifrando-se em quase cinco por cento, mais 0,8 pontos percentuais do que em 2010. Ainda na tendência de subida, as taxa de recrutamento e de vagas por preencher aumentaram 2,5 e 3,1 pontos percentuais, respectivamente, o que, conforme destaca a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, significa que “a procura de recursos humanos no sector das lotarias e outros jogos de aposta aumentou”. Alguns académicos têm vindo a defender que os não-residentes possam voltar a exercer funções de croupier, mas a hipótese é declinada pelo Chefe do Executivo.
Ainda no inquérito mais recente às necessidades de mão-de-obra no sector das lotarias e outros jogos de apostas, verifica-se que o salário médio dos trabalhadores a tempo inteiro subiu sete por cento (face a Julho de 2010), atingido as 16.460 patacas. Mas, no caso dos não-residentes, a média dos ordenados desceu 1,8 por cento, caindo para 18.500 patacas.
