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O que é que os jovens querem?

January 19, 2012

Foram os principais intervenientes da sessão de ontem sobre o sistema político. A juventude não pede uma só coisa. Há quem queira garantia de representação dos seus interesses e quem defenda o sufrágio universal.

Maria Caetano

Na consulta sobre o desenvolvimento do sistema político, várias têm sido as vozes a apelar a uma maior participação política dos jovens e a reivindicar até assentos nos órgãos de eleição destinados à representação desta geração. Precisamente, os jovens terão constituído a maioria dos 497 participantes – e não 657, como antes foi anunciado – da última palestra promovida pelo Governo para uma eventual reforma política.

Há os que apelam a uma redistribuição de interesses em sede do colégio que elege o Chefe do Executivo e na Assembleia legislativa, os que apoiam a fórmula 2-2-150 (mais dois deputados em sufrágio directo, outros dois em sufrágio indirecto e 150 novos membros para a Comissão de Eleição do líder do Executivo), e os que defendem a via do sufrágio universal.

Jason Chao, o presidente da Associação Novo Macau, esteve entre os primeiros oradores da noite, ouvindo alguns participantes apelarem a uma redistribuição de interesses na bancada indirecta da Assembleia Legislativa, com aumento correspondente nos lugares para acolher representantes dos jovens, da classe média, do sector profissional, e outros. “Como representar todos?”. Para Chao, só com o sufrágio directo universal.

Scott Chiang, colega na organização, repetiu a fórmula que tem vindo a ser defendida pela Novo Macau – aumento de três deputados eleitos pela via directa e redução de três dos indirectos, com o Chefe do Executivo a ser escolhido por todos os eleitores individuais da região.

O jovem da Novo Macau mostrou discordar dos apelos à integração de um representante jovem no hemiciclo. “Os jovens competentes não devem ir bater à porta para ver se conseguem ter um lugar. Devem trabalhar para fazer alguma coisa”, defendeu, dando-se como exemplo.

“Eu não consegui o número de votos para ser eleito nas últimas eleições mas, comparando a proporção de eleitores, sua excelência teve menos votos do que eu”, disse o ex-candidato às eleições para a Assembleia Legislativa de 2009, da lista liderada pelo actual deputado Ng Kuok Cheong, dirigindo-se ao Chefe do Executivo, Chui Sai On, presente na sala.

Lei Iok Pui, presidente da comissão para a juventude da Aliança de Povo de Instituição de Macau, foi outro dos muitos membros da nova geração a usar da palavra. “Aumentar os assentos para os jovens não significa que estamos a pedir uma esmola”, retorquiu a Scott Chiang, defendendo que é necessário “optimizar a representatividade” do grupo.

Foram vários os estudantes universitários a intervir. Wong Chan Nin, aluno da Universidade de Macau, apontou aspectos ultrapassados às normas de constituição da Comissão de Eleição do Chefe do Executivo. “Já não existem os órgãos municipais. Agora existe o IACM. Continua a ser um órgão representativo? Acho que não”, exemplificou sobre o que considera que é preciso rever.

Houve mais quem discriminasse aspectos que considerou insuficientemente debatidos. O jovem Ku Hon Fong lembrou o artigo da Lei Básica relativo às competências do Chefe do Executivo, que o incumbe de nomear parte dos deputados. “Nada foi falado quanto a isto”, alertou.

No que toca ao actual processo de eleição indirecta dos deputados, o jovem pediu mudanças. “Há necessidade de melhorar o regime de profissionalização e credenciação para assim haver maior participação nas eleições”, defendeu, alegando que a população desconfia dos escolhidos: “As pessoas acham que é uma distribuição de uma fatia de bolo por quem já tem o prato na mão”.

Para Chan Ka Man, a solução passa por acabar com assentos. “O sufrágio indirecto deve ser eliminado de uma forma gradual”, defendeu este jovem, que se apresentou apenas como “pai”. Na representação sectorial por voto das associações, descreveu, “só há dez mandatos e todos eles são eleitos automaticamente”.

Iu Hei Tou foi outro dos jovens intervenientes. “Se o sistema político não se alterar, só temos a morte à nossa frente”, apregoou, lembrando declarações do primeiro-ministro, Wen Jiabao, que por várias vezes tem referido a necessidade de reforma política do país.

“Há pessoas que acham que as condições não são maduras para implementar o sufrágio universal”, referiu, contrapondo o exemplo de Taiwan, onde o voto directo serviu na passada semana a eleição do Presidente da ilha. “Se estamos sempre com medo de avançar, só vamos ter perdas no futuro”, alertou.

Ieong Sio Hong, igualmente jovem, interveio com uma citação de Mao, para se mostrar favorável à prossecução de um modelo próprio de desenvolvimento do sistema político, sem paralelo com Hong Kong.

“Tanto o gato preto como o branco são bons. Temos é de ter um bom gato para apanhar o rato”, citou, considerando que a actual constituição da Assembleia Legislativa e da Comissão de Eleição do Chefe do Executivo “é eficaz para Macau”.

Tam Ka Seng é também da opinião que “o sufrágio directo e o sufrágio indirecto são ambos formas eficazes de participação democrática”. Como ele, alguns outros repetiram a fórmula 2-2-150 – a que mais se tem ouvido durante a actual ronda de consulta.

Lei Kok Keung desconfiou. “As opiniões são iguais, dois mais dois e depois 400 membros. Serão combinadas?”, questionou, dirigindo-se aos jovens da plateia que reclamaram uma redistribuição de interesses sectoriais que garantam mais voz nos órgãos de eleição para as gerações mais novas. “Já pensaram se estes assentos são para vocês? Se a comissão eleitoral for alargada, também não vão ter direito de voto”, alertou.

Falaram também alguns professores e três deputados (todos eles nomeados). Gabriel Tong, Chui Sai Peng e Vong Hin Fai reservaram a manifestação das respectivas opiniões para a última sessão de consulta, destinada ao público em geral. E pediram, com sentir comum, um processo gradual de desenvolvimento que não “transplante” os modelos dos outros e que promova de forma uniforme o alargamento dos assentos em órgãos de eleição.

O tempo para ouvir o que pensa a população esgotou-se ao 37º participante, já depois da sessão ter sido estendida em meia hora não prevista. Mas ainda assim provocando o protesto exaltado de Lei Kin Iun, líder da Associação Activismo para a Democracia, e de outros que com ele se encontravam.

A secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, voltou a lembrar que o prazo para a recolha de opiniões decorre até ao final do mês, com o Governo a receber sugestões ainda por via electrónica (em www.cdm.gov.mo) e por via postal.

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