Sun Yat-sen, herói e vilão
Assinala-se este mês o 100º aniversário da proclamação do primeiro Presidente da República da China. Hoje figura de consenso, foi um dos mais ilustres colaboradores da imprensa de Macau, que acabaria por o transformar em inimigo número um.
Ricardo Pinto
O nome de Sun Yat-sen é hoje, porventura, o mais pacífico, incontroverso e consensual da história recente da China – e da própria história de Macau. A sua vida e obra são profundamente admiradas por novos e velhos, ricos e pobres, portugueses e chineses, comunistas e nacionalistas. À sua memória foram erguidos monumentos de ambos os lados do Estreito de Taiwan e também nos dois lados das Portas do Cerco. É o herói romântico das causas nobres e das lutas desiguais. O inimigo mortal dos mandarins, da corrupção e da injustiça. O fundador da Primeira República. O Pai da China Moderna.
A sua (breve) passagem por Macau, ainda que mal estudada, é hoje colorida em tons rosa ou narrada como um canto de uma epopeia. Foi, a seu tempo, o médico ilustre e incompreendido, o político sensato e inflamado, o revolucionário generoso e impulsivo. O homem amante da pátria e amigo dos portugueses. E, provavelmente, foi tudo isso e muito mais – mas, há que admiti-lo, nem sempre foi assim que os seus contemporâneos o olharam. Longe disso.
Uma juventude irrequieta
A primeira vez que um jornal de Macau mencionou o nome de Sun Yat-sen foi no dia 1 de Agosto de 1893. O Echo Macaense, jornal dirigido por Francisco Hermenegildo Fernandes, referia-se-lhe tratando-o apenas por Dr. Sun, sinal de que o nome já era bem conhecido na cidade, ou que o editor privava de perto com ele, ou ambas as coisas.
O artigo da página interior deste semanário luso-chinês, o primeiro da história de Macau, rezava o seguinte: “Secção chinesa – o artigo de fundo consiste numa carta do Dr. Sun dirigida a Chiang-Keng-hong, que foi ministro china em Washington, ora residente na cidade de Heang-Shan. Ambos são naturaes d’este districto. O Dr. Sun insta para que o Chiang-Keng-hong use da sua influência para promover no districto de Heang-Shan três cousas: 1º A plantação d’amoreira e a creação de bichos de seda. 2º A fundação de uma associação para combater o vício do ópio. 3º Promover o desenvolvimento da instrução pública, estabelecendo uma escola para cada cem famílias. Vem depois algumas observações da redacção, aprovando as ideias do Dr. Sun”.
As ideias, que hoje pareceram pueris, eram as de um jovem médico recém-licenciado em Hong Kong, acabado de chegar a Macau e com interesses na vida que, claramente, iam muito além da medicina e das próprias fronteiras do território, como o tempo se encarregaria de provar.
Natural de Cuiheng, pequena aldeia a 30 quilómetros de Macau, Sun Yat-sen pisou pela primeira vez a então colónia portuguesa, onde antes haviam já vivido os seus pais, no ano de 1878. Tinha então 12 anos e estava de viagem para o Havai, para se juntar ao irmão Sun Mei, comerciante abastado. Nos cinco anos seguintes, ali frequentou o ensino secundário, em contacto com uma cultura que o influenciaria para todo o sempre. Tornou-se católico e temente a Deus, e absorveu o ideário do Novo Continente – na altura, mais do que nunca a terra das oportunidades, da democracia e do progresso. Mas o apelo da mãe-pátria, algo de tão característico no povo chinês, fê-lo regressar em 1883, fixando-se desta vez em Hong Kong, onde completou o curso de Medicina. E onde participou, pela primeira vez, em actividades subversivas contra o regime imperial chinês, em tudo antítese dos ensinamentos colhidos do outro lado do Pacífico.
Apoiou várias greves dos trabalhadores portuários de Hong Kong, fabricou bombas artesanais e foi detido pela polícia da colónia britânica por suspeita de envolvimento em atentados bombistas. Nas suas andanças pelos tribunais, travou conhecimento com Francisco Hermenegildo Fernandes, um tradutor judicial que poucos anos depois regressaria a Macau para se dedicar ao negócio da família: a Tipografia Mercantil e, depois, a publicação do seu próprio jornal
Contra os médicos “vendilhões de hortaliça”
O reencontro entre os dois homens, em 1893, foi fruto do acaso. Impedido de exercer medicina em Hong Kong, Sun Yat-sen teve de deixar a colónia britânica e partir também rumo a Macau, à procura de emprego. Depois de se instalar numa pequena casa da Travessa da Misericórdia, onde foi vizinho de Wensceslau de Moraes, arranjou ocupação no Hospital Kiang Wu, uma instituição recente mas de hábitos antigos, que só aplicava a medicina tradicional chinesa. Tudo o mais era encarado com grande desconfiança.
Mas Sun Yat-sen vinha disposto a mudar. A 25 de Novembro de 1893, o Echo Macaense reproduzia outra notícia da sua secção chinesa em que o nome de Sun era novamente mencionado: “Novo hospital em Chin San – Dizem que em breve será fundando em Chin San um novo hospital, onde se tratarão os enfermos pelo systema europeu, empregando-se exclusivamente os medicamentos europeus, e que foi convidado a dirigir aquelle hospital o Dr. Tang do Alice Memorial Hospital de Hong Kong, recomendado pelo Dr. Sun”.
Poucos dias depois, a 19 de Dezembro, uma outra tradução da folha chinesa distribuída juntamente com o semanário português tecia um rasgado elogio a Sun Yat-sen, ao mesmo tempo que revelava o clima hostil que o rodeava no hospital: “Infelizmente os médicos chinas do hospital não apresentam nenhuma garantia dos seus conhecimentos, tendo alguns d’elles sahido da classe de vendilhões de hortaliça e de carregadores de água. Mas desde que o Dr. Sun começou a exercer clínica no hospital china, curando pelo systema europeu, e promoveu meios para fundar uma sociedade denominada a clínica europeia, tem sido o hospital útil a muita gente, pois diariamente mais de cem pessoas de fora vão ahi para se curarem. Os encarregados do hospital tiveram inveja e fecharam a enfermaria para a admissão de doentes internos. E agora até com relação aos doentes externos, também descarregaram sobre o Dr. Sun todo o encargo de promover subscripções e buscar meios para fazer as despesas. Um homem só e isolado não pode arcar com tão pesado encargo”.
Era um autêntico pedido de socorro para os métodos que Sun Yat-sen teimava em introduzir na hermética instituição. Mas seria o último que se faria ouvir em português. A pouco e pouco, Francisco Hermenegildo Fernandes deixou de incluir nas suas páginas a tradução da secção chinesa e, pouco tempo depois, em Fevereiro de 1894, anunciava a autonomização do jornal chinês. O Echo Macaense virava-se, em exclusivo, para a comunidade portuguesa.
Depois das dívidas, a Revolução
Quanto a Sun Yat-sen, é de crer que o jornal chinês, Ching-Hai Tsung-Pao, continuasse a pugnar pelas suas ideias, tanto no campo da medicina como na própria área da intervenção política. Mas, hoje em dia, a este respeito pouco mais se pode fazer do que especulações, pois os periódicos chineses dessa época não resistiram, salvo raras excepções, à erosão do tempo.
O que se sabe ao certo é que, nesta sua breve estadia em Macau, Sun Yat-sen ficou crivado de dívidas para com o Hospital Kiang Wu. Dívidas que apenas acabaria de pagar em 1919. E sabe-se, igualmente, que as manifestações de hostilidade ao seu desempenho profissional partiram não só dos seus colegas no Kiang Wu, mas também de médicos portugueses, incomodados com a notoriedade que um chinês de trança e cabaia estava a conquistar na cidade.
Sun Yat-sen fez as malas e partiu para Cantão, onde o esperava o seu primeiro grande confronto com a dinastia Qing: uma revolta armada na capital de Guangdong, a 26 de Outubro de 1895, que foi rápida e eficazmente suprimida pelo exército imperial. Sun foi dos poucos revoltosos que conseguiu fugir. Regressou então a Macau, onde o seu amigo Francisco Fernandes encontrou forma de o levar para Hong Kong, e daí para paragens mais seguras.
Na imprensa, nenhuma referência à sua passagem clandestina pelo território. Apenas o Ching-Hai Tsung-Pao, na sua edição de 6 de Novembro, traçava o perfil do chefe dos revoltosos, explicando que Sun Yat-sen procurara convencer o Imperador da necessidade de reformas, antes de se lançar na tentativa de derrube do regime.
Muitos anos se passariam até que os ideais republicanos finalmente triunfassem. De 1895 a 1911, Sun Yat-sen comandou a longa distância, do Japão ou dos Estados Unidos, mais de uma dezena de intentonas contra a dinastia manchu. Chegou a ser raptado em Londres pela polícia secreta do Imperador, facto amplamente noticiado pela imprensa mundial. Mas, aos poucos, o seu nome foi-se tornando cada vez menos familiar para os habitantes de Macau, então como sempre muito virados para os seus próprios problemas.
Troca de correspondência
No entanto, Francisco Hermenegildo Fernandes não se tinha esquecido dele, quando finalmente a república nasceu e Sun foi proclamado Presidente. A 12 de Janeiro de 1912, cumprimentava-o pelo triunfo numa carta que começava assim: “Meu Caro Dr. Sun, Já lá vão mais de 18 anos desde que apertámos pela última vez as mãos, quando, pleno de coragem e optimismo, partiu desta terra para essa grande empresa de abalar a anedota Manchu. Ao longo desse período desejei muito escrever-lhe, mas vi-me impossibilitado de o fazer já que não era possível fazer perguntas sobre o seu paradeiro. Agora tenho a grande satisfação de lhe endereçar os meus parabéns pelos seus êxitos e também pela sua elevação à presidência da República Chinesa, uma vitória que, devo confessar, nunca sonhei poder surgir tão cedo e rodeada de tanta alegria e entusiasmo”.
Esta alegria foi, no entanto, de curta duração. Há muito afastado da pátria, Sun Yat-sen não tinha apoios que se comparassem com os do general Yuan Shi-K’ai, antigo comandante do Exército Imperial. E, por isso, renunciou ao cargo a 14 de Fevereiro de 1912.
Em contrapartida, Francisco Fernandes teria, dias depois, a oportunidade de voltar a apertar as mãos do seu velho amigo. Sun Yat-sen visitou Macau na Primavera do mesmo ano, sendo recebido com as honras devidas a um chefe de Estado. É dessa época a célebre fotografia em que Sun Yat-sen posa ao lado de Camilo Pessanha e outros republicanos, no Pavilhão Lou Lim Iok, onde ficou instalado.
Lamentavelmente, nenhum jornal português dessa época, se é que existiam, sobreviveu para contar tão importante visita.
Reatada a luta contra o governo central, Sun Yat-sen sentir-se-ia, anos depois, na obrigação de também ele escrever uma carta aos seus amigos de Macau. Endereçou-a ao Governador José Carlos da Maia, a quem se sentia grato pela recusa das autoridades portuguesas de extraditarem para a China os refugiados políticos: “Meu Caro Governador, É com real prazer que venho exprimir-lhe os meus sinceros agradecimentos pela extrema bondade que tem demonstrado, em muitas circunstâncias, a todos os meus amigos políticos, sobretudo durante os últimos acontecimentos ocorridos não longe de Macau. Exprimindo-lhe aqui estes sentimentos, estou certo de ser um intérprete fiel de todos os republicanos chineses. Desejo ardentemente, caro Governador, que a ordem e a paz sejam realmente estabelecidas na China, a fim que possamos, com o concurso e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração de acordo com as aspirações do país”.
Mas, depois desta carta ter sido escrita, em 23 de Julho de 1916, as convulsões políticas na China iriam ainda arrastar-se por muitos e longos anos. Graças a uma luta tenaz, Sun Yat-sen conseguiu para si a chefia do governo de Cantão, província que tendia a assumir-se como nação independente – mas nem aqui o seu domínio era incontestado.
Perigoso comunista
Em 1922, quando Macau estava a braços com uma greve geral (uma das maiores crises de sempre da administração portuguesa), Sun Yat-sen era vítima, em Cantão, de uma tentativa de assassínio, seguida de golpe de Estado. Falhada a primeira, os seus adversários políticos, liderados pelo General Chan Queng-meng, trataram então de o desacreditar, divulgando provas de que Sun Yat-sen se propunha a pedir auxílio à Rússia soviética.
Foi o bastante, na imprensa portuguesa de Macau, para que o herói de outros tempos se transformasse em vilão.
O semanário O Liberal, o mais lido na época, não lhe poupava adjectivos: “Esse agitador, chefe dos bolchevistas e inimigo dos portugueses, Sun Yat-sen, ora fugido para o norte; esse irrequieto que tantas discórdias e perturbações tem causado ao seu paiz e que tanto tem agitado as classes ingénuas e ignaras dos trabalhadores chineses contra os estrangeiros em geral e contra os portugueses em particular”.
Na metrópole, o Século alinhava pelo mesmo tom: “Sun Yat-sen, um chefe revolucionário que nunca tem mostrado simpatias por Portugal…”.
E jornal nenhum fazia referência aos anos passados por Macau por Sun Yat-sen, nem aos amigos que por cá deixou.
Quando o Hongkong Telegraph noticiou a presença no território do seu filho, a indignação foi total: “Esse Sun Fo veio incumbido de negociar com o governo desta província um acordo no sentido de os trabalhadores regressarem todos aos seus antigos misteres, com a condição de o papá, que se vê agora em calças pardas, ser acolhido em Macau, à sombra da protecção do nosso Governo”.
O que se devia fazer, O Liberal sabia-o bem: “Tal concessão não deve, nem pôde nem hade ser feita, pois que o veda a nossa dignidade e, portanto, é bem de ver que o figurão, a ser consentida a sua permanencia nesta colonia, procurará por despeito agitar novamente as classes trabalhadoras de modo a semear nesta colonia novos disturbios e a causar-nos novas dificuldades. Recomendamo-lo, pois, ao Governo da Província e muito especialmente ao sr. Comissário de Polícia (Trrrim!… Está?…)”.
Assim mesmo. Mas, dias depois, o South China Morning Post noticiava que Sun Fo, com a permissão das autoridades de Macau, havia já adquirido na cidade “um rico prédio, para o efeito de fixar aqui o seu domicílio com a sua família que trará de Xangai”. E logo a seguir o North China Daily News, jornal inglês de Xangai, garantia que a facção de Sun Yat-sen transferira para Macau a sua base de operações, o que iria afectar consideravelmente as forças de Chan Queng-meng.
Ao director d’O Liberal, Constâncio José da Silva, só restava o desabafo: “Isto por cá, decididamente, caminha às mil maravilhas!…”
Amigos, mas não como dantes
Meses depois, já em 1923, Sun Yat-sen vencia finalmente os seus adversários provinciais e regressava à presidência do Governo de Cantão. No primeiro dos seus discursos, citou Macau e Hong Kong como locais de refúgio em ocasiões de perturbação e acrescentou que a existência, às portas de Cantão, dos dois territórios em relações amigáveis, concorreria para que Quang-tung se desenvolvesse industrialmente e em boa paz.
N’O Liberal os adjectivos utilizados seriam agora bem diferentes: tratava-se de um discurso interessante e notável, de um homem de profunda inteligência, um espírito superior que “sobressai, no seu valor intelectual e na sua ilustração, de entre os elementos que o mare magnum da política chinesa tem trazido à superfície”.
É certo que o passado não fora esquecido: “Hong Kong e Macau sofreram, ainda há menos de um ano, as consequências da má visão política que, ao tempo impelia e orientava Sun Yat-sen”. Doutrinas comunistas, tendências belicosas, planos guerreiros. Mas o articulista era complacente: “Realiza o Dr. Sun o acto de contrição e com isso todos nós rejubilamos. De resto, não só erra quem nunca poz a inteligência em laboração…”.
No entanto, a reabilitação de Sun Yat-sen, aos olhos dos portugueses que à época habitavam Macau, nunca foi completa. Não só pelas desconfianças que, segundo eles, o passado recente recomendava, mas também porque Sun mantinha o seu poder circunscrito à região de Guangdong – e nada garantia que não sucumbisse, de um momento para o outro, perante o maior poderio das tropas de Pequim.
A 19 e 21 de Março de 1925, uma semana depois da sua morte, os jornais que se publicavam na altura, O Combate e A Pátria, noticiaram friamente o desaparecimento do dirigente chinês, limitando-se a reproduzir telexes de agências noticiosas. Sobre a ligação de Sun a Macau, mais uma vez, nem uma palavra.
Em vez disso, referências ao luto oficial e manifestações de regozijo pela morte de Sun Yat-sen em algumas cidades chinesas, e a divulgação do seu testamento, composto por duas partes. Testamento político: “Visto a obra revolucionária estar ainda por acabar, os meus colegas deveriam trabalhar sempre em conformidade com os meus escritos. Com respeito à convocação de uma Conferência Nacional e com respeito à abolição de tratados desiguais, que ultimamente advoguei, deveis trabalhar sem descanso até alcançardes estes fins”. Testamento pessoal: “Sacrifiquei-me dando todas as minhas energias a negócios nacionais, de maneira que não pude juntar riquezas. O que tenho que possa deixar são livros, roupas e uma casa, que tudo quero que fique para minha mulher, como lembrança. O meu filho e as minhas filhas já têm idade para tratar da sua vida por si. Espero que sigam as minhas pegadas”.
A Pátria revelava também que Sun Yat-sen manifestara a sua mulher a vontade de ser embalsamado e colocado num caixão semelhante ao do seu amigo Lenine, e enterrado no Monte do Tigre, em Nanquim. Citava ainda o The Time que, sob o título “Catástrofe Brilhante”, dizia ser pena “que a vida romântica de Sun tivesse dado nos seus últimos anos na lamentável catástrofe do blochevismo”, um estigma de que o fundador da República apenas se libertaria muitos anos depois da sua morte.
Em Macau, por exemplo, só em 1958 os nacionalistas do Kuomitang aqui refugiados transformaram em Memorial o nº 1 da Rua de Silva Mendes – a tal casa que Sun Yat-sen deixara em testamento a sua mulher e onde, afinal, nunca vivera.
