Ma de manutenção
É já amanhã que Taiwan vai a votos. O actual presidente da ilha, Ma Ying-jeou, não tem a vitória garantida. Para académicos e empresários formosinos em Macau e no Continente, o líder do Kuomitang é aquele que oferece maior estabilidade ao Estreito.
Stephanie Lai
O candidato do Partido Kuomintang, Ma Ying-jeou, está em vantagem na corrida eleitoral da ilha, apesar das últimas sondagens mostrarem que o sufrágio de amanhã vai ser renhido. O actual líder da ilha poderá retirar benefícios do acordo económico assinado com o Continente (ECFA, na sigla inglesa) e das políticas pragmáticas que adoptou para as relações entre os dois lados do Estreito, consideram a Câmara do Comércio de Taiwan em Macau (CCTM) e académicos especialistas na matéria.
No entanto, a sorte de Ma estará condicionada pelo número de votos que James Soong conseguir reunir – o ex-Kuomitang não é candidato à vitória, mas poderá desviar eleitores que, noutras circunstâncias, estariam ao lado do presidente.
Com a aproximação da data das eleições, que se realizam a cada quatro anos, milhares de taiwaneses que vivem na China Continental, em Hong Kong e Macau estão a regressar à ilha para participarem no sufrágio. Os muitos empresários com actividade no Continente podem ter uma influência considerável quando chegar a altura de contar os votos, aponta o presidente da CCTM, Lai Wen-yu.
“Os responsáveis pelas empresas estão a incentivar os trabalhadores a voltarem para votar. Não os estão a pressionar para escolher um lado”, referiu ao PONTO FINAL. Contudo, “tendencialmente, os empresários de Taiwan [do Continente] escolhem o campo azul de Ma”. Desde que foi empossado, o líder do Kuomitang tem trabalhado no sentido de criar ligações económicas mais fortes com a China.
O sucesso do acordo económico firmado com o Continente – atestado pelo relatório da Heritage Foundation relativo a 2012, ontem conhecido, que coloca Taiwan em 18º lugar na lista de economias mais livres do mundo – tem contribuído para fortalecer a economia da ilha, uma das mais ricas da Ásia. Depois, o modo como Ma Ying-jeou tem vindo a contornar as divergências políticas com Pequim faz com que grandes empresas (casos do Formosa Plastic Group e da Eva Air) nutram simpatia pelo Kuomitang, que lhes facilita as operações em solo continental.
“O ECFA viabilizou as viagens individuais de turistas do Continente para Taiwan e, com isto como estímulo, a ilha registou um recorde nas receitas do turismo de 300 mil milhões de dólares de Taiwan no ano passado”, prossegue Lai Wen-yu. “Nestes últimos três anos da administração Ma, as relações entre os dois lados do Estreito melhoraram muito. Se Tsai [Ing-wen, candidata do Partido Democrático Progressista (DPP, na sigla inglesa)] realmente conseguir vencer, temo que haja um novo hiato nas relações, especialmente porque o Continente não está muito familiarizado com o DPP”, acrescenta.
Jogar pelo seguro
Constance Hsu Ching-hui, presidente do conselho de administração do grupo Mocha e membro da Câmara do Comércio de Taiwan em Macau, concorda que a consistência das políticas económicas e a abordagem “amadurecida” às relações entre os dois lados do Estreito podem significar mais votos para Ma Ying-jeou.
“A crise da dívida na União Europeia e o enfraquecimento da economia norte-americana vai implicar um abrandamento do dinamismo económico de Taiwan”, prevê a empresária. “Nestas circunstâncias, Taiwan irá ficar, sem dúvida alguma, mais dependente do Continente. O turismo e o investimento da China estão a adquirir cada vez maior importância. As relações entre os dois lados do Estreito são agora fulcrais e qualquer passo em falso do líder de Taiwan terá impacto negativo para a economia da ilha”, avisa Constance Hsu.
A política dos “três nãos” de Ma – não à reunificação, não à independência e não à utilização de armas – pode ser entendida como uma forma mais madura de fazer política, entende o académico especialista em relações internacionais, Wang Jianwei. Para o responsável pelo curso de Administração Pública da Universidade de Macau, é “óbvio” que Pequim deseja que Ma seja bem-sucedido nas eleições de amanhã: “Mesmo que não haja grandes desenvolvimentos nas relações com a China Continental no futuro, pelo menos são estáveis”, comenta.
“Para a população de Taiwan, os homens de negócios são os grandes apoiantes de Ma Ying-jeou. E embora haja cidadãos que estão descontentes com o seu desempenho nos últimos quatro anos, as pessoas irão continuar a votar em Ma, mesmo pouco convencidas, mas em nome de relações estáveis entre os dois lados do Estreito”, prevê Wang Jianwei.
A estabilidade alcançada por Ma teve, por exemplo, como resultado o aumento das actividades da Associação de Amigos de Hong Kong e Macau (FHKMA, na sigla inglesa), encabeçada pelo vice-presidente do parlamento taiwanês, Tseng Yung-Chuan. A FHKMA é uma entidade informal que lida com negócios e matérias de índole cultural entre as duas regiões administrativas especiais e a ilha.
“As actividades de intercâmbio da associação aumentaram”, explica Constance Hsu, que é também consultora da FHKMA. “Recordo-me que quando Chen Shui-bian esteve no poder, as iniciativas foram todas suspensas.” Embora o DPP de Tsai seja diferente do que foi liderado por Chen, a cumprir pena de prisão por corrupção, a perspectiva da ala independentista voltar ao poder causa receios entre quem tem a vida dividida pelo Estreito.
