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Macau no mapa de 2013

Janeiro 6, 2012

Em Maio do próximo ano, Portugal acolhe o Congresso Internacional sobre Narrativas de Macau. O encontro servirá para assinalar os 500 anos da chegada de Jorge Álvares à China e as relações sino-portuguesas.

Pedro Galinha

Entre os dias 8 e 10 de Maio 2013, o Museu do Oriente, em Lisboa, acolhe o Congresso Internacional sobre Narrativas de Macau. Organizado pelo Centro de História Além-Mar (CHAM) e pelo Centre for English, Translation, and Anglo-Portuguese Studies (CETAPS), ambos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), este encontro interdisciplinar procura lançar o debate de ideias em áreas tão dispersas como a lusofonia, expansão portuguesa, estudos de Macau, relações luso-asiáticas ou estudos coloniais.

Da comissão científica e de aconselhamento do congresso – que acontece por ocasião dos 500 anos da chegada do primeiro navegador português à China, Jorge Álvares – fazem parte académicos de Macau, Portugal, Hong Kong, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Estados Unidos da América e Brasil. Prova de que a organização, que tem como rosto principal o professor universitário Rogério Miguel Puga (CHAM, CETAPS, UNL), aposta num debate abrangente e aberto a novas interpretações.

- Podemos esperar um encontro diferente daqueles que já aconteceram e que colocam em foco Portugal e Macau? 

Rogério Miguel Puga – Sim, será um encontro único em Lisboa, que junta dois centros de investigação da FCSH da Universidade Nova, com o apoio da Fundação Oriente. O evento permitirá a participação de investigadores das mais variadas partes do mundo e em áreas do saber tão distintas como a Sociolinguística, a História, a Antropologia, os Estudos Museológicos, a Sociologia, os Estudos Literários, entre outras. Esses académicos analisarão a forma como Macau tem sido narrada ou plasmada quer a Oriente, quer a Ocidente, ao longo dos séculos, e de que forma a representação do enclave textualizado foi mudando ao longo dos tempos. Em Macau, no ano de 2009, e enquanto professor auxiliar da Universidade de Macau, organizei a “Primeira Conferência Interdisciplinar Internacional de Estudos sobre Macau”, que foi um êxito ao juntar um grupo de quase uma centena de investigadores internacionais, levando o escopo dos estudos sobre Macau muito para além das relações luso-chinesas. Os portugueses foram pioneiros na China, mas Macau possibilitou a entrada e a permanência na China de britânicos, norte-americanos, arménios, franceses, entre tantos outros povos. Celebraremos assim o início das relações luso-chinesas no âmbito mais lato das relações sino-ocidentais através da temática propositadamente alargada da ‘narrativização’ de Macau ao longo dos tempos.

- Desde o século XVI, Macau foi objecto de narração através das mais diversas formas culturais. A literatura e a pintura destacam-se de todas outras?

R.M.P. – Recordando a máxima horaciana “ut pictura poesis”, poderíamos afirmar que a escrita de viagens e a pintura – recorde-se o nome mais óbvio de George Chinnery [pintor inglês nascido no século XVII que viveu grande parte da sua vida na Ásia] – são formas privilegiadas de materializar Macau artisticamente, sendo que algumas fontes historiográficas são também estudadas como literatura de viagens, nomeadamente a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, cujo conteúdo tem sido recuperado gradualmente como real em vez de ser interpretado como mentiras do herói pícaro. São várias as áreas do saber representadas na comissão científica do congresso, de forma a permitir que este seja um evento académico internacional, representativo e interdisciplinar.

- Considera que este tema está votado, um pouco, ao esquecimento?

R.M.P. – Esquecido não. Tem-se feito muita investigação em Macau, em Portugal e noutros países, mas, claro, muito mais há a fazer, e esta conferência permite estimular a realização de trabalhos nas mais variadas áreas do saber, bem como outros que se possam seguir, nomeadamente a colaboração de investigadores de vários países. Está também agendado para breve o lançamento da European Journal of Macau Studies, uma revista académica online, de livre acesso, publicada pelo CETAPS e pelo CHAM. Penso que Portugal deve ser aproveitado, por instituições de Macau e de Portugal, como plataforma privilegiada de investigação e promoção de Macau a Ocidente, e é nesse sentido que criei a revista que acabo de referir e que organizo mensalmente, na Universidade Nova de Lisboa (FCSH), o Seminário Permanente de Estudos sobre Macau.

- Conhece bem a realidade de Macau e, claro, a portuguesa. Sente que continua a existir pouco contacto e diálogo entre os dois lados?

R.M.P. – Sim, o diálogo poderá sempre ser mais estreitado a muitos níveis: artístico, político, turístico, comercial e económico. Macau continua a ser uma realidade desconhecida da população em geral, sobretudo dos mais jovens, mas é verdade que muita iniciativa tem sido desenvolvida para contrariar esta realidade. Posso afirmar, por experiência própria, que Macau fascina alunos desde Londres a Paris. Desloco-me na Europa várias vezes por ano para falar do território a alunos e a colegas de universidade europeias, e o entusiasmo é grande. A informação tem que ser apropriada e ir de encontro às expectativas e necessidades dos grupos-alvo. Só assim o diálogo será eficaz.

- Concorda com a tese de que a língua portuguesa é o património maior que resta da presença lusa em Macau?

R.M.P. – Não acho. Como quem já viveu em ou visitou Macau sabe, o legado lusófono é muito maior que a língua portuguesa. Basta sair à rua e observar – e não tanto escutar. Desde o Direito à arquitectura, passando pelo legado histórico e cultural, parte dele intangível. A própria especificidade e identidade da RAEM tem origem na sua face lusófona. A história não se apagará nunca, mesmo que a língua portuguesa desapareça gradualmente dos diálogos do quotidiano, como já aconteceu ao crioulo macaense.

- Na conferência, haverá também espaço para falar da Ásia, de um ponto de vista mais global?

R.M.P. – Com certeza. Organizaremos os painéis de acordo com as propostas de comunicações que recebermos, sendo obviamente o foco principal Macau e as suas relações com o resto do mundo, da Ásia às Américas. Desde que dentro do âmbito temático do evento, qualquer proposta científica relevante e inovadora será aceite.

- Já estão confirmados nomes fortes para este encontro de três dias? 

R.M.P. – A esta distância temporal do evento, prefiro não indicar qualquer nome, mas claro que sim, basta olhar para a extensa lista da comissão científica e de aconselhamento do congresso, que é internacional. Uma grande parte dos especialistas dos Estudos sobre Macau – de Macau aos EUA, passando por vários países europeus – já estão envolvidos no evento, garantindo a qualidade e a relevância académica do mesmo.

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