Já não há Querido Líder
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, morreu aos 69 anos de ataque cardíaco, anunciou ontem a imprensa oficial do país. Com a morte do ditador, que governou o regime mais fechado do mundo desde 1994 (ano da morte do pai, Kim Il-sung), perspectiva-se agora um período de incerteza em relação ao empobrecido país, que dispõe porém de armamento nuclear.
Sabe-se já que depois de Kim, virá Kim Jong-un, mas o isolamento em que vive a nação faz com que se torne difícil perceber até que ponto o poder dinástico permanecerá inalterado.
O Querido Líder morreu de “um grande cansaço físico e mental” às 8h30 da manhã do passado sábado, enquanto viajava de comboio, explicou ontem a agência oficial norte-coreana, a KCNA. O órgão de informação controlado pelo regime apelou à população que obedeça ao filho mais novo de Kim Jong-il, Kim Jong-un, que no último ano vinha a assumir maior poder dentro da hierarquia norte-coreana, apesar de não ser uma figura pública.
“Todos os membros do partido, homens do exército e população devem seguir fielmente a liderança do camarada Kim Jong-un, bem como proteger e fortalecer a frente unida do partido, dos militares e da população”, disse, por entre lágrimas, a apresentadora da estação pública de televisão que revelou a morte de Kim Jong-il.
Apesar de ter descrito a morte do Querido Líder como sendo causada por “cansaço”, a KCNA deu uma razão mais científica para o óbito: enfarte do miocárdio. A autópsia terá sido feita já neste domingo.
Recorde-se que Kim teve problema cardíacos em Agosto de 2008 que resultaram em dificuldades de locomoção, afectando o braço e a perna esquerdos. Os problemas de saúde do filho do fundador da Coreia do Norte terão estado na origem de uma maior rapidez para assegurar a sucessão do regime, a única dinastia comunista da história.
O funeral de Kim está já agendado – realiza-se a 28 deste mês, em Pyongyang – mas não serão convidadas quaisquer delegações estrangeiras para participar nas cerimónias, avisou a KCNA. Atendendo ao isolamento a que o regime se votou, a decisão não surpreende. Entretanto, foi decretado um período nacional de luto, que começou no dia 17 e termina a 29.
O filho e os outros
“Temos de nos agarrar à bandeira da política songun [os militares em primeiro lugar], aumentar 100 vezes o poder militar e defender firmemente o nosso sistema socialista e as conquistas da revolução”, escreveu ontem a KCNA.
A máquina da propaganda norte-coreana já entrou em acção para construir um culto de personalidade para Kim Jong-un, enquanto sucessor do pai, semelhante ao que foi feito aquando da primeira passagem de poder na Coreia do Norte, após a morte do fundador do regime, Kim Il-sung, o “eterno líder”.
No entanto, as circunstâncias são hoje diferentes, apesar de a KCNA ter ontem anunciado ao mundo que Kim Jong-un é o “grande sucessor” do pai. “Na vanguarda da revolução coreana encontra-se agora Kim Jong-un, grande sucessor da causa revolucionária do grande líder e chefe do nosso partido, do nosso exército e do nosso povo”, referia um despacho da agência oficial.
“A liderança de Kim Jong-un é uma garantia segura de que a causa revolucionária do grande líder, lançada por Kim Il-sung e conduzida à vitória por Kim Jong-il, perdurará por gerações”, acrescentava a nota.
O despacho da KCNA salientava que os norte-coreanos “têm de converter esta tristeza em valentia sob a liderança de Kim Jong-un e terão de lutar para que a grande revolução tenha êxito nestes momentos difíceis”. “O comando de Kim Jong-un é seguro e definitivo para cumprir a revolução e a brilhante sucessão”, concluía.
Há analistas políticos que duvidam que tal aconteça. No mês passado, membros do Governo sul-coreano diziam acreditar que haverá dificuldade nesta transferência directa de poder para o filho mais novo do Querido Líder.
A única irmã de Kim Jong-il, Kim Kyong-Hui, e o marido, Jang Song-Thaek, o número dois (informal) do país, deverão agir como mentores de Kim Jong-un e exercer o seu poder político através dele.
Citado pelo Telegraph, Mike Chinoy, ex-correspondente da CNN com 15 visitas à Coreia do Norte no passaporte, dizia não acreditar em grandes mudanças a curto prazo. “As questões mais profundas chegarão a longo prazo, na medida em que Kim Jong-un é muito novo, é bastante inexperiente, não se sabe muito acerca dele, pelo que há muitas questões sobre o que irá fazer”, apontou o autor de “Meltdown: The Inside Story of the North Korean Nuclear Crisis”. “Será capaz de consolidar o seu poder, será a figura de proa?”, lançou.
Para já, sabe-se que Kim Jong-un vai presidir ao funeral do pai. O jovem assume a liderança da comissão organizadora do funeral, mais um sinal, segundo a agência sul-coreana Yonhap, de que sucederá ao pai como o dirigente máximo do Estado comunista.
A KCNA divulgou que os restos mortais de Kim Jong-il serão depositados no Palácio Memorial de Kumsusan, que alberga o corpo embalsamado de Kim Il-sung. As pessoas que queiram prestar homenagem podem fazê-lo a partir de hoje e até ao dia 27. Já depois do funeral, haverá uma outra cerimónia: no dia 29 serão disparadas salvas de tiros e cumpridos três minutos de silêncio.
Ontem, os meios de comunicação norte-coreanos mostraram cenas de “pena indescritível” na sequência do anúncio da morte do Querido Líder. “Nem sequer estão a tentar limpar as lágrimas e estão a chorar convulsivamente com dor e desespero causado pela perda”, afirmou a KCNA, adiantando que toda a população está com uma “pena indescritível”.
Um vídeo da chinesa CCTV mostrava pessoas em Pyongyang a chorar e a tapar a cara. “Como posso expressar toda a pena … já não consigo falar”, afirmou um soldado antes de começar a chorar convulsivamente.
A televisão pública norte-coreana mostrou membros do partido a chorar, a bater nas mesas e a soluçar. “Não posso acreditar. Como pode ele ter ido assim? O que é suposto fazermos?”, perguntava um destroçado Kang Tae-ho. “Ele tentou com tanto esforço tornar as nossas vidas melhores e deixa-nos assim”, afirmou, por seu turno, Hong Sun-ok.
A televisão estava ontem a transmitir imagens de Kim Jong-Il a visitar bases militares, fábricas e outras instalações e a instar as pessoas a seguirem “o espírito do grande general”. Recorde-se que, aquando da morte de Kim Il-sung, os norte-coreanos dirigiram-se, entre tristeza sincera e medo de represálias, para junto milhares de estátuas do fundador do regime, onde durante dias choraram a sua morte.
O líder de um país com fome
Kim Jong-il assumiu o poder em 1994 – mas, ao contrário do que será o caso de Kim Jong-un, terá sido preparado durante anos para o cargo. Logo nos seus primeiros anos enquanto líder do regime, o país enfrentou aquela que se presume ser a mais grave crise alimentar da história da Coreia do Norte. O problema nunca foi resolvido – as Nações Unidas estimam que um terço das crianças sofre de malnutrição.
Não obstante, Kim foi capaz de encontrar recursos para desenvolver o programa de armamento nuclear que culminou em testes feitos em Outubro de 2006 e Maio de 2009. Acredita-se que o país terá reservas de plutónio suficientes para seis a oito armas deste tipo.
Nos últimos meses, foram vários os esforços diplomáticos para o reinício das conversações a seis (Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Japão e Rússia) com vista ao desarmamento do regime, negociações que Pyongyang abandonou em Abril de 2009. Na semana passada, o enviado norte-americano Robert King disse em Pequim que estava a ser ponderada uma nova ajuda alimentar oriunda de Washington. Especulava-se que norte-americanos e norte-coreanos tinham para esta semana uma reunião marcada com vista à retoma das conversações a seis.
Apesar de a comunidade internacional ter de Kim Jong-il uma imagem algo caricaturada (era um playboy excêntrico), o homem que agora morreu tinha fortes capacidades políticas, que lhe permitiram dominar com mão de ferro o país, sem admitir interferências externas. Impôs um regime brutal num país que vive há anos com fome e em declínio económico, e perpetuou o seu poder através da utilização de propaganda, campos de trabalho, um exército de grandes dimensões e um culto de personalidade que herdou do pai – e que domina o quotidiano dos norte-coreanos.
Nascido em 1942, Kim era também um dos mais secretos líderes mundiais: nos últimos dois anos visitou três vezes a China e deslocou-se também à Rússia, mas raramente saía da Coreia do Norte e, quando o fazia, só viajava de comboio.
A imprensa oficial norte-coreana descrevia-o como um homem de “infinita modéstia”: contudo, o dia do seu aniversário (16 de Fevereiro) era festejado como a “maior festa” do país. Desertores que trabalharam para o regime deram conta, nos últimos anos, das suas excentricidades, onde se incluía o gosto por bens alimentares de luxo, comprados sobretudo por enviados à Europa.
Kim Jong-il assumiu a direcção do Partido dos Trabalhadores Coreanos (Partido Comunista) em 1997, três anos após a morte do pai, coincidindo com o final do período tradicional de luto nas famílias coreanas.
O sucessor do “eterno presidente” norte-coreano era ainda “um grande teórico”, com uma obra em vários volumes que inclui um manual de jornalismo intitulado “Kim Jong-il, o Grande Mestre dos Jornalistas”, e um ensaio sobre cinema.
O lançamento do seu livro “O Socialismo é uma Ciência”, em Novembro de 1994, foi considerado pela imprensa local “um grande acontecimento na História da Humanidade”. “O nosso socialismo é o mais científico e viável”, sustentou na altura.
