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Uma história feita e por fazer

November 30, 2011

João Guedes, jornalista da TDM, tem sido das raras pessoas que em Macau tem investigado a história da Maçonaria local, com artigos publicados sobre a matéria.

- Como já demonstrou mais do que uma vez, a Maçonaria tem tradição em Macau. Essa tradição foi interrompida nas últimas décadas (desde 1910) ou a ideia resulta sobretudo da falta de informação?

João Guedes – A ideia resulta essencialmente de falta de informação. O que é natural, tendo em conta que tratamos de associações que, apesar de recusarem o epíteto de secretas, são muito, muito discretas. A Loja Luís de Camões II, de Macau, pertencente ao Grande Oriente Lusitano, abateu colunas uns anos mais tarde (bem mais tarde) do decreto de ilegalização da Maçonaria promulgado nos anos 30 em Lisboa pelo presidente Óscar de Fragoso Carmona [nota da redacção: Lei n.º 1901, de 21 de Maio de 1935, sendo que várias fontes afirmam que o próprio Carmona seria Maçom]. Em Macau a Loja continuou a funcionar até pelo menos 1947 e há quem diga que funcionou regularmente até 1949. Quando do decreto de ilegalização, o “Grande Oriente” ordenou a “triangulação”, ou seja os maçons passaram a reunir-se informalmente nas mais diversas tertúlias sob a capa de associações literárias culturais, etc. A célebre “Seara Nova” (cadinho de quantos intelectuais havia na capital), a Voz do Operário, o Clube Lisbonense (creio que já desaparecido) e muitos outros exemplos podem ser aventados. A ordem para “triangular” estendeu-se ao Ultramar. Em Portugal a ordem foi seguida imediatamente por razões óbvias, mas no Ultramar a triangulação sofreu processo mais lento. Em Macau a triangulação só se registou de facto bem depois da “Guerra do Pacífico” (1937-45). Durante o período da guerra coexistiram em Macau a Loja Luís de Camões (GOL) e pelo menos uma loja constituída por refugiados britânicos de Hong Kong pertencentes à “Grande Loja de Inglaterra”. Depois disso registou-se um hiato na actividade maçónica regular em Macau, ainda que os maçons se continuassem a encontrar regularmente. A actividade maçónica regular ressuscita após a revolução de 25 de Abril de 1974, data em que a “Loja Sino Lusitana” integrada no “Zetland Hall” de Hong Kong e pertencente à “Grande Loja de Inglaterra”, aproveitando a abertura proporcionada pela revolução portuguesa de Abril, retoma a tradição de reunir de seis em seis meses em Macau, num hotel da cidade. A “Loja Sino Lusitana” integra luso-descendentes de Hong Kong com raízes ancestrais em Macau. Por seu turno, o Grande Oriente Lusitano “reergue colunas” no território na segunda metade dos anos 80, mantendo actividade regular desde então numa Loja muito discreta, mas que possuirá mais de duas dezenas de maçons. Entre eles um número significativo de cidadãos chineses, além de portugueses, e de outras nacionalidades que se distribuem entre funcionários públicos, professores universitários, arquitectos, engenheiros, juristas, economistas, médicos, etc.

- As circunstâncias que rodeiam a Maçonaria em Macau e em Hong Kong são portanto diferentes. Sempre foram? E há alguma matriz histórica comum?

J.G. – A fundação de Hong Kong (1841) beneficiou de uma quantidade grande de funcionários civis de Macau que integraram o corpo do funcionalismo público de Hong Kong nos primórdios da sua fundação. Muita dessa gente fazia parte de lojas maçónicas portuguesas e inglesas de cuja história se perdeu o rasto. Ainda hoje o fazem e assumem-no sem rebuços. Os luso-descendentes ainda hoje dominam (ainda que em decrescendo), nomeadamente, o aparelho judicial de Hong Kong. Muitos deles foram deputados da antiga colónia britânica. Outros são arquitectos, médicos e advogados de responsabilidade na actual Região Administrativa de Hong Kong. Os que o são não rejeitam a sua filiação maçónica. Entre eles contam-se os Almada e Castro, Gomes, Osório, Lobo, Salles, etc. etc.

- Estudar a Maçonaria é mais difícil do que procurar noutras fontes/instituições, por causa do secretismo que a caracteriza?

J.G. – Sim e não. Enquanto a Maçonaria ligada à Grande Loja de Inglaterra é bem mais aberta (eu próprio consegui obter muito mais dados sobre esta nomeadamente na Internet), os Grandes Orientes são bastante mais fechados. Isto resulta de um simples facto: enquanto a Grande Loja de Inglaterra nasceu apadrinhada pelo Estado (um membro da família real britânica é sempre o grão mestre) os Grandes Orientes nasceram contra o Estado. Não esquecer que foi a Maçonaria continental (ou seja o Grande Oriente de França) que apadrinhou a Revolução Francesa de 1789. Actualmente, em Portugal, o “Grande Oriente Lusitano”, desde o grão mestrado de Eugénio Oliveira, parece estar numa senda de maior abertura. No entanto, não devemos esquecer que os trabalhos maçónicos rituais, tanto dos Grandes Orientes como das Grandes Lojas, continuam a ser absolutamente secretos e vedados a não maçons. Ninguém sabe, a não serem os iniciados, o que por lá se passa e o que decidem.

[mais informação sobre o assunto em http://aescadadejacob.blogspot.com/]

 

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