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Pelo espaço líquido

November 30, 2011

A ideia de dinamizar a zona de Sai Van é boa, dizem os arquitectos, mas é preciso ter em conta a qualidade e a dimensão das infra-estruturas. Acima de tudo, há que ter cuidado com o plano para o parque de estacionamento por cima do lago.

Inês Santinhos Gonçalves

O projecto do complexo turístico para a praça do Lago de Sai Van, que inclui um teatro ao ar livre, barcos-restaurante, zona comercial e um estacionamento sobre a superfície do lago, não é, à partida, mau, mas tudo depende de como as coisas forem feitas, alertam arquitectos.

Carlos Couto, autor do pavilhão de Portugal para a Expo 2010 em Xangai, defende que “tudo o que possa animar a cidade, em termos de lhe dar uma vida urbana mais rica, é sempre louvável, quer seja neste espaço, quer noutro qualquer”. No entanto, o arquitecto considera o plano para o parque de estacionamento “de vistas curtas”: “Se se vai dar um corte no lago, então que se faça com algum usufruto mais profícuo, nomeadamente um estacionamento vertical, para baixo e com mais lugares”.

O projecto em consulta pública até ao dia 21 do próximo mês tem planta disponível no site do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). O terreno que é proposto requalificar tem uma área de 2,25 hectares e está localizado na parte oeste da praça do lago Sai Van. A ideia de criar “um complexo turístico característico de Macau” inclui a criação de uma zona de restauração típica, uma rua de lembranças comerciais (está prevista uma fila de tendas ao longo da periferia do cais), uma praça de gastronomia (para venda de “petiscos característicos”) e um teatro ao ar livre, a sul do lote contíguo às margens do lago. Está prevista a concessão de “sete lojinhas” no local e a colocação de três barcos “para servirem de espaço à restauração e criarem uma zona típica”.

Mas a parte do projecto que menos agrada será mesmo o parque de estacionamento, um silo com capacidade para 120 viaturas. Segundo o IACM, “o parque de estacionamento será construído em altura sobre a superfície do lago, sem necessidade de aterro e não influenciará o movimento das águas”.

“Cento e vinte viaturas? É pouco”, reage Carlos Couto. O arquitecto lembra que quando decorre o Festival de Gastronomia “há uma enorme perturbação no trânsito”. “Ninguém tem estacionamento e anda tudo a estacionar à volta, de forma ilegal”, aponta. Couto, com formação em urbanismo, acredita que este cenário se vai repetir se ali forem instaladas infra-estruturas de turismo e lazer permanentes. “O único estacionamento é o da Torre de Macau, que não foi projectado para responder ao que se passa cá fora.”

Considera, assim, que o número de lugares previstos é “notoriamente insuficiente” e rejeita o plano de colocar o parque à superfície: “Tinha de se fazer uma coisa maior e debaixo do chão. Não é muito lógico que esta cidade, com a falta de espaço que tem, vá construir silos à superfície, porque a terra é escassa e aquele não é o sítio próprio para o fazer”.

A extensão do parque de estacionamento sobre parte do espelho de água preocupa também José Maneiras. “Há que ter cuidado em não diminuir a superfície do lago. Com a tentação de fazer mais coisas, às tantas [o lago] fica um tanquezinho”, alerta o arquitecto. “Os  dois lagos têm uma certa presença no contexto de Macau como cidade. Tentar dar mais vida diminuindo a superfície líquida é contraproducente”, acautela.

Espaço pouco público

Mais que um espaço de restauração, a zona do lago Sai Van devia oferecer maiores possibilidades de lazer, de usufruto do plano de água, defende Carlos Couto. “É uma pena termos aqueles lagos e não terem qualquer uso público”, critica. “Aliás, é uma filosofia nesta cidade. Em muitos espaços verdes não se pode pisar a relva, não se pode ter fontes onde o público se possa molhar. Enfim, tudo o que vemos noutras cidades aqui é proibido.”

O arquitecto confessa ter tido “uma experiência amarga” no que toca à forma como o urbanismo é encarado: “O Espaço Sintra, que projectei, tinha zonas de água onde as pessoas podiam brincar, mas mandaram tapar tudo com medo que os miúdos se afogassem ou se aleijassem, como se alguém de afogasse em 30 cm de água”.

Em relação aos lagos, Sai Van e Nam Van, Couto pede uma “utilização mais favorável”, como a possibilidade de utilizar barcos a remos ou fazer canoagem. “Toda a utilização dos lagos pressupõe um pedido, uma autorização, é complicadíssimo”, diz.

De volta ao complexo turístico para Sai Van, o arquitecto usa o Festival de Gastronomia como exemplo do que pode correr mal se o projecto não for executado de forma responsável. “É notório que aquele espaço, quando foi criado, não foi programado para receber este tipo de eventos.” Carlos Couto exemplifica: “Uma feira gastronómica precisa de algumas coisas que aquilo não tem, como esgotos, água. As pessoas não têm condições para cozinhar, nem condições sanitárias.”

Até para eventos temporários são necessários “suportes físicos para que as infra-estruturas possam funcionar”, defende. “Pelo que percebi, a ideia é transpor todo esse tipo de infra-estruturas, que funcionarão como restauração, para uma parte mais junto ao lago”, clarifica o arquitecto.

“Aquele espaço, neste momento, funciona sem condições para suportar eventos desta natureza. Se se resolver isso, então muito bem”, remata.

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