Criatividade limitada
Rendas excessivamente altas, falta de formação e dificuldade de financiamento são os principais obstáculos das indústrias culturais e criativas de Macau. Para o sector descolar, é preciso apoio do Governo, defendem os especialistas.
Inês Santinhos Gonçalves
As indústrias culturais e criativas (ICC) de Macau são inexperientes e não geram serviços ou produtos com qualidade para competir com as empresas estrangeiras. O que pode o Governo fazer para contrariar esta tendência? O seminário “Enquadramento legal para o financiamento das indústrias culturais e criativas: Perspectivas comparadas”, que começou ontem e se prolonga pela manhã de hoje no Centro Cultural de Macau, serve para apresentar sugestões.
Henry Lei, professor de Economia na Universidade de Macau (UMAC) e especialista em Estudos Europeus, foi um dos oradores de ontem, juntamente com José Luís de Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM) e do Centro de Indústrias Criativas. Apesar de reconhecer que o Governo já tomou passos que podem beneficiar esta área – durante as Linhas de Acção Governativa foi anunciado um aumento do plano de apoio às pequenas e médias empresas de 500 mil para 600 mil patacas – Lei salienta a importância de políticas “feitas à medida” das ICC. “O Governo de Macau podia fazer muito mais nesta época de abundância financeira, neste período económico dourado”, refere o investigador da UMAC.
Um dos problemas principais prende-se com a dificuldade que este tipo de empresa ou projecto tem em obter financiamento, raramente conseguindo empréstimos bancários. No que toca ao financiamento público, seria importante estabelecer regras específicas para este sector, defende o académico. “São necessárias directrizes específicas para as ICC em termos de avaliação de risco, para que determinados projectos consigam obter financiamento.” Lei ressalva que a ideia não é “gastar o dinheiro dos contribuintes para encorajar actividades não comercializáveis”, mas insiste que o apoio deveria ser mais alargado.
Intervir ao nível da atribuição de espaços para desenvolver as ICC está também na lista de sugestões: “As infra-estruturas são muito importantes, continuam a ser um desafio para as ICC porque as rendas são extremamente altas”.
Além das questões financeiras, Lei chama a atenção para a importância de investir na formação, criando, por exemplo, uma escola superior de artes. Gerar, na comunidade local, mais procura por produtos das ICC, através de medidas como cupões de desconto para funcionários públicos, é outra das sugestões deixadas pelo especialista em Economia.
A organização de festivais e atribuição de subsídios a eventos culturais já está a decorrer, mas podia ser mais incentivada, defende o investigador do IEEM. O Governo devia ser “um cliente maior e melhor”.
Se o sector público pode ser mais proteccionista e preferir empresas locais quando recorre a serviços ou produtos das ICC, não é de esperar a mesma atitude dos casinos, alerta Henry Lei: “Não acho que discriminem as empresas locais, mas negócios são negócios. Se há empresas estrangeiras melhores, claro que não vão arriscar”.
A atribuição de bolsas para o lançamento de novos projectos, já defendida por Sales Marques, é outro ponto que Lei salienta. “Claro que o Governo terá de estabelecer regras e condições de modo a que o processo de candidatura a estas bolsas seja o mais transparente possível”, esclarece. O objectivo “não é modelar as ICC numa direcção específica”, mas orientá-las de modo a que possam “corresponder aos requisitos necessários”.
Para quando, então, se podem esperar estas políticas? Henry Lei acredita que para breve, mas que “talvez seja preciso mais discussão”. Sales Marques não avança datas, mas salienta que “há uma certa urgência”. “Não obstante o apoio que já é dado às indústrias criativas, as coisas não estão a andar muito bem, não estão a andar com eficiência”, aponta.
O economista deixa claro que a ideia é incentivar o empreendedorismo e a iniciativa privada, mas que no contexto actual não é possível fazê-lo sem interferência do Executivo: “Não é que as empresas de Macau devam passar a vida a bater à porta do Governo. O ideal seria que fossem auto-sustentáveis. Mas há aqui um chamado ‘market failure’, o mercado não responde e há que suprir essa falha com política pública”.
