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A ameaça da formiga branca

November 29, 2011

Os moradores do antigo posto dos Correios que o Instituto Cultural quer converter em biblioteca estão contra as obras em curso no edifício. Dizem que é preciso recuperar o prédio todo e que, assim, se está a deitar dinheiro ao lixo.

Stephanie Lai

Está a criar polémica junto dos proprietários das fracções residenciais, que consideram que o Governo poderá estar a gastar erário público em vão, ao converter parte do antigo posto dos Correios numa biblioteca. Dizem que o prédio precisa todo ele de obras e que está infestado de formiga branca. Defendem a necessidade de obras gerais numa petição que vão entregar hoje na sede do Executivo.

O rés-do-chão do edifício em questão – no cruzamento da Avenida do Ouvidor Arriaga com a Avenida do Almirante Lacerda – está em obras, para acolher um espaço de leitura público, no âmbito do projecto do Instituto Cultural (IC) de levar bibliotecas aos chamados bairros antigos da cidade.

O prédio serviu de residência a funcionários dos Correios, com o rés-do-chão a ter funcionado como posto daqueles serviços. Devido a problemas com infiltrações, o atendimento ao público acabou por ser transferido para o outro lado da rua.

O edifício, construído no final dos anos 1970, tem ao todo 20 fracções, com 17 duplex vendidos aos antigos funcionários dos Correios na década de 1980. Depois, há dois espaços comerciais no rés-do-chão, bem como um apartamento no primeiro andar, ainda propriedade da Direcção dos Serviços de Correios (DSC), que ocupam cerca de 23 por cento da área bruta do edifício.

Em Dezembro de 2009, o Instituto Cultural pediu informações sobre o prédio e explicou que gostaria de ali instalar serviços destinados à comunidade, referiu a DSC ao PONTO FINAL. Depois de ter examinado a estrutura do rés-do-chão e a área comum na zona residencial do edifício, o IC decidiu avançar para a conversão do espaço em biblioteca, tendo-se dado início ao processo de arrendamento. O valor a pagar pelos mais de dois mil metros quadrados, aditaram os Correios, tem como referência os preços praticados pelas lojas nas imediações. Se o plano se concretizar, a biblioteca deve abrir portas em Junho do próximo ano.

As obras já começaram – foram ontem suspensas depois de o IC ter pedido as empreiteiros que removessem objectos que se encontram no espaço. De acordo com o Instituto Cultural, a interrupção dos trabalhos tem que ver com a insistência dos proprietários de que o edifício não tem condições para acolher uma biblioteca pública, mas em termos gerais o plano “não foi muito afectado”.

Leng Leong Ching, o representante dos proprietários e ex-funcionário dos Correios, abriu as portas interior do edifício para mostrar o “estado de degradação” no interior: as madeiras encontram-se destruídas, são visíveis manchas de humidade e ninhos de formiga branca. Os apartamentos começaram a ficar infestados há dois anos, refere Leng, que assegura que as equipas de desinfestação chamadas ao local disseram que o problema é irreversível. Já as infiltrações começaram nos anos 1980, tendo levado à transferência do posto de Correios. Durante os últimos seis anos, a situação agravou-se.

O edifício continua a estar habitado – neste momento, são apenas sete os apartamentos ocupados, maioritariamente por idosos que, segundo Leng Leong Ching, não têm possibilidade de arrendar casas com melhores condições.

Os moradores dizem ter sido apanhados de surpresa pela notícia da instalação de uma biblioteca, uma vez que há alguns meses, vinca Leng, os proprietários criaram uma comissão para levar a cabo a reconstrução do edifício. “A maioria está disposta a pagar as obras do próprio bolso. Julgo que a construção da biblioteca deve parar porque as actuais condições parecem não ser favoráveis ao projecto. Continuar com as obras é, para nós, um desperdício de erário público.”

Os Serviços de Correios asseguram ter uma “atitude aberta” e garantem não se opor a que os proprietários defendam os seus interesses. Manifestando o desejo de que moradores e Governo cheguem a um consenso em relação à possibilidade de utilização do edifício para a biblioteca pública projectada, a DSC vai organizar uma reunião com os residentes no início do próximo mês. “Se todos os membros da comissão de proprietários concordarem com uma reconstrução completa do edifício, os Correios vão apoiar os trabalhos”, garante a direcção de serviços.

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