São poucos e difíceis de vender
Stephanie Lai
Há pouca literatura portuguesa traduzida em chinês à venda em Macau. Os livros não são fáceis de encontrar, a lista de autores é curta e as vendas reduzidas. Uma das explicações deve-se à falta de tradutores especializados. O número de publicações literárias tem vindo a diminuir desde a transferência de administração, já que os esforços com as traduções têm sido sobretudo feitos para obras em áreas como política e economia.
A maioria dos exemplares traduzidos em chinês pode ser encontrada no segundo andar do Vicky Plaza, onde se vendem publicações do Governo. Na prateleira da literatura há títulos portugueses como “Memorial do Convento”, de José Saramago, “Requiem por Irina Ostrakoff”, de Rodrigo Leal de Carvalho, “A Queda de um Anjo”, de Camilo Castelo Branco, “A Trança Feiticeira”, de Henrique de Senna Fernandes, e colectâneas de poemas de Sophia de Mello Breyner Andersen.
Os principais responsáveis pela publicação das obras em português têm sido o Instituto Cultural, a Fundação Macau e o Instituto Português do Oriente. Algumas edições contam com a colaboração de editoras do Continente, como a Editora Montanha das Flores, a Editora de Hainan e a Editora San Huan.
Apesar de raros, os livros não são caros – os preços variam entre as 40 e as 100 patacas. Ainda assim, são muito menos populares que as publicações dedicadas ao sistema legal da RAEM, às ciências sociais e à economia, explica ao PONTO FINAL a empregada da livraria, Lei.
São na maioria estudantes locais e do Continente, académicos ou turistas de Hong Kong que entram na loja à procura dos exemplares. No entanto, Lei diz que os clientes são raros.
A funcionária, que há muitos anos trabalha no ramo das publicações, refere que as vendas são más e é difícil convencer uma editora privada a apostar em literatura. “No caso da literatura portuguesa traduzida em chinês, o máximo de cópias por livro que conseguimos negociar são 500”, conta Lei. “Aliás, é bastante difícil vender os 500 livros e fazer lucro é quase impossível”, acrescenta.
Catarina Fong, responsável pela tradução de “Confluências”, de Jorge Arrimar e Manuel Yao, explica que muitos dos tradutores disponíveis são amadores. Os poucos profissionais tendem a vir do Continente, conta Fong.
“Depois da transição, quando a língua chinesa assumiu uma posição oficial, os profissionais sino-portugueses não eram suficientes, principalmente nas áreas do direito e economia”, explica Fong. “A maioria dos talentos bilingues foi atraída para esses campos e poucos se decidiram pelo campo da literatura”, lamenta a tradutora.
Apesar de o trabalho dos autores portugueses ser pouco conhecido na China, a literatura e história lusas têm sido alvo de estudo por parte de académicos. Em Macau, defende a tradutora, após a transferência de administração, a política cultural tem sido mais orientada para a herança chinesa. “Como plataforma sino-ocidental a longo prazo, Macau devia fazer mais para promover a literatura portuguesa”, avisa Catarina Fong.
