Las Vegas já era
“Macau tem estado imune à crise porque, enquanto todos estes jogadores continuarem a vir da China, o resto do mundo não interessa”, afirmou ontem o cônsul-geral dos Estados Unidos para a RAEM e Hong Kong. Stephen Young fala de uma Las Vegas ciumenta das receitas dos casinos da RAEM, mas destaca as “boas relações” com o Executivo de Chui Sai On.
Em declarações aos jornalistas à margem de uma cerimónia de homenagem a diplomatas americanos que passaram pelo território e cujos restos mortais estão no cemitério protestante de Macau, Stephen Young referiu o bom momento económico da região. “Macau parece estar imune à crise económica. Estão a fazer mais dinheiro no jogo do que nunca, e a taxa de desemprego de três por cento é miraculosamente baixa”, observou.
Dados oficiais divulgados ontem indicam que a taxa de desemprego se manteve nos 2,6 por cento no terceiro trimestre, com uma população activa estimada em 344 mil pessoas, das quais 335 mil estavam empregadas – mais 300 pessoas do que entre Junho e Agosto.
Stephen Young comentou ainda que Las Vegas ficou “ciumenta” depois de ter sido ultrapassada por Macau enquanto capital mundial do jogo. “Mas, por outro lado, a Sands, MGM Grand e Wynn são todas elas empresas sediadas em Las Vegas, portanto estamos satisfeitos que estejam a ter sucesso aqui face ao arrefecimento do mercado”, adiantou.
Confiante na recuperação dos casinos de Las Vegas, assim como na economia dos Estados Unidos de uma forma geral, o cônsul americano para Hong Kong e Macau não tem dúvidas de que “Las Vegas não vai conseguir acompanhar o passo de Macau nos próximos tempos”.
Sem esconder que “os Estados Unidos estão envolvidos no desenvolvimento económico da Ásia” em virtude dos “muitos interesses” na RAEM, Stephen Young enalteceu a relação de proximidade com os investidores americanos no território. “Estamos contentes que as coisas estejam a correr bem e mantemos uma relação muito próxima com os investidores americanos e com a Câmara de Comércio Americana em Macau, e também com o Governo”, acrescentou.
Em contraposição, o cônsul norte-americano diz que “Hong Kong não está mal”, mas diz perceber as preocupações do Governo da região vizinha com a estabilidade da economia dos Estados Unidos, face à indexação do dólar da RAEHK à divisa americana. “Sempre que falo com o Chefe do Executivo [Donald] Tsang e com o secretário das Finanças, [John Tsang], eles estão sempre preocupados com a estabilidade da economia americana, e agora também da economia europeia”, referiu.
Em resposta, Stephen Young disse que “tanto o presidente Obama como o Senado e Câmara dos Representantes estão a trabalhar arduamente” para arrumar a casa nos Estados Unidos, mantendo várias frentes de combate em simultâneo, desde o défice orçamental, ao desemprego, e mercado de venda de casas. “Sabemos que grande parte do mundo depende de um dólar americano forte e de uma economia americana viável. Fazemo-lo por nós próprios, mas também reconhecemos que é uma importante obrigação internacional”, salientou.
Wikileaks sem efeito
O cônsul-geral norte-americano para Hong Kong e Macau disse ontem que as revelações do Wikileaks sobre a alegada preferência dos Estados Unidos por outro Chefe do Executivo em Macau que não o actual “não afectaram as relações” dos dois governos.
“Não considero que isso tenha afectado as nossas relações com o Governo de Macau e espero que isso não venha a acontecer”, afirmou Stephen Young, que destacou a proximidade entre os Estados Unidos e a Administração local. “Nós temos uma boa relação com o Chefe do Executivo de Macau, Chui Sai On, e com o seu Governo e, como puderam, ver estiveram aqui [na cerimónia] vários membros do Governo”, acrescentou.
O titular da representação diplomática americana para as duas regiões administrativas especiais da China revelou ainda que a economia e, em particular, a indústria do jogo, são temas recorrentes nas conversas bilaterais. “Temos falado do crescimento da indústria do jogo e dos esforços para diversificar a economia aqui, e dos planos para desenvolver na Ilha da Montanha. E nós, Estados Unidos, consideramo-nos um bom parceiro do Governo de Macau”, indicou.
Dando por encerrado o assunto Wikileaks, Stephen Young lembrou a ligação do chefe do executivo de Macau ao seu país: “Ele [Chui Sai On] tirou o seu doutoramento em Oklahoma e nós estamos muito orgulhosos disso”. Recorde-se que em Agosto deste ano, a Wikileaks revelou um relatório confidencial de 18 de Março de 2009, enviado para a Casa Branca pelo então cônsul-geral dos Estados Unidos para Hong Kong e Macau, Joe Donovan, com considerações sobre a eleição do Chefe do Executivo da RAEM e o papel de Pequim no processo.
No documento, Donovan relatava que o caso Ao Man Long – secretário dos Transportes e Obras Públicas do primeiro chefe do Executivo de Macau, Edmund Ho – preso por corrupção, enfraquecia a candidatura de Chui Sai On e que o procurador da RAEM, Ho Chio Meng, era visto por algumas figuras do Governo Central como “o homem ideal” para acabar com a corrupção no território.
Além da preferência por outro Chefe do Executivo, os telegramas diplomáticos norte-americanos sobre Macau, interceptados pela Wikileaks, revelaram ainda informações sobre os investidores americanos no jogo na RAEM.
