“O pior vai ser a seguir”
Já há falta de água e de alimentos, e acredita-se agora que as cheias vão atingir toda a cidade. Quem permanece em Banguecoque começa a entrar em desespero. As cheias não são um problema com fim à vista, receia Thais Pinheiro da Silva, ex-residente de Macau.
Isabel Castro
Os alimentos e a água em Banguecoque começaram a ser racionados, e muitas prateleiras de supermercados e lojas de conveniência estão já vazias. Fazem-se filas à porta dos estabelecimentos comerciais que ainda permanecem abertos, à espera que os fornecedores cheguem. A situação na capital da Tailândia está a ficar complicada para quem lá vive.
O Governo decretou cinco dias de feriado na esperança que a população abandone a capital para zonas mais seguras, evitando deste modo que o número de óbitos aumente – as cheias fizeram mais de 370 vítimas mortais no país. Mas em Banguecoque vivem 11 mil pessoas – e muitas delas não podem simplesmente abandonar o local onde vivem.
É, para já, o caso de Thais Pinheiro da Silva, brasileira ex-residente de Macau a viver na capital tailandesa desde Junho do ano passado. Casada com o português Gil Maia Santos, têm ambos cargos de responsabilidade nos locais onde trabalham. Por enquanto, diz Thais, “temos de ficar”.
“Supostamente as cheias não iam chegar ao centro de Banguecoque, mas agora já deram o alerta de que vai ser tudo inundado”, contou ao PONTO FINAL. “Nos lugares piores, a água chega aos dois metros, aqui no centro deverá andar entre os 30 a 50 centímetros.” Thais explica que as autoridades tentam a todo o custo evitar que a água atinja o centro, “porque em aqui estando, ficará parada durante uns dias”, devido à topografia da urbe. “Mas dizem que vão ter de escoar para este lado, para que a água possa chegar ao mar.”
Por enquanto, à porta de casa o chão continua seco, uma vez que vive perto da Silom. Mas já está a sentir os efeitos das cheias – as mais graves dos últimos 50 anos. “O pior é a água e a comida. A água está racionada, nenhum fornecedor de Banguecoque tem água para vender.”
Ontem, a brasileira conseguiu ainda comprar “sete garrafas das pequenas” numa loja de conveniência perto de casa, mas já a custo. “Não queriam deixar-me trazer todas, só duas ou três. Mas eu tenho uma criança”, desabafa. As agências internacionais de notícias dão conta de supermercados onde os consumidores não podem comprar mais do que uma caixa de ovos e um saco de arroz. Até o papel higiénico começa a ser racionado.
Na despensa e no frigorífico de Thais Pinheiro da Silva, há para já alimentos – sobretudo secos – que chegam para as necessidades. Os supermercados ainda têm alguns bens frescos, mas cada vez em menor quantidade, “porque dos quatro mercados que fornecem Banguecoque, três já não o estão fazendo”.
Tanto Thais como o marido têm acesso directo a fornecedores, por trabalharem em hotelaria e restauração. “Eles mesmo nos dizem que não há água, refrigerantes, cerveja – não há nada que seja líquido. O pessoal está desesperado com medo de ficar sem nada”, relata. “Estão a aconselhar ferver água, para deixar em stock. Nos lugares onde a enchente chegou já cortaram a energia. Se me cortarem a energia… aqui em casa é tudo eléctrico, não tenho nada a gás.”
Água a mais, falta de água
O restaurante pelo qual Thais é responsável encerrou durante uma semana – e poderá ficar mais tempo de portas fechadas se as cheias causarem estragos maiores do que os previstos. “Alguns dos empregados moram em casas de dois andares em que o primeiro está cheio de água, estão presos no segundo piso. Estão sem energia eléctrica e sem poderem sair, porque não há barcos.” Os preços dispararam: “No mercado flutuante, o barco custava mais ou menos dois mil baths, agora está custando entre oito mil a dez mil, ninguém consegue comprar. Um saco de areia começou a 70 baths, agora está a mais de 200 e já é difícil encontrar.”
O hotel onde trabalha Gil Maia Santos continua em funcionamento – com poucos funcionários e hóspedes, que “Banguecoque é uma cidade deserta”. Conta Thais Pinheiro da Silva que a unidade hoteleira onde o marido trabalha costuma estar cheia no mês de Novembro, mas este ano os cancelamentos fazem com que no próximo mês a casa esteja vazia. Turistas e estrangeiros a residir na cidade que tinham possibilidade de ir embora já fizeram as malas.
“O aeroporto doméstico já está cheio de água, mas ainda estão a conseguir contê-la no aeroporto internacional. Mas não vão conseguir por muito mais tempo”, diz. “Não quero abandonar o barco, mas se acabar a energia em todo o lado vou tentar sair de Banguecoque, ou do país”, admite Thais.
Para já, a situação ainda é suportável. “O problema vai ser depois da enchente. O pior vai ser a seguir o lixo todo que vem com as cheias”, avisa. “A água já está a vir toda contaminada cá para o centro”, diz a ex-residente de Macau, explicando que as autoridades já pediram à população que ferva a água que consome para se tentar evitar epidemias. Nalgumas áreas de Banguecoque, os residentes queixam-se que a água canalizada perdeu qualidade – os responsáveis pela matéria admitiram que houve infiltrações com as cheias, que arrastam todo o tipo de lixo e até animais. “Há pessoas a morrer com picadas de cobras que a água traz”, refere a brasileira.
Recordando que são muitas as vítimas mortais destas cheias, Thais Pinheiro da Silva faz referência à devastação de várias províncias para dizer que será difícil uma recuperação do país em breve. “Perderam-se muitas explorações e plantações de arroz. Não vai ser nada fácil.”
