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“Macau não é uma cidade muito aberta”

October 24, 2011

Kato Yoshikazu, conhecido formador de opinião em Pequim, entende que Macau tem um ambiente político conservador e defende maior abertura aos estrangeiros. Diz ainda que passos a China deve dar para ser democrática.

Stephanie Lai

É pouco provável que haja mudanças no sistema eleitoral de Macau. A previsão é feita por Kato Yoshikazu, que aos 27 anos é já um famoso comentador político em Pequim, com várias colunas de opinião na imprensa chinesa e no jornal Financial Times. O académico, que deu ontem uma palestra na escola secundária Hou Kong, diz que o território tem um ambiente conservador e aconselha maior abertura aos profissionais estrangeiros se a ideia é transformar a RAEM num centro internacional de turismo e lazer.

“A minha primeira impressão é que Macau não é uma cidade muito aberta”, afirma Kato Yoshikazu. O analista destaca que por cá há uma consciência cívica “mais madura” do que no Continente, mas não antecipa alterações de fundo no actual regime. “Parece-me difícil que haja mudanças na estrutura política porque isso iria envolver os actuais beneficiários do sistema, que são muitos”, argumenta. Kato Yoshikazu admite, porém, que precisa de mais trabalho de campo para confirmar a teoria.

O ‘opinion maker’ comenta ainda o projecto, definido pelo Conselho de Estado, de afirmação de Macau como centro mundial de turismo: o plano é “adequado” dada a pequena escala do território, mas faltará uma postura mais liberal em relação à importação de mão-de-obra para que o objectivo seja cumprido. “Os estrangeiros que se tornam residentes não permanentes têm de esperar alguns anos antes de conseguir obter o bilhete de identidade de residente permanente”, refere Kato Yoshikazu. “Sob que condições é que alguém estará disposto a vir? Penso que Macau pode ser mais aberto em relação a esta questão e utilizar melhor os profissionais e o capital estrangeiros”, defende.

As universidades locais, continua, devem também promover-se como uma “plataforma global” para atrair alunos do exterior, a quem deverá ser dada a oportunidade de trabalhar no território. “Com tanto dinheiro, julgo ser possível que Macau tenha uma universidade virada para os estudantes estrangeiros, que dê bolsas e alojamento. Estes estudantes podem depois ficar cá, formar uma voz local e pensar a partir da perspectiva de Macau”, sugere. A proposta é também feita pelos deputados ligados ao sector empresarial.

Kato Yoshikazu defende ainda que o Continente terá de caminhar rumo a “valores universais” como a independência do sistema judiciário, os direitos humanos e a democracia – mas sublinha que “continua a ser uma incerteza” quando (e como) é que o sistema ‘um homem, um voto’ pode chegar ao país. “Francamente, não sei. Mas acredito que será através desta trilogia: primeiro, a concretização de um sistema judicial onde um dirigente é acusado se cometer um crime; segundo, garantia da liberdade de imprensa para que os media possam fiscalizar os juízes e a sociedade; e, por fim, a realização de eleições directas”, desenvolve. “Claro que não estou a falar da eleição por sufrágio universal do Presidente. Mas podemos experimentar com os membros dos comités permanentes ou da Assembleia Popular Nacional”, ressalva.

O analista diz ainda que a chave para a democracia é a interacção entre a Administração e os cidadãos. “Acredito que se houver mais pressão da opinião pública o Governo será mais pro-activo na distribuição do poder e dará mais atenção à sociedade”, diz Kato Yoshikazu, que destaca que o uso popular dos microblogues é um sinal de uma maior consciência cívica.

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