Design experimental viaja até Gwangju
Oito projectos de Macau viajam esta sexta-feira até à Coreia do Sul para lá mostrar o que por cá se faz no que toca ao design. Há objectos com aplicação prática e outros nem tanto, de índole académica.
Almofadas de cimento, bicicletas de bambu, um banco que se dobra e pendura na parede. Estas são algumas das peças que Macau vai levar para Gwangju, na Coreia do Sul, onde a partir de sexta-feira se realiza a 4ª Bienal de Design de Gwangju, que tem este ano Ai Weiwei como um dos directores artísticos.
Macau vai estar representado numa parte específica da bienal chamada City Communities, que tem como objectivo promover “design que desafie a tradicional noção de comunidade”. Nesta secção do certame vão estar também representadas Sidney, Telavive, Medellín e Joanesburgo.
Manuel Correia da Silva, designer e co-fundador da empresa LinesLab, que desenvolve projectos relacionados com moda e design, explica que a ideia do City Communities é “ganhar uma visão do que de mais contemporâneo se anda a passar nestas cidades, que não são muito conhecidas na área do design”. A LinesLab foi convidada para escolher os designers e instituições. “Foi um convite à última da hora e fizemos uma abordagem muito pessoal daquilo que sabíamos que estava a acontecer em Macau.”
Uma das artistas de Macau presentes na bienal é Cindy Ng que, Correia da Silva explica, “é mais uma artista plástica que uma designer”. Ng é a autora de um grupo de placas de cerâmica que tingiu com tinta-da-china. “Isto não tem necessariamente que ver com Macau, tem que ver com a cultura chinesa. É uma abordagem mais poética e nada utilitária, mas que para nós é um óptimo exemplo de design.”
O arquitecto Nuno Soares está representado através de um banco que o próprio desenhou como parte integrante da sua linha de mobília ConstrAction. “Dele escolhemos um banco com uma história muito ligada a Macau, aos materiais que cá se usam na construção”, conta Correia da Silva. Nuno Soares, que já levou as suas peças a Milão, Turquia, Berlim e Lisboa, clarifica que o banco escolhido se chama “foldable stool” (banco desdobrável) porque “quando está em uso está montado e quando já não se precisa dobra-se e arruma-se na parede”. Isto é possível porque a estrutura é feita com tubos de canalização.
A peça a ser apresentada na bienal é ‘gémea’ de uma anterior, em que Nuno Soares utilizou como tampo uma tábua de cozinha das que em Macau se usam para cortar peixe – este era o cutting stool (banco de cortar). Na nova peça, Soares mantém essa relação com Macau, mas através dos materiais de construção – é nisto, aliás, que se baseia a sua linha. “Gosto de fazer uma aplicação diferente dos materiais. Tiro-os do contexto do estaleiro, da construção civil, e aplico-os no design de interiores”, refere o arquitecto. A confragem (uma espécie de contraplacado), por exemplo, é um dos materiais favoritos, por ser de boa qualidade e versátil, apesar de tradicionalmente só ser utilizado na construção em Macau.
O curso de Design da Universidade de São José também vai estar representado em Gwangju, através da aluna Cíntia Leite, que desenvolveu uma bicicleta eléctrica toda feita em bambu. “É um protótipo que representa um lado mais académico, de investigação sobre o design, que pensa a cidade como um sítio onde se tem de ter uma atitude sustentável”, diz Correia da Silva.
A LinesLab também vai apresentar peças suas. Será, aliás, a primeira vez que dão a conhecer a Super Heavy Light Collection, uma linha de bancos de rua que brinca com as percepções de pesado e leve. “O que fizemos foi: pegámos em malas e enchemo-las de cimento. Deixámo-las secar, tirámos o tecido e ficaram umas almofadas. São objectos pesados mas aparentam ser leves”, explicou o designer. Apesar de os bancos estarem ser mostrados pela primeira vez na Coreia do Sul, é em Macau que a LinesLab os quer disponibilizar ao público.
Aliás, não são só os bancos-almofada que Correia da Silva gostava de ver em Macau, mas todas as peças levadas à bienal. “A ideia era que este projecto passasse por Macau. Além disso, acreditamos que esta exposição devia ser itinerante, devia ir a outras bienais, incluindo a Experimenta Design em Lisboa, ou a São Paulo, por exemplo.”
