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Fuga, gás ilegal, explosão

July 27, 2011

Tudo terá começado com uma fuga de gás num restaurante. As botijas armazenadas irregularmente no estabelecimento de comidas fizeram o resto: 13 feridos, electricidade e telecomunicações cortadas, e um caos imenso.

Stephanie Lai

A explosão foi tão forte que até as portas de vidro do Casino Golden Dragon, a uma distância considerável, se estilhaçaram. O mesmo aconteceu às janelas de um autocarro que passava ali perto. Uma fuga de gás – provocada por um tubo em mau estado – terá estado na origem do incidente, avançava ontem o Corpo de Bombeiros, depois de terem sido encontrados no local da explosão indícios que levaram a esta conclusão.

A explosão aconteceu logo pela manhã – passavam dois minutos das 7h – na cozinha de um estabelecimento de comidas no rés-do-chão do Centro Internacional, na Rua de Malaca. A ocorrência na torre nº 9 causou 13 feridos: em nota à imprensa, o gabinete do porta-voz do Governo deu conta de que, ao final do dia, apenas uma pessoa permanecia internada.

Trata-se de um homem de Hong Kong, de 48 anos, que ficou em observação no Centro Hospitalar Conde de São Januário devido a fracturas nas costelas e nos ossos de um pé. O ferido foi encontrado pelos bombeiros no meio dos destroços.

Para o hospital chegaram a ir mais sete pessoas – todas elas tiveram alta depois de receberem tratamento aos ferimentos ligeiros provocados pelos vidros partidos e outros materiais que ficaram totalmente desfeitos com a força da explosão. As vítimas têm entre 41 e 65 anos: três são mulheres e de Macau, sendo que o acidente afectou também um casal da Coreia do Sul, um outro indivíduo de Hong Kong (além do que foi hospitalizado) e um homem da China Continental. Os restantes feridos não necessitaram de assistência hospitalar.

Segundo os números divulgados pelas autoridades, foram enviados para o local mais de 40 elementos das forças de segurança, que bloquearam algumas vias nas redondezas da zona danificada pela explosão, como as ruas de Malaca e Luís Gonzaga Gomes. A PSP viria a descartar, algumas horas depois do sucedido, a hipótese de o incidente ter sido causado por uma bomba.

No Centro Internacional estiveram 16 viaturas de emergência e pelo menos quatro dezenas de bombeiros. Mais tarde, a corporação deu conta do tubo encontrado no restaurante que terá estado na origem da fuga de gás. As botijas guardadas ilegalmente do espaço comercial ajudaram à multiplicação dos prejuízos.

Algumas horas depois do susto que marcou a manhã de ontem, o proprietário de uma loja de câmbio localizada nas torres de apartamentos junto ao Porto Exterior admitia continuar em estado de choque. Mas, à semelhança de outros comerciantes da área, contabilizava já os prejuízos – e pedia que a electricidade fosse reestabelecida o mais depressa possível.

Sem luz e sem telefones

Além dos danos em vidros e paredes, a explosão provocou um corte no abastecimento de energia eléctrica e nas telecomunicações – o impacto chegou ao terminal marítimo, que teve de recorrer a métodos manuais para poder continuar as suas operações. No Centro Internacional, um total de 153 apartamentos e unidades comerciais ficaram sem luz.

A Companhia de Electricidade de Macau (CEM) levou a cabo trabalhos de emergência no local mas, alegou a empresa, a extensão dos estragos não permitiu terminar ontem todos os trabalhos necessários. Ao final do dia, a CEM explicou que estava a assegurar o fornecimento de energia através de meios provisórios – os trabalhos definitivos devem ser concluídos já hoje.

Quanto às telecomunicações, cerca de três mil utentes de serviços móveis, Internet e linha fixa foram afectados. A Turbo Jet, empresa que opera no Terminal Marítimo do Porto Exterior, foi obrigada a recorrer à venda manual de bilhetes devido às falhas no sistema informático e suspendeu a reserva de viagens. As caixas ATM no terminal deixaram de funcionar.

Responsáveis da Capitania dos Portos, informou o Governo, activaram o mecanismo de emergência e estiveram reunidos com representantes da empresa responsável pela gestão do terminal marítimo e das companhias de navegação, “exigindo a tomada imediata de medidas para minimizar os inconvenientes para os residentes e visitantes”. O plano de emergência resultou, salientam as autoridades, pelo que os prejuízos foram “apenas ligeiros”.

A Turbo Jet só conseguiu voltar a dispor do sistema de telecomunicações às 20h, explicou um dos responsáveis da empresa, Rayman Yuen. “A empresa não sofreu consequências de maior”, assinalou. Com efeito, quem passou pelo jetfoil ontem à tarde não detectou uma movimentação anormal.

A Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM) tem um problema maior para resolver, uma vez que exactamente debaixo do restaurante onde aconteceu a explosão está instalada uma unidade essencial para as operações da empresa em todo o ZAPE. A inundação que se seguiu à explosão estava ontem a dificultar a tarefa de recuperação do sistema, pelo que a CTM deverá demorar três dias a concluir os trabalhos.

À segunda foi de vez

No restaurante onde tudo começou, os bombeiros encontraram 13 botijas de gás – uma quantidade muito superior à permitida por lei, que não admite mais de quatro unidades no mesmo espaço. Além disso, os tubos de ligação das botijas não correspondiam aos padrões definidos em Macau.

Não se trata da primeira vez que a loja infringe as normas de segurança: em Dezembro do ano passado, o estabelecimento de comidas foi multado pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) exactamente por, durante uma fiscalização, terem sido detectadas 11 botijas de gás no local. As multas para esta prevaricação variam entre as 15 mil e as 30 mil patacas.

Ontem à noite, numa conferência de imprensa que juntou uma dezena de directores de serviços e outros responsáveis de topo da estrutura administrativa de Macau, o presidente do IACM, Raymond Tam, prometeu que a inspecção aos estabelecimentos licenciados pelo organismo será reforçada. Mas Tam destacou que, “tendo em conta ao desenvolvimento da sociedade, o IACM está actualmente a debater com outros serviços a revisão das respectivas legislações”.

Também ontem à noite, o Chefe do Executivo, Chui Sai On, deslocou-se ao local do acidente. Em resposta aos jornalistas, o líder do Governo destacou o empenho das autoridades na resolução do caso, sendo que anunciou que serão levados a cabo vários “trabalhos de avaliação” para que se possam prevenir episódios semelhantes.

Destacando a existência de um ferido internado, em estado estável, Chui frisou que o mais importante, por ora, é “gerir as questões relacionadas com o incidente”. “O Governo vai investigar os motivos da explosão”, assinalou, insistindo na importância dos trabalhos de prevenção.

Estrutura do Centro Internacional sem perigo

A explosão da manhã de ontem não afectou a estrutura da torre onde aconteceu a fuga de gás, garantiram ontem as Obras Públicas, após uma inspecção preliminar ao local do acidente. Em comunicado, os serviços liderados por Jaime Carion referem que a parede em alvenaria e tijolo, bem como os vidros da loja, ficaram gravemente danificados, mas “não são partes que suportam a construção, pelo que este incidente não afectou a estrutura do edifício”. O impacto da explosão fez com que a fachada exterior do edifício tivesse ficado inclinada, razão pela qual as Obras Públicas vedaram o local. A DSSOPT já exigiu ao proprietário da fracção que proceda “quanto antes à remoção e limpeza destas partes, que não suportam a construção, bem como das componentes ornamentais com perigo de desabamento”.

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