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“Ainda não temos democracia”

July 19, 2011

O presidente da Associação dos São-tomenses e Amigos de São Tomé e Príncipe é duro na hora de avaliar os candidatos presidenciais do país. Os nomes que passaram à segunda volta não servem para António Costa.

Hélder Beja

A comunidade são-tomense na RAEM é pequena – terá à volta de 40 pessoas, entre estudantes, funcionários da Administração e do sector privado, e respectivos descendentes – mas tem no presidente da Associação dos São-tomenses e Amigos de São Tomé e Príncipe Macau-China uma voz que não se coíbe de criticar as eleições presidenciais do país. A primeira volta, no domingo, ditou que Pinto da Costa e Evaristo Carvalho discutam entre si, a 7 de Agosto, a liderança da pátria. Para António Costa, ambos são inapropriados para o cargo.

- Que interpretação faz dos resultados da primeira volta das Presidenciais?

António Costa – Os resultados mostram que o país está dividido. Normalmente há um candidato que recebe uma maior parte dos votos. Neste caso não é assim e há uma pequena parte para cada um. São tantos – e esse é outro elemento curioso destas Presidenciais, o facto de um país tão pequeno ter dez candidatos. Não é normal, não se vêem muitas coisas destas pelo mundo fora. Pessoalmente não apoio um ou outro candidato. Para mim são todos da mesma marca política. Não existe no programa de cada um – ou naquilo que disseram durante a campanha – grandes diferenças. Por isso qualquer um serve para fazer aquilo que tem vindo a fazer até agora, que é não dar mais atenção aos assuntos nacionais que aos pessoais. É assim que tem sido desde há 36 anos e qualquer um irá fazer exactamente a mesma coisa.

- Nota-se no seu discurso uma certa descrença em relação a este acto eleitoral e aos candidatos.

A.C. – Exactamente. Acho que nenhum deles tem perfil para o cargo mas sim para fazer o que se tem vindo a fazer até aqui, ou seja, falta de rigor, promiscuidade entre o público e o privado, interesse pessoal normalmente acima do interesse nacional e por aí fora. Não vejo em nenhum dos candidatos – ou pelo menos em termos de programa político que tentam passar para o eleitorado – qualquer visão capaz de fazer a diferença, quer em termos nacionais, quer em termos internacionais. Por isso acho que são todos iguais.

- Para quem está longe da realidade são-tomense, que retrato breve pode fazer de Pinto da Costa e Evaristo Carvalho? Quem são eles aos olhos do cidadão comum?

A.C. – Pinto da Costa é o ditador dos primeiros 15 anos da independência, é este o nome pelo qual as pessoas de São Tomé normalmente o chamam, por causa do [regime de] partido único durante esse período. Depois, há uma outra característica por que também é conhecido, que é a de ser preguiçoso. Ou seja, a partir do momento que deixou de ser Presidente da República, há 20 anos, não fez mais nada na vida se não escrever o tal livro que publicou há pouco tempo em Portugal e que se chama “Terra Firme”. Em termos daquilo que a população pensa e diz sobre esta figura, são estas duas situações. Em relação a Evaristo Carvalho, também já foi um homem de Pinto da Costa, teve cargos públicos no período do partido único, e neste momento é presidente da Assembleia Nacional e é apoiado pelo Governo do primeiro-ministro Patrice Trovoada. É um homem que tem a vivência quer do período de partido único, quer do período do multipartidarismo, que é onde estamos agora, e que já teve vários cargos ministeriais, que já foi primeiro-ministro, etc. Mas nada disto se traduz numa leitura deste indivíduo como alguém que conseguiu fazer a diferença. Para nós, Evaristo Carvalho é mais um como os outros.

- Usou a palavra multipartidarismo para descrever o sistema de São Tomé e Príncipe mas não usou a palavra democracia. É um sistema ainda a caminho de uma democracia madura, o sistema são-tomense?

A.C. – Falo no multipartidarismo porque de facto ainda não temos democracia. A ideia é óptima, mas como se pode falar de democracia quando o Presidente em exercício [Fradique de Menezes] é ao mesmo tempo presidente de um partido? Como se pode chamar democracia quando certos dirigentes políticos, mesmo sendo suspeitos e arguidos na justiça, continuam a ocupar cargos públicos? Existem vários exemplos – e não são meras teorias, são factos – que nos levam a perceber que o país democrático não passa de palavras. Só mais um exemplo: quando temos um país democrático existem partidos com ideologias muitas vezes opostas. Em São Tomé e Príncipe isso não existe. É muito difícil encontrar diferenças ideológicas entre partidos, porque elas são quase nulas.

- Que leitura faz ao boicote das eleições em lugares como Capela e Santa Catarina?

A.C. – Os boicotes no fundo traduzem um desabafo do povo. São localidades de São Tomé e Príncipe às quais, ao longo dos anos, estes mesmos dirigentes ou outros prometeram água, luz e outras coisas, e essas promessas não foram cumpridas. É uma manifestação de indignação da população, como forma de lhes dizer ‘meus senhores, já prometeram várias coisas e até agora não cumpriram. Vamos ter tentar com este gesto que nos oiçam’.

- Para si é possível votar a partir de Macau?

A.C. – Não. Pela primeira vez os são-tomenses na diáspora conseguiram votar, mas apenas em Gabão, Angola, Portugal e Guiné Equatorial. A Comissão Nacional de Eleições ainda não tem logística suficiente para alargar essa zona a mais eleitores.

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