“Fiz questão que Macau marcasse presença na cronologia”
Rogério Puga, que já ensinou na UMAC, é o responsável pela obra “Chronology of Portuguese Literature: 1128-2000”, prestes a ser editada no Reino Unido. O investigador fala de um trabalho megalómano que não deixou de fora o território.
Hélder Beja
Foi nas salas da Universidade de Macau (UMAC), enquanto dava aulas no departamento de História e falava de literatura, que Rogério Puga teve a certeza de querer avançar com o livro que agora se prepara para ser dado à estampa. “Chronology of Portuguese Literature: 1128-2000” tem o selo da Cambridge Scholars Publishing e é apresentado como a primeira cronologia da literatura portuguesa. Em entrevista, o investigador fala de como foi coser séculos de obras publicadas em catadupa e organizar o volume dedicado principalmente a alunos e investigadores que não têm o idioma de Camões como primeira língua. O território acabou por ter um papel importante.
- Por que decidiu fazer estar cronologia?
Rogério Puga – Quis fazer um elenco representativo das obras publicadas em Portugal e fora do país por autores portugueses – quer em português, quer em latim, quer noutras línguas europeias. Pretende ser um trabalho de referência na área dos estudos portugueses e lusófonos, sobretudo para estudiosos e alunos estrangeiros. É uma obra que está a ser publicada em Inglaterra, pela Cambridge Schollars Publishing, e pretende ser a primeira cronologia – porque não existia nenhuma – de literatura portuguesa, desde 1128 até 2000. Obviamente que não estão todos os autores nem todas as obras, porque era impossível e nunca mais acabava. Através dos títulos os leitores poderão aperceber-se de temáticas que são recorrentes na literatura portuguesa, poderão perceber quando é que a mulher ganha mais preponderância na literatura, poderão perceber variedades, rupturas e continuidades na literatura portuguesa ao longo dos séculos. Sendo nós o país mais antigo da Europa, era uma obra que se impunha.
- Durante os anos em que deu aulas em Macau (de 2007 a 2009) trabalhou neste projecto?
R.P. – Foram as minhas aulas na UMAC e os meus alunos que me levaram a acreditar neste projecto. Tinha desistido de publicar esta obra, porque é uma coisa hercúlea, apesar de ter tido assistentes de investigação. Mas os meus alunos em Macau deram-me coragem e uma razão de ser diferente a esta obra, porque realmente era uma falha que existia no âmbito dos estudos lusófonos e portugueses, e que é muito útil para estudantes estrangeiros. Tinha deixado o projecto em banho-maria, já depois de ter assinado o contrato com a editora, mas ao falar aos alunos de várias obras, eles mostravam dificuldade em conseguir identificá-las. Tinha de ser através da Internet e muitas vezes não tinham a certeza de que as coisas eram fidedignas. Resolvi que tinha de fazer isto, para que autores e alunos estrangeiros tenham acesso de uma forma fácil e rápida a títulos da literatura portuguesa. Curiosamente, a introdução foi também escrita em Macau, em Fevereiro deste ano, quando aí voltei.
- Há autores de Macau nesta cronologia?
R.P. – Há obras sobre Macau e a China, desde o século XVI, XVII, XVIII. Não quero estar a enumerar para não meter o pé na argola, mas há quer obras portuguesas sobre a China e a chegada dos portugueses, quer romances e contos publicados em Macau por autores portugueses, ou em Portugal sobre Macau. Está lá o Camilo Pessanha, obviamente. O João Aguiar, também. Tive essa preocupação, até por causa dos laços que me unem a Macau. Fiz questão que Macau marcasse presença nesta cronologia de âmbito lusófono.
- Quanto tempo e com quantas pessoas trabalhou neste projecto?
R.P. – Trabalhei com três assistentes de investigação, de 2006 a 2011. Foi uma tarefa difícil. Obviamente que consultei outras obras de referência – dicionários de literatura, enciclopédias, estudos de literatura – e muitas vezes as datas de uma mesma obra eram diferentes em documentos diferentes. Os meus assistentes de investigação copiavam a mesma obra para a cronologia três ou quatro vezes e com datas diferentes, e depois tive de fazer esse trabalho de expurgação, de tentar corrigir alguns erros que também tinham sido feitos em obras anteriores.
- Tem ideia de quantas obras se listam nesta cronologia?
R.P. – Não, são milhares. Não as contei e por acaso é um exercício interessante. São cerca de 260 páginas com entradas relativamente curtas. O Camilo Castelo Branco, por exemplo, tem entradas longas porque se fartou de publicar (risos).
- Que informação disponibiliza sobre cada obra?
R.P. – O autor, o ano do nascimento e da morte na primeira referência a esse autor (que normalmente as cronologias não têm), e o título da obra. As obras de cada escritor estão por ordem alfabética, para ser mais fácil a consulta. O elenco é feito por ordem anual.
- A obra será publicada no Reino Unido em Agosto. Está prevista uma edição portuguesa?
R.P. – O contrato exige-me exclusividade durante algum tempo e penso que não se justificará. Como é uma listagem, qualquer português poderá consultar. Talvez, se lhe der uma volta diferente, isso seja uma possibilidade. Mas para já será lançada brevemente em Londres, e gostava que houvesse um lançamento em espaços lusófonos, vamos ver. Gostava de apresentar o livro aí, até porque como lhe disse foi uma obra também feita em Macau. Ainda assim, a obra estará disponível para as outras partes do mundo através da Amazon.
- Depois de feito este apanhado da literatura portuguesa, que grandes momentos assinala?
R.P. – Há o século XVI, com os Descobrimentos, que é um século que tem ao mesmo tempo rupturas e continuidades. Há a tradição medieval e toda a novidade antropológica que os Descobrimentos possibilitam. Esse seria o momento que destacaria. Agora, claro que há outros. Todas as correntes literárias são momento de ruptura com a anterior. Apontaria também o romantismo português.
- Para listar as obras de séculos mais remotos, recorreu a que fontes?
R.P. – Sobretudo ao site da Biblioteca Nacional de Portugal e a várias obras de colegas medievalistas, que estudam a literatura da Idade Média. A cronologia pretende ser representativa e não exaustiva, porque era impossível apanhá-las todas – muitas delas ainda estão apenas manuscritas.
- Portanto, a ideia é que a obra seja representativa e passe pelas mais importantes obras.
R.P. – E que vá além do cânone. Foi uma preocupação que tive: elencar autores menores que ainda não estão canonizados. Nesse sentido a cronologia será uma mais-valia.
