“É muito importante para a prevenção do genocídio”
Está no Camboja há quatro anos a trabalhar no centro que apoia o tribunal onde agora começaram a ser julgados os antigos camaradas de Pol Pot. Anne Heindel, jurista especialista em crimes de guerra, fala de um processo que não tem só uma carga simbólica.
Isabel Castro
- Há quem compare o julgamento que agora começou ao que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, com Nuremberga. É um exagero?
Anne Heindel – Mais do que em relação ao número, tem que ver com a complexidade, com a quantidade de documentação que envolve. Depois, está relacionado com toda a nação, é um julgamento de nível nacional. Foi preciso fazer trabalho de investigação em muitos locais onde foram praticados crimes. A dificuldade do processo é comparável a Nuremberga.
- São arguidos quatro antigos líderes do Khmer Vermelho. Não admitem os crimes que lhes são imputados, mas a sensação que as agências internacionais de notícias têm vindo a transmitir é a de que já estão condenados à partida.
A.H. – Sim, não admitem a culpa. Mas todos sabemos que foram líderes do Khmer Vermelho – apenas um deles não terá desempenhado um papel de grande relevância. Foram líderes do regime e definiram políticas. Agora, negam que essas políticas tenham levado aos crimes que foram cometidos. É uma questão de apurar as responsabilidades que lhes podem ser imputadas, até que ponto são responsáveis pelos crimes que foram cometidos nas aldeias. Trata-se de estabelecer essa ligação.
- É o segundo processo relacionado com o Khmer Vermelho a ir a tribunal, o que acontece mais de 30 anos depois de o regime ter terminado e de os crimes terem sido cometidos. Como é que se justifica a demora?
A.H. – Em 1979, havia considerações relacionadas com a Guerra Fria e não tivemos tribunais internacionais desde Nuremberga até ao início dos anos 1990. Depois, começaram as discussões entre as Nações Unidas e o Governo do Camboja, sendo que no final dos anos 1990 e já depois de 2000 as conversações acerca da criação do tribunal atravessaram uma fase difícil. Os cambojanos queriam controlar o processo, mas as Nações Unidas não se sentiam confortáveis com essa ideia. Chegou-se depois a uma solução, mas entretanto foi preciso contratar pessoas… Enfim, foram vários passos que podem fazer com que o processo tenha demorado muito. Mas na realidade não demorou assim tanto se tivermos em consideração o tempo que passou desde que o Camboja pôs fim à sua guerra civil.
- Os arguidos são todos eles pessoas com muita idade. Estamos perante um julgamento que terá uma grande carga simbólica, certo?
A.H. – Sim, mas é muito importante em termos reais. Todo o processo de acusação tem um peso simbólico. Mas muitas pessoas no Camboja nem saberiam quem são eles, por terem conhecimento apenas do que aconteceu nas suas aldeias, não tinham uma ideia global da história. Com este processo estão a aprender e a ficar com uma imagem do que se passou, das razões pelas quais isto aconteceu. Muitas pessoas estão agora a falar das suas experiências, os filhos estão a aprender com essas experiências, o Governo adoptou um novo currículo para as escolas em que se ensina a história do Khmer Vermelho. Julgo que é muito importante para a reconciliação e para a prevenção do genocídio.
- Está há quatro anos a trabalhar no Centro de Documentação do Camboja, que presta apoio a todo este processo. Presumo que o início do julgamento seja um momento também muito importante na sua carreira.
A.H. – Sim, é muito importante. Este é o julgamento mais importante, o julgamento que nos traz uma imagem mais abrangente do que aconteceu. As pessoas no Camboja vão ficar muito mais informadas, haverá debates sobre o assunto. Hoje [ontem] ficámos a conhecer algumas das abordagens das equipas de advogados de defesa, a forma como vão abordar o assunto. Julgo que estamos perante um julgamento que é muito relevante.
