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“O público chinês vai cansar-se dos filmes de artes marciais”

Junho 16, 2011

É esta a esperança de Pan Lei, crítico de cinema local, professor e cinéfilo dos quatro costados. No dia em que em Macau se entregam os Prémio de Cinema da Imprensa Chinesa, pedimos-lhe um retrato da sétima arte – do Continente a Taiwan.

Stephanie Lai

A censura ainda limita bastante o cinema do Continente e Taiwan está na linha da frente do que se faz na região. É assim que Pan Lei, crítico regular na imprensa em língua chinesa local e professor na Universidade de Macau, vê o panorama cinematográfico.

Hoje é dia de entrega dos Prémio de Cinema da Imprensa Chinesa no City of Dreams, cerimónia que se realiza pela primeira vez no território. Pan Lei fala dos filmes nomeados mas vai mais além. Analisa o mercado do Continente e separa o trigo do joio.

- Os organizadores da 11ª edição dos Prémio de Cinema da Imprensa Chinesa consideram que os filmes de Taiwan estão em destaque quando comparados com os do Continente. “When Love Comes” e “Monga” foram bem recebidos pela crítica. O que acha que faz com que estes filmes se destaquem dos restantes?

Pan Lei – Não vi todos os filmes taiwaneses em competição, mas tive oportunidade de ver “Monga” e “Au Revoir Taipei”, filmes que considero mais acessíveis para o público do que filmes anteriores de Taiwan. Nessa lista incluo também “Cape Nº 7” [comédia romântica de 2008, muito popular em Taiwan, que não faz parte dos nomeados]. São filmes ao alcance do público em geral e com abundantes elementos locais. Em “Monga”, por exemplo, ficamos a conhecer a cultura dos mercados nocturnos no velho bairro de Wanhua, em Taipé. Ficamos também a saber como é a cultura dos gangsters taiwaneses. Em “Au Revoir Taipei”, que é um filme mais leve, há humor e há também elementos essenciais de Taipé enquanto cidade, como a Livraria Eslite, adorada pelas gerações mais jovens. O que sinto é que houve uma mudança no cinema taiwanês há sete ou oito anos, quando jovens realizadores deixaram de carregar o fardo da anterior geração, da ‘nova vaga’ do cinema taiwanês que surgiu no começo dos anos 1980. Eram filmes com uma componente mais realística, com crítica social e carga histórica. Mas apesar de o movimento ter influenciado quase duas décadas do cinema de Taiwan, os filmes sempre tiveram um toque ‘caseiro’ que os deixava algo distantes do público.

- Então, podemos assumir que gosta do filme “Monga”?

P.L. – Sim. É um filme de gangsters com uma abordagem fresca. O género costumava ser dominado pelo cinema de Hong Kong nos anos 1980 e 1990, e raramente aparecia em Taiwan. Agora temos esta obra pouco convencional, devido às suas características locais, que tem ainda um bom argumento e actores de peso. Julgo que “Monga” tem potencial para o mercado internacional. O filme popularizou actores locais, como Ethan Ruan. Antigamente, eram os filmes de Hong Kong que celebrizavam actores de Taiwan. “Monga” veio fazer a diferença.

- Qual é a importância do sucesso do cinema taiwanês para os filmes do Continente? O que é que ainda impede o desenvolvimento do cinema chinês?

P.L. – Aquilo que os filmes do Continente mostram ainda está distanciado das realidades sociais. Tem que ver com o facto de o público chinês estar mais disposto a pagar para ver filmes ‘wuxia’ [de artes marciais], que são produções massivas, com grandes elencos. Depois do sucesso de “Crouching Tiger, Hidden Dragon”, os filmes ‘wuxia’ atingiram grande popularidade – temos exemplos como “Heroes” e “Flying Daggers”. Mesmo os piores, como os muito criticados “The Promise” e “The Banquet”, conseguem ter boas prestações de bilheteira, porque é o género pelo qual o público está disposto a pagar. Tem estrelas e tem cenas de acção, tal como as grandes produções de Hollywood. Em comparação com outros países, o público do Continente ainda despende de uma proporção considerável de dinheiro para ver filmes nas salas de cinema, e também por isso prefere grandes produções. Até ver, é ainda arriscado apostar em pequenas e médias produções, em projectos mais criativos. Acredito que no futuro, com o desenvolvimento do mercado, haverá mais espaço para este tipo de produções, ao estilo da comédia negra “Crazy Stone”, que tem uns dois anos.

- Desta vez, para os Prémio de Cinema da Imprensa Chinesa, o filme “Spring Fever”, centrado na cena gay do Continente, está nomeado para as categorias de Melhor Argumento e Melhor Actor. Isto significa, de algum modo, que a censura no Continente está a ficar menos apertada?

P.L. – Não tenho a certeza disso. A situação é a seguinte: no Continente, entre os filmes mais populares do ano está um ou às vezes nenhum que fale de problemas sociais, ou que reflicta a vida das pessoas. Falo de filmes como o êxito nacional “Let the Bullets Fly” [co-produção entre o Continente e Hong Kong], obra de humor negro que de um modo muito indirecto faz uma sátira da cena política chinesa. Ainda hoje é possível ouvir os realizadores de Hong Kong queixarem-se da dificuldade de perceber os limites impostos pela censura no Continente. Um exemplo clássico é o filme “Naked Ambition”, que conta a história de dois rapazes que fundam uma revista pornográfica para ganharem dinheiro. A versão original foi completamente banida no Continente. Acabou por estrear outra versão, em que os dois rapazes são agentes infiltrados que trabalham no desmantelamento de uma rede de pornografia. E se um cineasta faz um filme de fantasmas, no final – para estar de acordo com a tradição ateísta do regime – prova-se quase sempre que não há de todo fantasmas, ou que a personagem principal sofre de algum distúrbio mental. Ironicamente, algum público do Continente acaba por ver todo o tipo de cinema, porque existe um mercado massivo de filmes pirateados em DVD. Desde que a China aderiu à Organização Mundial do Comércio, os filmes importados também têm aumentado a cada ano e isso acabará por influenciar de algum modo a censura, a longo prazo. Entretanto, o público vai cansar-se dos filmes ‘wuxia’.

- Entre os realizadores nomeados para estes prémios, quais são os que aprecia?

P.L. – Jiang Wen é genial, apesar de gostar mais dos seus primeiros trabalhos, como “In the Heat of the Sun” e “Devils on the Door Step”, do que do nomeado “Let the Bullets Fly”. Jiang Wen e os mais famosos cineastas Chen Kaige e Zhang Yimou pertencem todos à chamada ‘quinta geração de realizadores chineses’ [que se refere principalmente aos alunos que se formaram na Academia de Cinema de Pequim nos anos 1980]. Chen e Zhang fizeram filmes que reflectem profundamente a cultura tradicional chinesa, e têm uma voz mais acusatória. Jiang Wen não é como eles – tem um modo único de contar histórias, como podemos ver em “In the Heat of the Sun”, filme no qual mostra um grupo de rapazes que levam a sua vida tendo como pano de fundo um cenário de agitação política [a Revolução Cultural]. O realizador de “Spring Fever”, Lou Ye, é outro que admiro. Posso dizer que o cinema que faz é dos mais apreciados por cinéfilos e críticos. Lou Ye retrata a China moderna partindo de um ângulo alternativo, de que são exemplo filmes como “Suzhou River” e “Summer Palace”.

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