Um piquenique pela Taipa Pequena
O sugestivo nome Jardins de Lisboa não convence a Energia Cívica. A associação organizou ontem uma actividade de rua para pedir a protecção do património ecológico. Em Macau, dizem, uma colina vale mais que ouro.
Stephanie Lai
Ontem, e já na recta final da consulta pública sobre o novo projecto para o empreendimento Jardins de Lisboa, a Energia Cívica organizou um piquenique e um passeio ecológico. A associação entende que a vegetação da zona precisa de ser protegida e faz um pedido ao Governo: que preserve a colina da Taipa Pequena que, dizem, além do valor ambiental, tem um capital social. Já Agnes Lam pede mais tempo para os cidadãos se pronunciarem sobre a obra.
Entre a Estrada de Sete Tanques e a Rua Cidade de Lisboa, vão nascer duas torres residenciais, de 36 e 29 andares – a mais alta poderá atingir uma altura de 154 metros acima da água do mar. Isto se o projecto da Ka Fai for aprovado pelas Obras Públicas. A Sociedade Ecológica de Macau (SEM) e a Energia Cívica têm dúvidas. Acreditam que as obras vão ter um impacto ambiental negativo na Taipa Pequena – uma zona onde as associações encontram uma “integridade ecológica” que, reforçam, deve ser mantida.
O valor ecológico da Taipa Pequena, argumenta Joe Chan, especialista em ecologia e vice-presidente da SEM, não depende da existência de espécies raras. O que há a proteger na colina, explica, é um sistema sustentável de zonas verdes, para evitar que a ilha fique despida de árvores, arbustos, plantas e animais de pequeno porte. “Nestes últimos 20 anos, a proporção de áreas verdes ‘per capita’ está a ficar cada vez mais reduzida. Especialmente na Taipa. Há mais pessoas a viverem aqui e que precisam de espaços verdes”, destaca. “Um parque ou uma colina com trilhos é o bem mais precioso para as pessoas”, comenta.
Joe Chan entende que o Executivo deve “proteger de forma firme” a montanha, ainda que esta não sirva de abrigo a espécies raras. O espaço falará por si: “Em termos de valor social, a Taipa Pequena é uma zona para as pessoas descansarem, aproveitarem a vista e relaxarem. E, ao nível ecológico, há ainda alguma vegetação, que serve de habitat a pequenos animais, como pássaros e lagartos”, observa. “São dois aspectos que excedem, largamente, o valor económico do reaproveitamento de um terreno”, compara.
O ecologista defende que o Governo deve limitar a altura dos edifícios residenciais, garantir uma maior ventilação na zona e controlar a poluição sonora e luminosa que possa vir a ser causada pelo novo projecto para os Jardins Lisboa. “A qualidade das instituições [escolhidas pelos empreiteiros] envolvidas nos trabalhos de avaliação ambiental é desequilibrada”, alerta Joe Chan.
Já Agnes Lam, dirigente da Energia Cívica, diz-se “desiludida” pelo facto de a Administração “não ter aprendido” com os casos anteriores em que houve alterações de aproveitamento de terrenos. “Por exemplo, em relação a este projecto [Jardins de Lisboa] a primeira coisa a fazer é alargar o período de consulta pública”, propõe a académica, no seguimento do que foi já defendido pela deputada Kwan Tsui Hang.
A dirigente associativa afirma ainda que a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes deve divulgar “todos os relatórios” relacionados com o projecto – incluindo o que foi elaborado pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. Agnes Lam entende também que o Governo deve nomear “um organismo independente” para fazer uma nova avaliação ambiental na Taipa Pequena. E insiste: “O Governo tem de divulgar de antemão os pormenores de todos os documentos relacionados com o desenvolvimento do projecto”.
Chui diz que ouve toda a gente
O Chefe do Executivo, Chui Sai On, garantiu ontem que todos vão ser ouvidos sobre o novo projecto para os Jardins de Lisboa. Em comunicado, o governante prometeu “elevada transparência no processo de consulta da opinião pública” e na avaliação do novo programa de obras do empreendimento previsto para a Taipa Pequena. Chui disse que seriam tidas em conta “as opiniões de diferentes partes” e as “regulamentações vigentes”. Durante a fase de auscultação, reforçou, “o Governo pretende ouvir” todos os parceiros sociais “para, com a maior transparência, dar resposta às exigências da sociedade”.
