“A grande ambição que tenho ainda não se realizou”
Amélia António avançou à Rádio Macau que vai recandidatar-se à presidência da Casa de Portugal. Agora, em entrevista, faz um balanço dos seis anos de liderança e fala de objectivos: uma sede maior e o investimento nos workshops e no fado são prioritários.
Hélder Beja
- Como avalia o seu percurso na Casa de Portugal?
Amélia António – Acho que foi um percurso sempre de avanços. Não fiz tudo o que gostaria de ter feito e há sempre a possibilidade de fazer mais e melhor. De qualquer forma, penso que no cômputo geral é positivo, porque a Casa ganhou dimensão ao longo destes anos, conseguiu implementar muitas acções de formação que têm sido úteis, quer às pessoas do seu ponto de vista pessoal, quer como meio de divulgação da cultura portuguesa. É evidente que a grande ambição que tenho ainda não se realizou: conseguir uma sede para a casa, em que se pudesse reunir muitas das suas actividades e não tivéssemos de andar dispersos por muitos sítios. Hoje trabalhamos em cinco e às vezes seis locais diferentes, o que torna extremamente difícil a tarefa do ponto de vista económico e de coordenação. De qualquer forma, são as condições que há e não se pode parar por isso. Tem de se lutar e tentar aproveitá-las ao máximo.
- Falou da sede. Também disse à Rádio Macau que as conversas com a Administração continuam mas que ainda não foi encontrado o local. Há no território algum lugar que veja com certo para a Casa de Portugal?
A.A. – Quer dizer, se o local existisse disponível… Há locais que considero que poderiam ser bons, mas que estão ocupados, que estão a funcionar, e enquanto estiverem ocupados é difícil. Poderemos dizer que estamos na lista de espera para alguma coisa que passe a estar vaga.
- Ou por alguma estrutura nova que apareça? Também seria uma possibilidade?
A.A. – Muita coisa pode acontecer. Nunca desisto das coisas que acho que são importantes e essa é uma delas. Estou sempre atenta, mas não tenho uma varinha mágica, tenho pena (risos).
- Esse é um dos objectivos para o próximo mandato. Quais serão os outros que gostaria de ver cumpridos?
A.A. – Na promoção das coisas portuguesas, penso que poderemos ter alguma iniciativa interessante no decurso desse mandato, mas são coisas que ainda estão a ser mastigadas. Depois, temos feito um percurso, ano a ano, em que temos vindo a equipar os ateliers, de modo a poderem funcionar. Penso que cobrimos já a área que queríamos e a partir deste mandato poderemos ter as várias áreas cobertas, nomeadamente a gravura; a parte da cerâmica que só agora está em condições de arrancar; a parte da joalharia e de a tornar rentável para as pessoas que a fazem, podendo entrar no mercado – penso que é um salto muito importante, um estímulo para as pessoas que têm estado a investir na formação poderem sentir que valeu a pena. Por outro lado, trata-se também de dar um contributo maior para as indústrias criativas de Macau. Esta formação que tem vindo a ser feita é indiscutivelmente um contributo da comunidade portuguesa para o desenvolvimento de Macau numa área que se deseja mas que, por enquanto, ainda não se vê muito. Estamos empenhados em cumprir a nossa parte.
- E para isso é preciso mais espaço?
A.A. – As actividades que temos tido na área criativa têm uma procura sempre maior. É importante continuar a desenvolver isso mas passa muito pelas instalações, porque essas actividades são das que saltitam. Ora funcionam na Casa Garden, ora funcionam noutros espaços que nos são cedidos de acordo com as disponibilidades. Não há um espaço permanente em que se possa programar com segurança. Depois, na área desportiva, temos um bocado o mesmo problema. A área desportiva tem-se desenvolvido nalguns aspectos mas há outros, que envolvem a juventude, como o basquete, em que a equipa tem imensa dificuldade em encontrar campos para treinar. A natação e o ténis, áreas que a casa teve bastante desenvolvidas há uns anos, hoje estão paradas por causa dessas dificuldades logísticas… Há problemas nessa área que a gente não consegue ultrapassar, mas procuramos tentar resolver, porque não queremos deixar de lado o desporto.
- Nesse particular o futebol tem-se saído bem. Acompanha a equipa da Casa de Portugal?
A.A. – O futebol tem-se saído muito bem. Temos os veteranos e a equipa que subiu à segunda divisão. Mas temos sobretudo uma coisa que para mim ainda é mais importante, que é a escola. Neste momento temos mais de 40 miúdos na escola de futebol. Com o hóquei em patins a mesma coisa. Independentemente da equipa da Casa de Portugal, considero a escola de hóquei um trabalho muito importante que temos conseguido desenvolver. Cada vez mais precisamos de dividir a nossa actuação em áreas distintas. Temos pessoas, associados e amigos, que procuram coisas diferentes. Mas deixe-me falar de outra coisa fundamental que é a guitarra portuguesa. Ao longo dos últimos anos nunca se ensinou em Macau guitarra portuguesa, o fado nunca ganhou posição porque nunca se fez esse investimento. Neste momento, como ponto turístico, Macau tem uma procura grande por parte de turistas asiáticos que perguntam se não há fado, guitarra portuguesa. Achamos que é o momento de não perder mais tempo e de investir em força nesta área, mais a mais agora que o fado está candidato a património [imaterial da UNESCO]. Temos pensada uma acção continuada nesta área, quer de formação, quer de conseguirmos ter aqui com alguma regularidade a possibilidade de as pessoas que venham poderem sentir o ambiente e ouvir tocar e cantar. É uma das grande apostas.
- Falou da necessidade de refrescar a equipa para o próximo mandato. Já sabe quem são as pessoas que se juntarão ao projecto?
A.A. – Já. Vamos ter ao nível da direcção três elementos novos de uma camada etária jovem em que temos vindo a apostar.
- Podemos saber quem são?
A.A. – Ainda não. Como as candidaturas não estão formalizadas, não quero avançar já com nomes.
- Para fechar: o que é que está previsto para o 10 de Junho?
A.A. – Este ano a casa fará muito pouco. O Consulado e o Instituto Português do Oriente tomaram a iniciativa de ter várias actividades. O 10 de Junho não era, anteriormente, um dia em que nós fizéssemos muito, considerávamos que era um dia de comemorações oficiais. A nossa actuação era mais de aderir aos programas que havia. Depois atravessámos aquele período difícil, em que nenhuma entidade oficial fazia coisa nenhuma, a não ser a ida ao [Jardim] Camões e a reflexão, e aí agarrámos, porque não podíamos deixar cair a data assim. Este ano, como as entidades oficiais voltaram, a gente limita-se a dar alguma colaboração. Houve também outras razões, porque um bom espectáculo, como trouxemos há dois anos e no ano passado, tem de se contratar muito cedo. Não tínhamos condições para poder perceber com tanta antecedência se podíamos ou não contratar.
