O primeiro dia foi aborrecido
Fez ontem 20 anos. Rocha Vieira chegava a Macau a bordo do Flores. Chamavam-lhe o Governador da esperança, mas no jetfoil esperavam-no os moradores de barracas e funcionários do Hotel Mandarim. Os jornalistas não achavam motivo de reportagem.
Sónia Nunes
Os testemunhos sobre dias que se adivinham históricos tendem a fazer coincidir os acontecimentos com as rotinas da cidade e o estado do tempo, como se fossem presságio de mudança. Há 20 anos, a “manhã de ontem teria sido, ainda, rigorosamente idêntica a todas as outras manhãs” de Macau, se não fosse a “companhia insistente” das nuvens. Aquele 10 de Maio poderia ter sido igual “aos restantes 364 dias deste ano da Graça de Deus de 1991” – os “cidadãos deixaram, como sempre fazem, as suas casas rumo ao emprego, os veículos automóveis produziram as habituais poluições (…), as lojas de sopas de fita serviram os habituais clientes” – mas não foi.
No último parágrafo de uma reportagem de ambiente a três colunas, o jornal Tribuna de Macau explica por que se esperava que houvesse qualquer sinal que indicasse que aquele dia não era como os outros: “O novo Governador do Território já se encontrava na mais leal das cidades do mundo”. Vasco Joaquim Rocha Vieira, o general algarvio de 52 anos a quem o Macau Hoje chamou “o Governador da esperança” e desejou “um bom ‘fung soi’”, atracara no Porto Exterior. Vinha a bordo do “Flores” (na altura ainda se dizia jactoplanador), deixara o cargo de Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores e era aguardado pelo encarregado do Governo, Murteira Nabo, e por Serra Rodeia, Capitão dos Portos de Macau.
Mas recuemos umas largas horas, ao relato do Tribuna de Macau que descreve como os “ponteiros de ‘todos’ os relógios (até mesmo dos mais baratuchos) foram calcorreando os mostradores, avançado noite fora à procura de um amanhecer mais belo”. Uns quantos funcionários do Leal Senado encarregavam-se de espalhar “aqui e ali” bandeirinhas com as cores de Portugal, enquanto outros trabalhadores “tratavam de ‘lavar a cara’ das ruas por onde o ‘velhinho’ Austin, um sem número de carros pretos, um grupo de motorizadas e outras tantas viaturas haveriam de passar muitas, muitas horas mais tarde”.
Havia “prenúncio de festa”, “mas Macau, nessa altura, pouco se importava com isso”. “O trânsito continuava a circular como todas as noites” e só com o aproximar da hora “em que se daria o acontecimento que marcaria o dia” (14h45) é que, “aí sim, o Território sofreu uma ligeira metamorfose”. Foi cortado o trânsito da Avenida da Amizade e da Praia Grande, “polícias e mais polícias ‘guardavam’, com excelente brio profissional, o alcatrão das artérias VIP”, e na Ponte Nobre de Carvalho formou-se “uma longa e paciente bicha”.
No terminal, sem história
A Administração decretou tolerância de ponto mas “foram muitos” os funcionários que “dedicaram a tarde a mais umas quantas compras”. No terminal do jetfoil “eram poucas, muito poucas, as pessoas que esperavam o Governador Rocha Vieira” – o que, escreve ainda o Tribuna de Macau, não era nada que não se esperasse, uma vez que a população teria “por certo muito mais oportunidades para o ver” e, por outro lado, “tanto o canal português como o chinês da TDM transmitiam em directo todo o cerimonial”.
Na sala VIP do terminal, narra o Macau Hoje, “um painel verde e vermelho, com a inscrição em português e chinês ‘Bem-vindo Senhor General Vasco Rocha Vieira’”, saudava o 119º Governador de Macau, que a maioria já assumia como o último. O dirigente recebeu os cumprimentos da elite institucional. Estavam lá os secretários-adjuntos cessantes, o presidente da Assembleia Legislativa, o procurador-geral adjunto, os presidentes do Leal Senado e da Câmara das Ilhas, e o Bispo.
“O quotidiano do território não foi, de facto muito alterado com a chegada do general Rocha Vieira”, atesta ainda o Tribuna de Macau que dedicou oito páginas ao acontecimento. Numa coluna titulada “À margem”, o jornal diz que “além do rebentamento de panchões e da presença de um grupo de funcionários do Hotel Mandarim que, à semelhança dos moradores em barracas, também ostentavam um cartaz de saudação, [havia] apenas três ou quatro funcionários da Avis, que receberam o Governador de guarda-chuvas em punho”.
Junto ao palácio da Praia Grande concentravam-se mais populares – ainda que não fizessem metade daqueles que, em 1990, aguardavam pelo então Presidente da República, Mário Soares. Os jornalistas desesperavam: “O programa da chegada foi de facto muito monótono, sobretudo para os homens da comunicação social. Sem grandes motivos de reportagem, valeu aos ‘escribas’ da praça as duas beldades vindas da vizinha colónia britânica”.
Imprensa antevê Governo “silencioso”
O Governador falaria às 16h, no Palácio da Praia Grande. Antes da partida para Macau, Rocha Vieira declarava já à imprensa que o conceito “continuidade” resumia os princípios do programa do novo Governo. A titulação do Macau Hoje é reveladora da falta de novidades: “Num discurso sem promessas/ Rocha Vieira põe tónica na confiança política”.
O diário destacou as declarações do general que garantiu que “não faltará a Macau a expressão dessa solidariedade institucional dos órgãos legítimos do poder em Portugal” e disse que “não haverá que recear – como muitas vezes se tem insinuado – que quaisquer circunstâncias da política portuguesa se repercutam no percurso de Macau”.
“Ao longo de quase uma hora e após a leitura das 14 páginas que compunham o seu discurso, o novo Governador de Macau ainda não tinha revelado à comunidade política local quais as suas verdadeiras intenções quanto ao projecto que estabeleceu para o território”, resume, lapidar, o semanário O Clarim. O jornal sintetizou a intervenção de Rocha Vieira em cinco conceitos e analisou-os.
O general falou em ‘confiança’ porque estaria a tentar “atenuar ou desdramatizar, o facto de substituir sete secretários-adjuntos”; e destacou a ‘participação responsável’ “talvez para realçar que o período de transição não pode ser encarado, por um lado, como da exclusiva responsabilidade da parte portuguesa”, como também “não pode ser entendido como uma desculpa para um excesso (…), por parte dos dirigentes de Pequim, de ingerência nos assuntos correntes de Macau”.
A separação de poderes, continua O Clarim, “foi de facto uma das novidades do discurso de Rocha Vieira”, que pretendia “reforçar um sistema político próprio de Macau” e que vinha pronto a “assumir pessoalmente todos os encargos, para o bem e para o mal, de todas as decisões inerentes a um sistema que está todo ele virado, diríamos quase dependente de uma só pessoa: o Governador”. O semanário antevia já um Executivo “muito mais ‘silencioso’”, que teria “tendência para evitar atritos com a comunidade local através da comunicação social” – aliás, “o silêncio que [Rocha Vieira] impôs em Lisboa enquanto tentava formar uma equipa” seria indiciador. “Duvida-se que, a partir deste momento, qualquer elemento da Administração fale aos jornais, rádio ou televisão, sem a expressa autorização do Governador e que profira outro discurso que não seja o oficial.”
Podia ter sido ainda mais chato
A cerimónia de tomada de posse dos novos secretário-adjuntos – Jorge Rangel, Vítor Pessoa, Macedo de Almeida, Ana Maria Perez, Lages Ribeiro, José Manuel Machado e Salavessa da Costa – teria sido “bastante mais enfadonha e chata se não fosse a declaração do Governador Rocha Vieira de que ‘ao serviço de Macau’ não haverá que hesitar em ‘substituir aqueles elementos que, deliberada ou passivamente, estiverem a pôr em causa a determinação em defender o futuro’”.
O contraponto é feito pelo Tribuna de Macau que deu mais destaque às reacções de quem ouvia o General do que ao discurso oficial: “E não demorou muito tempo até que o repórter começasse a ouvir, em muitos casos mais em jeito de graça (…), que a referida intenção atingia em cheio fulano, sicrano e beltrano e, portanto, o melhor era começarem a fazer as malas e apanhar o jetfoil”. Afinal, seria preciso “matar o tempo de alguma forma”, ainda que houvesse quem optasse “por ter uma posição mais digna e consentânea com o estatuto” que detinha.
Uns concordaram com o que Rocha Vieira dizia, outros, mais críticos, acusavam o Governador de “não introduzir nenhum dado novo na estratégia definida pelo anterior Executivo, e de esquecer, ou pelo menos não realçar com a mesma tónica e força, alguns dos mais importantes pontos da política do Executivo de Carlos Melancia, primeiro, e Murteira Nabo, depois, como os grandes empreendimentos e a localização de quadros”, observou o jornalista Gilberto Lopes.
Na mesma edição, a Tribuna de Macau ouvia oito residentes portugueses que reflectiam um “pensamento positivo relativamente ao desempenho das funções deste novo Governo e uma franca confiança no período pós-1999”. “O novo Governador é muito boa pessoa, já esteve em Macau [Rocha Vieira foi secretário-adjunto das Obras Públicas e Comunicações], já conhece os ‘podres’, os bons e os maus do Território”, dizia José Marques, ex-agente da PSP, que estava de saída de Macau e desejava, aos que ficavam, uma transição “sincera”. Já Maria Emiliana Santos assumia que não percebia muito do política, mas elogiava o General: “Acho que o Governador já tem um bocado de experiência (…). Vai ser um bom Governo e mesmo se ele estiver até 99, acho que será bom para o povo de Macau”. Rocha Vieira foi, de facto, o último Governador e só regressou dez anos depois à cidade que um dia foi descrita como a mais leal do mundo.
Os augúrios do Va Kio
O General ainda não estava em Macau quando o jornal Va Kio desejava a Rocha Vieira que “navegue de vento e popa” e que “tenha um bom princípio e um bom fim” como Governador. A mensagem chega-nos através de uma tradução feita pelo semanário O Clarim de um editorial publicado pelo “único diário chinês de Macau a dedicar especial atenção à posse de Rocha Vieira”. O jornal esperava que o Governador não fosse “vítima do alastramento dos conflitos partidários de Portugal ao Território” e avançava com “alguns princípios que, na opinião de outro editorialista”, deviam nortear a nova equipa da Administração, “designadamente a independência partidária dos membros do Executivo”. O Va Kio entendia ainda que o número de secretários-adjuntos era excessivo, e sugeria “a sua redução para cinco ou seis, dois dos quais deverão obrigatoriamente ser locais”. Já a Tribuna de Macau, num editorial assinado por Rocha Dinis, reconhecia que o General não teria uma tarefa fácil: “Aos ‘choques’, mesmos dos legítimos interesses dos grupos e personalidades das diferentes comunidades, e a alguma ‘pequena política’, aliás, sem tensões visíveis, (…) junta-se agora uma cada vez mais omnipresente influência da República Popular da China, nem sempre de acordo com o espírito e letra da Declaração Conjunta”. Rocha Dinis via no novo homem de Santa Sancha “raras qualidades pessoais e políticas, ainda que não testado” – “dizer-se menos que isto, seria injusto, mas dizer-se mais, seria exagerado”. O Macau Hoje assume uma postura equivalente: “Aguardamos a sua prática assim como a dos seus colaboradores, sem excessivos optimismos, nem exagerados optimismos”, escreveu Meira Burguete, em editorial. O jornal delegava no General a tarefa de “garantir o prestígio de Portugal em terras do Oriente, prestígio fortemente abalado com a actuação do Governador que o antecedeu [Carlos Melancia]”.

austin