VIH é cada vez mais grave na China
Maria Caetano
David Da-i Ho estava em 1981 no hospital de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde surgiram os primeiros casos da doença que viria mais tarde a ser identificada como sida, provocada pela infecção com o VIH.
O cientista, escolhido para “homem do ano 1996” pela revista Time, esteve ontem na Universidade de Macau (UMAC) para falar sobre um programa de tratamento que desde 2005 conduz em Yunan, destinado a reduzir a taxa de transmissão do VIH de mãe para filho.
O projecto, que até hoje acompanhou meio milhar de grávidas, resultou numa redução das transmissões para níveis residuais numa província extremamente pobre da China, onde os cuidados médicos são incipientes.
Yunan é também uma das regiões do país onde se regista o maior número de infecções com o vírus da sida, atribuídas inicialmente à partilha de seringas por parte de consumidores da heroína que circula através das fronteiras do Myanmar – “em algumas zonas, mais barata que um maço de cigarros”.
A cadeia de transmissão passou rapidamente de grupos de homens consumidores de heroína para mulheres, pela via sexual, e depois para os filhos destas. O resultado é hoje “uma epidemia que, nestas bolsas, não é diferente do que sucede nos países africanos”.
No âmbito do programa foram administradas a estas mulheres combinações de retrovirais – David Ho é o precursor da terapia –, à semelhança do que sucede com grávidas infectadas em países desenvolvidos. Às crianças são por seu turno dados inibidores, e a amamentação dos recém-nascidos é substituída pela alimentação com leite em pó.
“Fazer e mostrar”
O resultado alcançado no programa conjunto com o governo provincial de Yunan foi uma taxa de transmissão de 0,4 por cento, abaixo da existente por exemplo em Nova Iorque (onde é de entre um a dois por cento). E muito abaixo da média nacional, cuja profilaxia segue os critérios recomendados pela Organização Mundial de Saúde para África.
“A razão para levar a cabo este projecto de experiência não é apenas a de conversar e recomendar, mas antes o de fazer e mostrar. De várias formas, abrir um caminho e esperámos que os bons resultados fossem bastantes para convencer o Governo [Central]”, explicou o cientista ao PONTO FINAL.
E o objectivo foi alcançado – também com recurso a várias campanhas de sensibilização e contactos de alto nível com Pequim. O Governo Central emitiu uma recomendação para que as autoridades provinciais adoptem um programa em tudo semelhante ao iniciado por Ho.
“Limitámo-nos a apresentar os dados. Julgo que reconheceram que era difícil justificar uma taxa de transmissão que era muito mais elevada que esta, o que faz com que tenham de implementar um programa melhor”, entende o director científico do Centro de Investigação sobre Sida Aaron Diamond, da Universidade Rockefeler.
Ho, que tem vindo a investigar para a criação de uma vacina contra o vírus da sida, não acredita na descoberta de cura em breve ou num futuro próximo. Mas admite que as terapêuticas têm vindo “a melhorar progressivamente”. Actualmente, a equipa do cientista procura descobrir um tratamento de regularidade mensal, que traga maior qualidade de vida aos pacientes com VIH.
No caso da China, entende que a expansão dos métodos que introduziu em Yunan poderá ainda levar algum tempo. “A política foi iniciada, mas a implementação demora um pouco. Suspeito que serão necessários alguns meses, ou até mesmo anos, para que haja uma aplicação abrangente do nosso tipo de programa”, diz. “Caberá às províncias decidirem individualmente. Mas, pelo menos, o Governo Central emitiu uma recomendação oficial”, acrescenta.
O país regista actualmente 780 mil casos oficialmente declarados de infecção com o vírus da sida, de um total de 870 mil contabilizados em todo o nordeste asiático. Mesmo que os dados não correspondam em pleno à realidade do país, David Ho entende que são já alarmantes.
“Quer sejam 700 mil, 800 mil ou um milhão, são sempre números grandes. O dado importante é que as infecções estão a crescer em 80 mil a 100 mil casos novos por ano na China. É uma epidemia muito grave”, defende.
O país regista duas grandes epidemias, de natureza diferente: a que está associada originalmente à partilha de seringas, nas províncias ocidentais, e a de Henan, resultado do caso de transfusões de sangue contaminado ocorrido nos anos de 1990.
Mas são cada vez mais os casos registados nas grandes cidades. “Recentemente, a doença está a começar a afectar homens homossexuais em zonas urbanas como Pequim e Xangai e em vários outros lugares. A taxa de infecção é hoje maior entre este grupo de pessoas, o que é muito preocupante para o Governo”, conta Ho.
