“A China de hoje é suficientemente aberta”
Qiu Jie tem 50 anos e vive entre Genebra e Xangai. Está em Macau para apresentar uma exposição individual na Casa Gaden. O artista, que também fala do seu trabalho, lamenta a prisão de Ai Weiwei mas nota uma maior abertura do país.
Hélder Beja
Cresceu em Xangai, onde estudou arte, e amadureceu em Genebra, onde fez exactamente o mesmo. Qiu Jie é um artista repartido entre dois mundos, que viveu a Revolução Cultural, os primeiros anos de uma nova China e todas as liberdades que a decisão de rumar à Suíça lhe trouxe. Hoje tem um universo singular, que plasma em grandes puzzles de desenho sobre papel ou em retratos a óleo que não perdem os tiques da propaganda comunista. O artista está em Macau e inaugura amanhã a sua primeira mostra individual no território. A sessão está marcada para as 18h30, na Casa Garden. Os trabalhos ficam para ver nas instalações da Fundação Oriente até 7 de Junho.
- O que é que vamos poder ver na Casa Garden?
Qiu Jie – A minha especialidade é o desenho sobre papel. Faço isto há muito tempo. Comecei a desenhar quando tinha 11 anos e há 14 que faço desenhos em grande escala. Queria muito mostrar o meu trabalho em Macau. Não sei porquê mas sempre tive uma boa impressão deste lugar, sempre o achei interessante. Era uma espécie de sonho que tinha com esta cidade. Fui várias vezes a Hong Kong mas nunca vinha aqui. Apenas da última vez surgiu a possibilidade de fazer a exposição e vim visitar a cidade. Gostei muito. É curioso: vi muitas coisas interessantes mas muito pouca arte moderna. Não há muitas galerias nas ruas. Então achei que seria interessante fazer uma exposição aqui, para que as pessoas a possam contemplar.
- No seu trabalho mistura influências chinesas e ocidentais. Que importância teve no seu trabalho o facto de ir estudar para a Europa?
Q.J. – Vivo na Suíça há 22 anos. Passei quase metade da minha vida na China e outra metade na Europa. Naturalmente, no meu trabalho existem dois sistemas, dois mundos, duas mentes. Tudo é diferente e eu preciso e tenho de juntar essas coisas, porque esta é a minha vida. Às vezes é muito difícil e torna-se estranho. Todos os meus sentimentos estão nestas imagens e é por isso que elas são sempre tão cheias de símbolos. O meu interior é assim mesmo. Todos os dias como pão e como arroz, como salada e como a sopa com carne de porco, leio em chinês e ouço em francês. É tudo muito diferente. Claro que os anos passaram e a China já não é como era, é mais aberta. Mesmo Macau, quando eu parti, era um território português. Tudo mudou. Nas minhas imagens nunca há um tempo ou lugar exactos, nunca há uma imagem exacta. É sempre possível fazer uma viagem. É como um sonho, com a particularidade de que o modo como ‘sonho’ é muito realista.
- Por que começou a fazer desenhos em grande escala?
Q.J – Faço obras mesmo muito grandes desde que frequentei a escola de artes em Genebra. Era apenas estudante e tinha poucas possibilidades financeiras. Não havia dinheiro para trabalhar com grandes telas. Então pensei que podia fazer na mesma qualquer coisa forte, grande e surpreendente se usasse o desenho sobre papel e fosse utilizando pequenos papéis que pudesse juntar. Este tipo de obra só surgiu por ser barata e simples – toda a gente pode comprar papel e lápis. E é sempre possível aumentá-las ou montá-las de maneira diferente em cada exposição. A pintura a óleo só veio depois, quando já tinha melhores condições para trabalhar. Durante quase dez anos só desenhei sobre papel.
- Vai mostrar uma série de retratos. Pessoas são um dos elementos que mais gosta de desenhar?
Q.J. – Esta série é feita de dois grupos. Uma parte são cópias que fiz das pinturas de propaganda comunista, a outra é composta por retratos de amigos. Isto porque frequentei duas escolas de arte. Uma na China e outra na Europa. Usei a mesma técnica que usava na China para copiar as imagens da propaganda comunista para agora desenhar os meus amigos. Uma vez mais, não há um tempo concreto. Preciso de misturar as épocas, não quero localizar os retratos. A época da Revolução Cultural é sempre qualquer coisa muito forte no meu íntimo. Não é que sinta necessidade de fazer uma crítica, apenas quero dizer o que vai no meu coração. Por isso os meus desenhos são sempre uma grande mistura, tal como a minha vida.
- Uma das suas imagens famosas é a de Mao Zedong com uma cabeça de gato. Como surgiu essa ideia?
Q.J. – Faço imensos desenhos com gatos. Nesta exposição estará apenas um pequeno. Quando ao desenho sobre o Mao… Muitos artistas fazem qualquer coisa com a sua imagem, quase sempre muito directa e irónica, talvez com uma presença feminina, etc. Eu quase nunca desenhei o retrato de Mao directamente. O que aconteceu foi que estava a fazer a série de retratos e a minha mulher e filhos disseram-me que eu estava a desenhar todas as pessoas que conhecia mas não o nosso gato. Pensei que de facto ele é meu amigo, que devia desenhá-lo. De repente lembrei-me que podia dar-lhe a farda de Mao. E logo depois ocorreu-me que ‘mao’, em chinês, também é ‘gato’. Então isto apareceu sem eu estar à procura, porque não sou um artista conceptual. Sou um artista que trabalha com os sentimentos e com o traço que a mão desenha. Gosto que as coisas surjam assim. Quando desenhei a primeira imagem com o gato, olhava para ela todos os dias. E imediatamente imensas pessoas gostaram dela. De repente tanta gente queria a mesma imagem, exactamente aquela imagem, que a minha mulher sugeriu que a replicássemos. Fizemos imensas cópias e venderam-se todas.
- Outro dos símbolos do seu trabalho é o corpo feminino, que desenha com frequência. É importante no seu universo?
Q.J. – Mais uma vez, não foi um conceito em que pensei, foi apenas sorte. Acho que tem muita piada o contraste entre elas e os soldados comunistas, que é como se não tivessem sentimentos, sempre grandes e fortes. Às vezes acho que têm qualquer coisa de James Bond. E a mulher tem sempre um ar frágil, o que torna o contraste engraçado. Às vezes penso que hoje desenho tantas mulheres desnudadas porque durante os 27 anos em que vivi na China tudo era muito duro e fechado, e agora não. Dá-me prazer fazer isso. Penso sempre primeiro na imagem. Depois, se procurarmos ligações, acho que nada está lá por acidente. Às vezes não sei porquê, e nem quero saber. Às vezes, dez anos depois, olho para o meu trabalho e percebo que numa determinada fase fazia isto ou aquilo, e é possível encontrar o motivo. Os meus trabalhos são como um caleidoscópio que mostra a sociedade chinesa de hoje, que tem um lado muito comunista, Hu Jintao e tudo mais, e outro em que há um mundo de dinheiro e mulheres que convive ali ao lado.
- É como se fossem dois mundos separados?
Q.J – Não estão separados. As mesmas pessoas que durante o dia são comunistas – porque têm de ser, porque talvez sejam chefes de um departamento qualquer – à noite podem ir até um ‘club’ e fazer qualquer coisa. É como um mundo de actores, em que a cada hora é possível mudar de personagem.
- Qual é a reacção do público europeu ao seu trabalho?
Q.J. – Ficam quase sempre muito surpreendidos, porque na Europa não temos muitos artistas que possam desenhar de modo tão realista. Agora as escolas de arte são sempre muito conceptuais. Trabalha-se com computadores e outras coisas, mas poucas pessoas conseguem desenhar realisticamente. Só que o desenho realista não é suficiente, porque há muitos artistas chineses que podem fazê-lo, mas fazem-no sem qualquer reflexão. O que fiz foi juntar as duas coisas. Genericamente, acho que gostam do meu trabalho.
- Como é que olha para a cena artística chinesa nos dias de hoje?
Q.J. – Penso que o que os artistas estão a fazer é muito importante. Não só olho para eles como sou um deles, sem dúvida. Há coisas boas e más, gosto de uns e não gosto de outros. Agora, tenho a certeza que faço parte desse grupo, que sou um artista contemporâneo chinês e que não estou sozinho. Há muitos artistas exactamente nas minhas condições, a viver entre estes dois lados. Mesmo os artistas chineses que vivem no Continente conseguem levar exposições a outros países com muita frequência. Já não há uma separação tão grande.
- Mas sente que tem de estar fora do seu país para fazer o trabalho que quer fazer ou parece-lhe que já o pode fazer na China?
Q.J – Hoje podemos fazer quase tudo, mesmo que estejamos na China. Não é possível fazer exposições nos museus oficiais, mas é possível mostrar trabalho numa série de galerias. Claro que se o objectivo for fazer alguma coisa como o Ai Weiwei, aí a questão é outra. Penso que para mim a China de hoje é suficientemente aberta, porque não é preciso ser apenas aberta quanto aos temas mas também quanto às possibilidades que dá. Na Europa há uma grande abertura de ideias, podemos dizer e fazer o que quisermos na rua. Mas é frequente não termos dinheiro ou condições para trabalhar. Já os artistas chineses mais famosos têm enormes estúdios… Então é preciso pensarmos nas condições de liberdade de expressão e nas condições materiais para avaliarmos. Temos de olhar para estas duas partes.
- O que pensa da detenção de Ai Weiwei por parte das autoridades chinesas?
Q.J. – Julgo que é uma medida demasiado forte para pará-lo. Ele apenas queria dizer alguma coisa. Nunca ameaçou ninguém com uma bomba ou uma arma. Acho que ele tem o direito de dizer o que quer e isto é demasiado duro para ele. Às vezes o Governo é assim. Genericamente, nos últimos 20 anos há cada vez mais abertura, mas às vezes coisas como esta acontecem. Tenho muita pena e espero que esta história acabe bem.
- Já disse que não é um artista conceptual. Mas o que é quer mostrar às pessoas com o seu trabalho?
Q.J. – Julgo que tornar-se artista é um modo de vida. Mesmo que não tivesse mais exposições, acho que continuaria a desenhar. Gosto deste mundo, sou feliz quando faço isto. Não sendo um artista conceptual, penso todos os dias. O que quero mostrar são as coisas que estão na minha mente. Acho que é motivo suficiente, porque vivi num período muito especial para os artistas chineses. Vivi a Revolução Cultural. Depois, vivi a era de Deng Xiaoping, parti para a Europa e regressei novamente à China. Tenho imensas coisas para mostrar. Apenas quero partilhar isso mesmo.
