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Um cancro raro em Ka Ho

April 26, 2011

Foi detectado um caso de cancro pulmonar raro numa das 520 pessoas de Ka Ho avaliadas pelos Serviços de Saúde. Dizem as autoridades que não há nada que comprove a relação entre a doença e o aterro de cinzas volantes.

Hélder Beja

Os Serviços de Saúde (SSM) convocaram ontem uma conferência de imprensa para dar conta de um caso de cancro pulmonar raro detectado numa das residentes de Ka Ho que se submeteu a exames médicos. O momento serviu também para revelar outros resultados preliminares da avaliação médica feita aos moradores da zona.

A mulher de meia-idade a quem foi diagnosticado cancro no pulmão mereceu o seguinte parecer dos SSM: “O seu diagnóstico patológico [é] carcinoma linfoepitelioma-like. Este tipo de cancro é geralmente causado por infecção pelo vírus EB e a nasofaringe é o local primário mais frequente”. O ponto mais intrigante do caso é que “não se verifica qualquer anomalia na região nasofaríngea” da paciente, pelo que a infecção poderá ter acontecido por outra via.

O coordenador do Núcleo de Prevenção de Doenças Infecciosas e Vigilância de Doença, Lam Chong, notou que “geralmente o cancro pulmonar tem que ver com o tabaco, mas este tem que ver com o vírus EB”. Este tipo de cancro é “muito raro”, de acordo com o responsável. “Gastámos bastante tempo a verificar as informações sobre esta doença”, disse, aditando que a paciente não apresentava sintomas e que a patologia “só foi detectada depois dos exames”.

Nos 503 examinados submetidos a raio-X torácicos, sete sofriam de alterações pulmonares e necessitaram de exame mais pormenorizado. Até ao momento, ainda não se verificou qualquer sinal de tumor maligno, acrescentaram os SSM.

Os Serviços de Saúde, que se fizeram representar também pelo director, Lei Chin Ion, vincaram no entanto que para já nada relaciona este e outros casos com o facto de estas pessoas viverem perto do aterro de cinzas volantes cujo funcionamento tem sido criticado nos últimos meses. “De acordo com os especialistas, não podemos chegar a conclusões sobre se os problemas do grupo têm que ver com as cinzas. Eles só sugeriram acompanhamento contínuo”, referiu.

“Os exames foram feitos e temos resultados. Mesmo entre as pessoas que não vivem em Ka Ho, os tipos de problemas de saúde detectados [a maior parte dos casos de diabetes e hipertensão] são comuns em Macau. A ocorrência de doenças em Ka Ho e noutras partes do território é mais ou menos igual, não podemos dizer que os habitantes daquela zona sofram de mais doenças por agora”, acrescentou Lei. “Talvez com o passar do tempo os resultados venham a ser outros, mas agora não. Se verificarmos isso, prometemos dizer ao público.”

Também Lam Chong concordou que “talvez os factores ambientais que provocam risco à saúde não se mostrem neste momento”. Por isso “os especialistas sugerem um acompanhamento contínuo” da situação deste grupo de pessoas. “Só depois do acompanhamento contínuo é que podemos excluir a probabilidade de as doenças serem causadas pelas cinzas volantes”, admitiu.

Já Lei Chin Ion assegurou que os SSM vão “prosseguir com o programa de acompanhamento de longo prazo deste grupo de pessoas” e que a RAEM “assume a responsabilidade pela saúde da população de Macau, especialmente da população de Ka Ho”.

Mais perto, mais saudáveis?

Um dos momentos mais inesperados da divulgação destes resultados foi quando o coordenador do Núcleo de Prevenção de Doenças Infecciosas e Vigilância de Doença, Lam Chong, referiu que “as pessoas que vivem mais perto do aterro têm menos problemas de saúde”, de acordo com os resultados obtidos junto do grupo examinado. “Discutimos este assunto com os especialistas mas ainda não chegámos a uma conclusão”, disse o responsável.

Entre as pessoas que se submeteram ao exame de saúde – que incluiu questionário, entrevista clínica, exame físico, análise do sangue e da urina, entre outros procedimentos – foi identificado um caso de leucemia mielóide crónica e outro de cancro de tiróide. Ambos os indivíduos tinham as doenças detectadas e o respectivo tratamento iniciado antes da participação neste programa. A leucemia mielóide crónica está geralmente associada à exposição à radioactividade. Quanto ao doente com cancro de tiróide, foi-lhe diagnosticado um tumor e foi submetido a tiroidectomia há anos. Entre os outros examinados, verificou-se que quatro sofriam de miomas uterinos e três de fibromas ou doenças proliferativas. “Mas nestes casos falamos de tumores benignos”, disse Lam Chong.

As análises, asseveram os SSM, foram feitas por especialistas locais e apresentadas posteriormente aos seus pares de Hong Kong e do Continente “para reverificação”. Foi ainda dito que será definido um plano de acompanhamento a longo prazo e que será estabelecida uma base de dados de saúde dos residentes de Ka Ho, avaliando regularmente o estado de saúde da população daquela área e comparando-o com o das pessoas de outras regiões.

A poluição é pouca e vem do Delta

A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) fez mais testes e diz que está tudo bem com o ar de Ka Ho. A monitorização feita durante os meses de Janeiro, Fevereiro e Março veio mostrar que “a qualidade do ar nos referidos espaços apresenta valores semelhantes aos valores referentes à qualidade do ar nas regiões vizinhas, sem que se verifique, portanto, qualquer diferença evidente”.

Ao que garante a DSPA, as dioxinas e os 14 tipos de metais pesados apresentam valores inferiores aos valores padrão segundo normas internacionais de referência. Apenas na Escola Dom Luís Versiglia e no Lar de Idosos de Nossa Senhora de Ka Ho os valores de concentração das partículas inaláveis em suspensão “ultrapassaram ligeiramente [e só durante alguns dias] os valores padrão segundo normas da qualidade do ar de Macau (150µg/m3)”, mas mantiveram-se em nível “inferior aos valores padrão segundo normas da qualidade do ar de Hong Kong (180µg/m3)”.

Para estes picos de poluição, a DSPA dá uma justificação: “O vento foi principalmente de Nordeste a Norte, o que revela que a concentração das partículas inaláveis em suspensão foi provavelmente provocada por fontes poluidores provenientes de locais remotos no Delta do Rio das Pérolas”.

Os resultados da monitorização já foram notificados às associações, escolas e representantes de habitantes daquela povoação e a DSPA já tem uma série de medidas que deseja tomar para “sustentar o melhoramento da qualidade do ar”. O organismo quer recolher e analisar amostras das partículas inaláveis em suspensão e das partículas totais em suspensão nas possíveis fontes poluidoras; arrancar com o estudo sobre a elaboração de normas de emissão para os estabelecimentos industriais altamente poluentes e o respectivo processo legislativo; instalar um sistema de circuito fechado de TV no aterro de cinzas volantes para reforçar o funcionamento da estrutura (deve entrar em funcionamento no início do próximo mês); fazer mais análises de metais pesados no solo e na poeira na zona; recolher amostras de metais pesados no solo e na poeira na península de Macau, na Taipa e em Coloane, com análises para comparar os resultados com os recolhidos em Ka Ho; e instalar postos de monitorização da qualidade do ar permanentes em locais apropriados junto à povoação.

Os Serviços de Protecção Ambiental revelaram ainda que irão solicitar a uma firma de consultadoria a “plena avaliação” das infra-estruturas ambientais da RAEM. O processo deve abranger “a concepção, os dados de operação e os registos de manutenção, as medidas de contingência, os registos de queixas, as disposições contratuais” e outros aspectos dos complexos existentes no território.

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