Também temos manual para emergências nucleares
Em caso de uma fuga radioactiva nas instalações nucleares mais próximas, as autoridades de Guangdong estão obrigadas a reportá-la a Macau e Hong Kong. O plano de contingência para acidentes atómicos foi publicado em 2008.
Maria Caetano
A 23 de Maio do ano passado, as instalações nucleares de Daya Bay, localizadas a 120 quilómetros a nordeste de Macau, registaram uma fuga de materiais radioactivos. O incidente foi considerado pelo operador dos reactores como sendo de pequena escala e sem consequências para a saúde pública das regiões próximas, mas foi apenas tornado do conhecimento público cerca de um mês mais tarde, depois de revelado pela rádio norte-americana Radio Free Asia, que citava um especialista de Hong Kong não identificado.
O Governo da RAEHK acabaria por confirmar mais tarde a situação anormal, tal como a operadora das centrais, a CLP Power – o complexo de Daya Bay possui duas centrais nucleares, uma delas em funcionamento desde 1994 e a outra desde 2000.
O caso, muito anterior ao incidente de Fukushima – central de produção de energia atómica que as autoridades japonesas tentam controlar desde 11 de Março último –, levantou a questão de saber com que transparência são geridos os processos relativos à segurança nuclear no Continente.
O assunto foi discutido no Conselho Legislativo de Hong Kong a 6 de Julho do ano passado, com a Administração da RAEHK a explicar aos deputados da região que as autoridades de Guangdong estão obrigadas a um mecanismo de notificação quando esteja em causa a libertação de substâncias radioactivas. Na situação de 23 de Maio, explicaram porém, não esteve em causa a contaminação ambiental, mas apenas uma fuga no interior dos reactores. Caso contrário, teria ocorrido a comunicação prevista.
Riscos reduzidos
À semelhança do que está previsto para Hong Kong (a apenas 50 quilómetros das centrais), também Macau goza de contactos privilegiados com as autoridades de protecção civil do Continente para a comunicação de eventuais incidentes, e há desde 2008 um plano de contingência com instruções precisas sobre o que os residentes devem fazer em caso de fuga radioactiva em Daya Bay.
A possibilidade de um incidente nuclear está também acautelada no “Sistema de Alerta e Aviso para Situações de Ameaça de Risco Colectivo” da RAEM, aprovado a 2 de Março de 2009 pelo anterior Chefe do Executivo, Edmund Ho.
O complexo de Daya Bay compreende a Central Nuclear de Guangdong (em operações desde 1994) e a Central Nuclear de Lingao (desde 2000). A informação fornecida aos deputados de Hong Kong no ano passado refere que a central de Guangdong possui dois reactores de água pressurizados com “um registo de segurança excelente a nível mundial” e que a central de Lingao funciona em moldes semelhantes.
O complexo foi inspeccionado pela Agência Internacional de Energia Atómica, bem como pela Autoridade de Energia Atómica do Reino Unido. Segundo a documentação entregue no Conselho Legislativo da RAEHK, as autoridades britânicas realizaram uma avaliação do risco das instalações e concluíram que “o risco para os residentes de Hong Kong era extremamente baixo e muito menor que os riscos encontrados na vida quotidiana”.
Já no caso de Macau, a avaliação do perigo é feita pela agência das Nações Unidas, de acordo com os dados publicados pelo Governo em 2008. “De acordo com os estudos realizados pela Agência Internacional de Energia Atómica, são reduzidos os riscos para a RAEM, em resultado de qualquer acidente ou incidente que ocorra na referida central de energia nuclear”, refere-se no folheto de “Campanha de Segurança Contra Acidentes Nucleares” publicado pelo Gabinete Coordenador de Segurança em 2008.
Informação sem demora
O documento que serve de guia para a actuação em caso de acidentes nucleares afirma que “nos piores cenários” as medidas a adoptar para distâncias superiores a 30 quilómetros de instalações nucleares são “de carácter muito simples”, admitindo-se nestes casos a “possibilidade de contaminação radioactiva, designadamente de produtos alimentares, originários de uma área afectada”.
E as medidas do Plano de Contingência para Acidente Nuclear (PCAN) serão accionadas após comunicação do Continente. “As autoridades do interior da República Popular da China informarão, sem demora, as autoridades da RAEM caso ocorra qualquer incidente ou acidente numa central nuclear”, explica o Gabinete Coordenador de Segurança, que lembra também que o território tem instalado equipamento de vigilância da radioactividade presente na atmosfera – aquele de que se têm actualmente servido os Serviços de Meteorologia e Geofísica para realizar a monitorização de radiação gama, que em excesso pode ser prejudicial às células do corpo humano ou de outros animais.
O plano de contingência da RAEM prevê o alerta à população através da rádio e televisão, bem como a distribuição de comprimidos de iodato de potássio pelos Serviços de Saúde – estes limitam a absorção da radiação pela tiróide.
As medidas de emergência aconselham também a população a procurar refúgio dentro de casas, sendo que as edificações em alvenaria oferecem “uma protecção considerável” contra as radiações. Portas e janelas devem ser hermeticamente fechadas, e os sistemas de ventilação desligados. Os cidadãos são ainda aconselhados a fazerem-se acompanhar de um rádio portátil e a consumirem apenas “água da torneira e alimentos que estejam em casa” – “evite consumir legumes e frutos recentemente colhidos”, prescreve o Governo.

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