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Na fábrica do mundo

March 30, 2011

Paul Midler escreveu uma obra sobre como as fábricas na China são enganosas. “Poorly Made In China” foi livro do ano para a Economist e agora tem edição chinesa em Taiwan. Falámos com este consultor de controlo de qualidade no Continente.

Hélder Beja

- O que é que o levou a escrever este livro sobre o modo como as fábricas operam na China?

Paul Midler – Julgo que muitas pessoas não compreendiam o quão comum é, na China, uma primeira encomenda ser óptima, uma segunda boa e de repente a qualidade começar a decair. Isto acontece a toda a hora – uma fábrica quer produzir de modo mais barato e não avisa o consumidor, que é uma espécie de público, que não vê o que está atrás do palco. O problema é que nós estamos atrás do palco e também não sabemos. Não somos consumidores que estamos a pedir à fábrica que nos diga o que está a acontecer, também somos empresas a trabalhar no sector. É muito difícil garantir o que quer que seja.

- Chegou em 2001. Com que tipo de situações tem lidado?

P.M. – Uma táctica comum nas fábricas chinesas é o aumento de preços à última hora. Muitos dos importadores não têm qualquer controlo sobre o negócio. As fábricas às vezes introduzem mudanças nos produtos e o importador apenas descobre mesmo antes do embarque, e é preciso tomar decisões. Ou se aceita o produto, com menos qualidade do que estava previsto, ou se rejeita a encomenda e se perde dinheiro. Perde-se o dinheiro do depósito e, se tivermos clientes que são grandes retalhistas e não cumprirmos com as datas de entrega, vamos perder no negócio com eles também.

- Que solução lhe parece existir para uma empresa ocidental que queira negociar com uma fábrica chinesa e controlar o processo?

P.M. – Não me foquei nas soluções. O livro sublinha uma série de problemas que existem na China. A questão é que ainda é muito difícil garantir qualidade neste tipo de ambiente. As pessoas que devem estar aqui a garanti-la são os importadores, que dão incentivos económicos para terem a certeza que não recebem maus produtos. Têm todos os incentivos do mundo para dar, mas não têm capacidade para garantir grande coisa.

- Para uma empresa ocidental, é sempre perigoso negociar com congéneres chinesas?

P.M. – Nunca digo no livro que todos os produtos na China são maus. Para usar um exemplo, nem todos os quartos de um hotel têm de ter barulho para haver um problema, basta que alguns tenham. O problema com risco – do ponto de vista do negócio – é este: muitas pessoas olham para a China e pensam ‘Ok, não me importo de tentar. Sei que é um ambiente perigoso mas talvez haja apenas um por cento de probabilidades de que o produto seja mau. Vou arriscar’. A questão é que há milhares de pessoas a fazerem negócios na China e toda a gente tem em mente que esta probabilidade de acontecer alguma coisa é baixa. Mas, quando se opera a esta escala, é óbvio que os problemas vão aparecer. Não é que a China seja boa ou má – há coisas boas e más em todos os lugares. Só que a proporção [de fábricas que operam bem] na China não é suficientemente boa. Em parte é uma questão cultural, como explico no livro. Tem-se imenso respeito pelos colegas de trabalho e pouco respeito pelo produto. Quando vêem um produto que tem um problema, os trabalhadores não fazem soar o alarme, não criticam. Pensam ‘o melhor é embalar o produto, em vez de envergonhar a minha empresa ou o meu companheiro de trabalho’.

- Pensou nas consequências deste livro?

P.M. – É um livro difícil de escrever, porque escolho exemplos que são representativos de padrões. Já conheço o padrão, sei que está a acontecer. Depois, alguém lê o livro e diz: ‘Ah, é apenas um exemplo, não é um estudo científico’. A questão é que recebo emails todos os dias de pessoas do sector. Americanos, europeus, sul-americanos. São pessoas que lêem o livro e dizem: ‘Aquilo que descreve aconteceu comigo’. Sinto-me muito próximo deste livro porque na verdade descreve a minha experiência na China e também reflecte algumas das minhas frustrações.

- Quando escreveu o livro nunca pensou que poderia vir a ter problemas?

P.M. – Posso ter tido algumas preocupações, mas não tiveram nem metade do peso dos comentários que recebi das pessoas. Muitos olharam para mim e pensaram que eu devia ser louco. Mesmo pessoas que não conheciam a China perguntavam-me: ‘Acha mesmo que é boa ideia fazer isto?’. Pensei nisso e o que achei foi que se toda a gente tomava como uma má ideia escrever um livro sobre a China, então era mesmo preciso que alguém o escrevesse, porque ninguém fala. Não se pode viver com medo de tudo.

- Correu bem, o livro foi até considerado um dos melhores do ano pela Economist.

P.M. – O livro teve algum reconhecimento e houve pessoas que me disseram que tive sorte, que estava no lugar certo na hora certa. Realmente, quando estava a escrever o livro pareceu-me tão óbvio o que estava a acontecer que pensei se haveria mais gente a ter a mesma ideia. A questão é que eu não era o único naquela posição. Tem ideia de quantos milhares de estrangeiros trabalham na China em controlo de qualidade? Há uma indústria enorme. Não sou o único que sabe alguns segredos, nem o único com olhos e ouvidos. Este silêncio é incrível. Há uma certa responsabilidade que vem com o facto de ver coisas e não dizer nada sobre elas. O livro parece um pouco difícil para algumas pessoas porque não percebem o estilo de escrita. Aqui estou eu a escrever sobre estas coisas sérias ao mesmo tempo que conto histórias sobre casas de banho, champô… As histórias parecem muito light. São light, sim, mas as ideias são pesadas, e houve quem não entendesse isso. Não escrevo como um professor.

- Vai continuar a discutir este tema?

P.M. – Tem de ser discutido. Toda a gente quer muito dizer que a China é um país muito avançado, com comboios de alta velocidade, aviões por todo o lado. Mas a atitude no país ainda é muito ultrapassada. O desenvolvimento cultural da China não acompanhou o desenvolvimento económico.

- Parece um pouco desapontado com o país…

P.M. – Não sei se estou desapontado. Sou americano e mesmo tendo passado muitos anos na China nunca perdi o meu estilo americano, nunca fingi que era chinês. Falo chinês, ok. Trabalho na China, sem problemas. Mas continuo a ser americano e orgulho-me disso. Se fosse chinês, lidaria com este problema de modo diferente e estou desapontado por não haver mais chineses interessados na mudança.

- O Conselho de Estado anunciou novos planos para o Sul da China: quer que aquela que é conhecida como ‘a fábrica do mundo’ se transforme no futuro num hub tecnológico, pleno de inovação. Isso parece-lhe possível?

P.M. – Acho que estamos muito longe disso. As fábricas com que trabalho ainda estão dispostas a dar-nos descontos quando as abordamos para fazerem produtos que lhes são completamente estranhos. Fazem descontos maiores nos produtos que nunca viram e que não sabem fazer do que nos que já manufacturam. Porquê? Porque querem ter acessos aos modelos, querem saber como fazemos. Quando menos esperamos, estão a vender o produto ao nosso concorrente pela porta dos fundos, sem nos dizerem nada. Os instintos de copiar não diminuíram, estão mais fortes que nunca. As pessoas, politicamente, adoram falar de uma mudança que está acontecer na China. Mas não é, de todo, o caso. Talvez esteja a mudar e seja melhor do que era, mas não é exactamente o que esperávamos que fosse. Na China, ninguém quer falar destas questões e claro que os problemas continuarão a existir. Em que situação é mais seguro ser um consumidor? Comprando produtos num país em que as pessoas falam? Ou num país onde as pessoas têm medo de falar, de escrever, de importar livros, de vender esses livros? É uma situação muito perigosa.

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