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Todo o amplexo de Portugal

March 4, 2011

José Mattoso, historiador que dispensa apresentações, tomou em mãos a coordenação do levantamento do património de matriz portuguesa espalhado pelo mundo. A Gulbenkian já publicou os três volumes. A Ásia e Macau estão lá.

Hélder Beja

Tanzânia, Etiópia, Myanmar, Sri Lanka. A lista pode não parecer a mais óbvia quando se trata de enumerar países com resquícios portugueses, mas eles estão lá. Agora, três volumes dirigidos por José Mattoso e editados pela Fundação Calouste Gulbenkian listam o legado de matriz lusa espalhado pelo globo, em “Património de Origem Portuguesa no mundo: arquitectura e urbanismo”.

José Mattoso, historiador medievalista – e um dos mais notabilizados do país –, não é um especialista em património português. Decidiu, ainda assim, encontrar as pessoas certas para compor este dicionário ou mapa-mundo do legado luso nos vários continentes. Em entrevista, o homem que durante 20 anos foi monge da Ordem de São Bento, vivendo na Abadia de Singeverga – e que voltou à vida laica, em 1970, para se tornar num dos académicos mais admirados do país e escrever uma História de Portugal que ainda é referência – fala da importância do que se deixou noutros países mas, principalmente, da importância de conhecer e ajudar a preservar esse património.

Sem tiques de exaltação patriótica, a obra que a Gulbenkian publica vai das fábricas às prisões, das fortalezas aos armazéns, dos hotéis aos cinemas e às sedes de bancos, das estações de correios a ruas e praças. E nunca ficará completa.

- Como aparece este projecto?

José Mattoso – A Fundação Gulbenkian financiava quase desde a época da sua criação trabalhos de recuperação de obras do património de origem portuguesa fora da Europa. Como é natural, foram-se sucedendo os pedidos de auxílio financeiro para obras do mesmo género em vários pontos do mundo. Entretanto, a UNESCO procedia ao seu programa de classificação de obras do património mundial, entre as quais algumas de origem portuguesa. O interesse por estas obras ia aumentando. Não admira que, a certa altura, tivesse sido necessário estabelecer critérios que justificassem a aceitação de compromissos análogos por parte da Fundação Gulbenkian. A maneira mais racional de responder a solicitações desse género foi proceder a um inventário sistemático dos vestígios de origem portuguesa no mundo, com indicações sumárias acerca do seu valor patrimonial, isto é, da sua importância artística, histórica e simbólica, e mesmo do seu estado de conservação. A enumeração classificada e diferenciada apresentaria os dados necessários à escolha das prioridades e à justificação das decisões. Um levantamento deste género constituiria, além disso, uma obra fundamental para conhecer a história da presença portuguesa no mundo, uma contribuição objectiva para o diálogo de culturas e mesmo um elemento promotor de acções de turismo cultural.

– Como foi possível identificar todo o património de matriz ou influência portuguesa? Encontraram dificuldades?

J.M. – Havia já muito trabalho feito, embora disperso, publicado não só em Portugal, mas também no resto do mundo. A Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses tinha já promovido contactos, editado obras e financiado projectos mais ou menos directamente ligados a este tema. Entre as suas iniciativas lembre-se, por exemplo, a revista Oceanos, que deu a conhecer muito material deste género. Não existia nenhuma obra de conjunto, mas havia especialistas conhecedores de grandes áreas da presença portuguesa no mundo e investigadores que estudaram certos sítios ou monumentos a partir de documentação escrita ou do contacto directo com os seus vestígios. Não era o meu caso, visto que sou medievalista e, por isso, sem trabalho prévio sobre realidades históricas posteriores ao século XV. A minha função consistiu apenas em escolher quatro especialistas de reconhecida competência para outras tantas áreas não europeias – o mundo islâmico, o Oriente, a América do Sul e a África subsaariana –, em definir critérios de selecção de artigos e de uniformização de apresentação dos dados. Para poder cumprir o programa em tempo útil e para assegurar uma certa normalização da informação, estabeleceu-se o princípio de não fazer investigação original, mas de apresentar a síntese daquela que já estava disponível em trabalhos impressos.

– Referiu em entrevista ao Público que interessava olhar a influência portuguesa no diálogo de culturas. Como interpreta essa influência?

J.M. – Havia a percepção global, não demonstrada, de que os portugueses teriam sido especialmente receptivos de influências estilísticas e civilizacionais extra-europeias (adopção de costumes e alimentos, por exemplo), o que os tornaria protagonistas privilegiados do diálogo de culturas. Era uma tese defendida por Gilberto Freire ou por Jorge Dias, entre outros. Dada a actual valorização dos estudos sobre os contactos culturais entre as diversas civilizações – uma das mais amplas e dinâmicas áreas de contribuição das ciências humanas para a compreensão do fenómeno da globalização e para a paz mundial – parecia fundamental averiguar de uma forma sistemática e objectiva o que os portugueses efectivamente fizeram. Não era esse o principal objectivo do nosso inventário. Mas reconheço que ele fornece dados importantes para esse conhecimento e para a sua interpretação fundamentada.

- Este projecto foi além dos territórios em que o Estado português esteve presente. Isto pareceu-lhe fundamental?

J.M. – Obviamente. A restrição do inventário a antigas colónias portuguesas deixaria de fora alguns dos mais importantes testemunhos do diálogo de culturas. De resto, não se tratava de estudar apenas os casos de influência mútua, mas também o panorama resultante de soluções umas vezes eclécticas, outras de verdadeira síntese e outras ainda de rejeição ou confronto. Tudo isso é importante para a compreensão dos fenómenos de aculturação e de inculturação.

- Os três volumes traçam um mapa do que existe, uma base de trabalho. O que é preciso – e possível – fazer a partir daqui?

J.M. – Do próprio material apresentado em cada artigo e das introduções panorâmicas sobre as grandes áreas e subáreas se verifica o grau de informação disponível, e em que direcção seria necessário orientar a investigação para a completar, corrigir ou esclarecer. O dossiê deve estimular a pesquisa, apontar problemas em aberto, sugerir eventuais correcções a dados mal fundamentados.

- Falemos da Ásia. Tal como acontece com a África subsariana, também faltam investigadores que se dediquem ao estudo desta região?

J.M. – Creio que temos já alguns especialmente competentes. O Professor Walter Rossa [ver texto nestas páginas], além de redigir ele próprio textos acerca de lugares que conhecia mais directamente, recorreu a eles para escreverem os artigos sobre lugares que já tinham estudado anteriormente. Mas o inventário mostrou que os sítios e monumentos são muitos, os problemas complexos e a informação insuficiente. Ou seja, que há muita coisa ainda a estudar e a esclarecer, quer acerca dos casos de que existe bastante informação, quer acerca de sítios e monumentos até agora desconhecidos, quer acerca de lugares de que só há notícias vagas. E há ainda os casos que levantam problemas que só se podem resolver por meio de intervenções arqueológicas.

- Do ponto de vista historiográfico, há ainda muito trabalho a fazer no que toca ao legado português no mundo?

J.M. – É evidente. Até meados do século XX, a erudição e a historiografia portuguesas do século XIX ignoraram quase tudo o que dizia respeito ao mundo não ocidental ou ocuparam-se só daquilo que podia constituir matéria de exaltação patriótica ou de demonstração da superioridade cultural do Ocidente europeu. Desde meados do século XX, os estudos e colecções documentais subordinados ao tema da Expansão multiplicaram-se, sobretudo por ocasião de eventos comemorativos, embora a sua cobertura da realidade histórica continuasse a ser muito desigual. Não se deve esquecer a meritória acumulação de dados reunidos pela Junta de Investigações do Ultramar e pelo Arquivo Histórico Ultramarino. Começaram também a aparecer alguns investigadores não portugueses interessados na mesma matéria, como, por exemplo, Charles Boxer. Mas o prolongamento da historiografia patriótica, o desconhecimento de documentação depositada em arquivos estrangeiros, e a total ignorância das línguas e literatura orientais impediram a coordenação e a actualização historiográfica deste sector da nossa presença no mundo. Este panorama só se alterou depois do 25 de Abril. Por outro lado, neste caso, como em tantos outros problemas históricos, quanto mais se alarga a pesquisa, mais necessidade se verifica de aprofundar o conhecimento.

- Este projecto incidiu também no levantamento de estruturas e edifícios contemporâneos? Outros estudos fizeram levantamentos do género mas não consideraram o património mais recente.

J.M. – Sim, embora sem pretender resolver todos os problemas subjacentes à criação de edifícios, de habitações e de equipamentos da época contemporânea. É o que acontece sobretudo na África subsaariana. Neste caso, a investigação é demasiado recente. Por isso, umas vezes pode-se contar com dados bastante completos (por exemplo sobre a obra arquitectónica de Pancho Guedes em Moçambique), outras em que eles são muito fragmentários (como para grande número de construções do fim do século XIX e princípio do século XX), outras, ainda em que são muito desiguais (como, por exemplo, os planos de urbanização). Mas a documentação de arquivo, disponível ou não, poderá fornecer e guardar ainda muitas informações até agora não utilizada. Os casos de Macau e, até certo ponto, de Goa, Damão e Diu, são um pouco diferentes, dada a existência de alguns recursos próprios e uma certa capacidade de decisão dos poderes locais.

- Foram detectados edifícios/estruturas ameaçadas, na Ásia ou noutras regiões do globo? Quais?

J.M. – Só poderia responder depois de uma releitura rápida dos três volumes. Só uma revisão sumária me permitiria fazer a lista de casos desse género. Mas a resposta, evidentemente, não poderia ser apenas de ‘sim’ ou ‘não’. Exigiria uma ponderação de circunstâncias muito variáveis. Posso, em todo o caso recordar, da leitura do texto, o caso especial dos edifícios da Etiópia, aparentemente mais ameaçados de deterioração grave.

- Em que países existe legado português que seja praticamente desconhecido e não tão evidente como o existente na Índia, Brasil ou em regiões como Macau?

J.M. – Embora a resposta a esta pergunta devesse ser dada pelos coordenadores dos três volumes, creio poder apontar como exemplos, embora em graus diferentes, a Etiópia, a Birmânia [Myanmar], a Malásia e Marrocos.

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