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A história do mais importante governador dos últimos 100 anos

March 4, 2011

Uma obra fundamental sobre a história contemporânea de Macau, uma autobiografia política que confirma o que muitos suspeitavam: Garcia Leandro foi o mais importante governador do último século.

João Paulo Meneses

“Macau nos anos da Revolução Portuguesa, 1974-1979”, de Garcia Leandro, é provavelmente o mais importante livro sobre a história contemporânea de Macau. E, entre as várias razões que justificam esta afirmação, destaca-se uma: confirma aquilo que alguns suspeitavam, mas que não ousavam clarificar por falta de um suporte – Garcia Leandro foi o mais importante governador de Macau dos últimos cem anos.

Agora, depois de se ler o livro, ficam poucas ou nenhumas dúvidas [se o período do “1,2,3” estava já bem explorado e os anos mais recentes também são bem conhecidos, faltava uma obra que documentasse os anos seguintes à Revolução de 1975].

Garcia Leandro foi um governador notável, essencialmente por três razões:

− pelas dificuldades contextuais em que governou (o pós-Revolução em Macau, sem relações diplomáticas com a China e com diversas tentativas para implantar outro regime político localmente, sobretudo pelos militares do Movimento das Forças Armadas (MFA); em 51 meses de Macau lidou com oito governos, cinco primeiros-ministros e dois presidentes da República, em Lisboa);

− pelo que realizou nesses quatro anos (o excelente Estatuto Orgânico, a revisão do contrato de jogo, o arranque do aeroporto, etc.);

− pela forma como o fez (com firmeza, mas sobretudo alicerçado em valores como a honestidade, a honra; ficou famoso, e o livro recupera bem isso, o decreto em que proíbe prendas acima de determinado valor, para tentar combater a imagem de corrupção generalizada que encontrou quando chegou a Macau);

Garcia Leandro, 30 anos depois, tem a noção do trabalho que realizou (“um relato fiel e fundamentado da história”), mas não é nem de perto uma obra glorificadora. Escrita na primeira pessoa, esta autobiografia política é, ao mesmo tempo, livro de memórias e um ensaio histórico. O autor admite várias vezes erros de percurso, que o tempo ajudou a compreender, mas também serve para corrigir outros (factuais e de cronologia, como refere relativamente ao livro de Almeida Santos).

As esquerdas de Macau

Trata-se de um livro muito completo, que abarca todas as áreas em que Garcia Leandro interveio, com recurso a datas e a nomes – mesmo daqueles com quem não teve bom relacionamento ou quem se incompatibilizou.

Além disso está repleto de pormenores, sejam eles pitorescos ou mesmo ‘policiais’, que tornam esta obra ainda mais agradável de ler.

Vários desses pormenores estão relacionados com a divergência de ideias políticas, imediatamente após o 25 de Abril de 1974.

Garcia Leandro chegou a Macau em Novembro desse ano, depois de uma primeira deslocação a pedido do MFA, que serviu para ouvir sensibilidades e explicar a decisão de manter em funções Nobre de Carvalho, o último governador nomeado pelo fascismo (até Outubro, para inaugurar a ponte com o seu nome).

Rapidamente se viu envolvido num clima de fractura (por vezes mesmo de intriga e conspiração) política e ideológica: “o relacionamento com a esquerda civil e militar foi-se agravando e não contava naturalmente com o apoio e a compreensão da direita macaense” (pág. 64). Neste contexto, destaca-se um nome, o do capitão Catarino Salgado, representante do MFA no território. “Era a terceira vez que Catarino Salgado não cumpria uma ordem. (…) provocar confrontação e ao mesmo tempo medir forças para apurar quem, efectivamente, detinha o poder local” (pág. 76). No culminar da tensão (em que alguns oficiais passaram a andar armados e parecia que uma revolta seria iminente), Catarino Salgado foi detido no Palácio do governador e enviado imediatamente para Lisboa.

“O nosso 25 de Novembro tinha sido feito alguns meses antes, em Julho”, escreve (pág. 78), para mais à frente (82) perguntar: “Embora todos estes factos tenham agora apenas um interesse histórico, é importante que fiquem registados, sendo de perguntar o que teria acontecido ao futuro de Macau se a linha radical do MFA e do CDM não tivesse sido derrotada em Julho de 1975?”. Na mesma linha ainda, Garcia Leandro escreve: “Arranjei de factos alguns inimigos à esquerda” (pág. 59).

“O mais importante legado do meu governo”

A revolução de 74 obrigou a mexer no estatuto de Macau, seja ao nível político-administrativo, seja da autonomia face a Portugal (e à China). Dois exemplos: Macau não podia continuar a ser uma colónia e teria de ser repensada a posição/papel das forças armadas portuguesas.

Com a proposta de Estatuto Orgânico discutida entre Lisboa, Pequim e Macau, conseguiu-se um documento absolutamente revolucionário: surge por exemplo a formulação do ‘território chinês sob administração portuguesa’, surge a dependência política do Presidente da República e não do Governo, e surge a Assembleia Legislativa, eleita parcialmente pela população. “No início admiti ingenuamente a hipótese da AL ser toda eleita por sufrágio directo”, escreve o antigo governador, para reconhecer logo a seguir que teria sido “um erro grave” (pág. 87).

A primeira eleição decorre logo em 1976 (com a vitória da ADIM, de direita, e o segundo lugar de um novo grupo chamado GEDEC, onde pontificava Jorge Rangel, também eleito).

Garcia Leandro olha para trás e vê com algum gozo que Hong Kong iniciou o processo de ‘democratização’ 20 anos depois. Foi “o mais importante legado do meu governo”, reconhece (pág. 83).

A revisão do contrato de jogo

Uma das partes mais saborosas de ler em “Macau nos anos da Revolução Portuguesa, 1974-1979” é o capítulo dedicado à revisão do contrato de jogo.

Garcia Leandro começa por recordar que o antigo governador Silvério Marques foi demitido/substituído quando ousou adjudicar o contrato de jogo à então desconhecida STDM (Março de 1962), por pressões da família Fu.

Esse contrato tinha uma revisão prevista para 1975/76 e o governador considerou que os nove milhões de patacas que então eram pagas anualmente eram uma verba demasiado baixa. Deixou tudo e todos de boca aberta quando pediu 120 milhões por ano.

Os detalhes envolvem tensão e traição (davam um filme…) e, depois de muitas negociações, as contrapartidas subiram, a partir daí, para cerca de 70 milhões. “Julgo que não me saí mal” (pág. 193), admite, revelando que “a STDM não gostava obviamente do maior controlo a que passou a estar sujeita por parte do governo, sendo essa a razão de algumas campanhas graves contra mim, nomeadamente na comunicação social de Portugal e de Macau, bem como tentativas de influência junto do poder político em Lisboa” (pág. 200).

Do Banco de Macau ao ministro no 10 de Junho

Já se disse, Garcia Leandro fala de muito mais neste livro – de tal maneira que nunca mais poderemos olhar para a segunda metade da década de 70 em Macau sem ter como referência o livro (e mesmo para os historiadores interessados no processo revolucionário em geral esta obra é importante, já que o então governador teve como interlocutores personagens determinantes como Álvaro Cunhal ou o antigo presidente Costa Gomes).

Fala por exemplo na tentativa fracassada de criar um Banco de Macau, como forma de responder ao desinteresse do BNU pelo território. Garcia Leandro pretendia maior autonomia, com controlo a partir de Macau, e mais receitas. Mas isso não interessava ao BNU (que teria 49 por cento do novo banco) e o CDS/ADIM boicotaram essa intenção (págs. 152-157). Entretanto, chegou a Macau Melo Egídio e o projecto foi abandonado (ainda que o ‘susto’ tenha servido para o BNU passar a ter outra atenção a Macau).

Outro exemplo: na página 257, Garcia Leandro faz aquilo que nos parece ser uma revelação: Mário Soares defendeu que a transição acontecesse apenas em 2007.

Alargar a dimensão geográfica de Macau foi outra das suas ideias, tendo alimentado durante algum tempo o objectivo de Portugal voltar a administrar as ilhas da Lapa, D. João e da Montanha.

Ficamos ainda a saber que foi a partir da sua governação, 1977, que se tornou hábito um ministro vir a Macau no 10 de Junho.

Podia ter sido um manual precioso

Pessoalmente, há muito que esperava este livro, tendo desafiado várias vezes Garcia Leandro a escrevê-lo. Sabia que, em qualquer circunstância, seria sempre importante, mas o resultado surpreendeu-me.

Poderia haver a ideia de que o livro serviria para esclarecer de uma vez por todas a ideia de que Portugal, naqueles anos, propôs a devolução de Macau à China, mas a obra – que aborda naturalmente o assunto (por exemplo, pág. 21), vai muito para além disso.

É, sem dúvida, “um relato fiel e fundamentado da história” (pág. 21) mas é, sobretudo, um livro à altura do legado que Garcia Leandro deixou nos 51 de meses em que governou Macau, de 1974 a 1979.

Se há uma crítica a fazer, ela resulta apenas de sair tarde – 20 anos antes teria sido muito útil para os futuros governadores.

“Macau nos Anos da Revolução Portuguesa, 1974-1979”, Garcia Leandro, é uma edição da Gradiva. Tem 336 páginas.

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